Poesia no CAM: obras da exposição «Arte Britânica – Ponto de Fuga»
Poema A GESTAÇÃO inspirado na obra Bearing I (1987 – 1993), de Antony Gormley
Normalmente, x poeta prepara-se, escreve na sua privacidade, reescreve, declama e treina até de forma cronometrada para garantir que a sua atuação é impactante.
No «SLAM no CAM» foi diferente; senti-me despida, incapaz de apresentar uma vulnerabilidade segura e controlada. Ao deparar-me com a obra senti-a crua, visceral, senti uma brutalidade que nutrimos enquanto humanos e a que sou muito sensível. É desse espaço que parte este poema, um explorar desprotegido desse desconforto.
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Venho hoje,
oficialmente,
comunicar-vos que…
(caso ainda não tenham reparado)
a humanidade encontra-se
– em processo de gestação.
Uma equipa de investigadores
está encarregue de nos indicar,
exatamente,
o momento em que ocorreu
– a fecundação
e, consequentemente,
quando podemos,
coletivamente,
– observar o parto.
É uma gestação atípica,
pois sabemos já que
não foi fruto do amor,
mas do terror
e tragédia
de milhares.
Na verdade,
a humanidade deixou de saber amar
também há milhares
(dois, para ser exata),
quando, contra a cruz,
o ódio coletivo ao Amor
se revelou.
Insistiu, ainda,
que não mais aprenderia
a arte do amor
com cada mau olhado,
sorriso falso e dissimulado,
raiva, inveja e todo o outro pecado
já concretizado.
Durante esta gestação
temos assistido à guerra civil,
quente ou fria…
e assistiremos ainda
àquela que está por vir,
embora nos tenham prometido
que nunca mais viria.
Investigadores lançam algumas hipóteses
quanto à aparência do feto que,
com tenebroso esforço
e ódio coletivo,
estamos seguros
de que algum dia virá.
Até lá,
fizemos um pacto secreto:
o povo ficará cego
para não ver a barriga da terra inchar.
A isso a paz interior obriga,
há que viver como se não
estivesse o mal
já a espreitar.
Não sou eu estudiosa,
ou investigadora,
só mesmo mera curiosa…
mas se alguém me perguntar,
ao olhar, eu direi que o aborto desta “revolução”
se faz na escolha de,
mesmo de olhos bem abertos,
ver o mal
escolhendo não compactuar;
não mais continuar a contribuir para esta gestação
e, uma e outra vez, ver a humanidade errar
e escolher, ainda assim,
vulnerável ficar.
Sei que é difícil fazer isso
se sentiste já o chão a estalar
enquanto, com meditação,
te tentavas acalmar.
E não sou eu estudiosa,
ou investigadora,
só mesmo mera curiosa…
Mas eu acho que esta terra
ainda vai parir uma guerra,
e, ao nascer este feto,
com ele eclodirá
muita, muita tragédia.
Mas eu cá,
vou tentar ainda a minha sorte,
e continuar a amar de olhos bem abertos
perante este nascer da humanidade
a sua própria morte.
Mariana Bonito
Poema Gaiola Aberta inspirado na obra Loop (1988), de Graça Pereira Coutinho
Foi um desafio despretensioso e profundo. Um poema escrito a quatro mãos e três corações. Dois deles já se conheciam, mas Graça Pereira Coutinho chegou de 1988 no nosso encontro em 2025, a lembrar-nos da vulnerabilidade e da delícia que é viver para/com/pela/sendo poesia.
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Eu tenho uns riscos dentro da cabeça
Que é quando ela deita…
Eu tenho comigo umas tretas que é quando percebo que
Eu quero ser poeta
Eu sem você quem seria?
Sem tempo não se cria
Sem cria não se tenta
Sem tento me perdia
Perdida, não compensa
Eu sem você quem seria?
A porta sempre esteve aberta
A prisão é a gente quem cria
Mentira!
A gente acredita que precisa
Das grades
Do enrosco
Eu grito por criar SUFOCADA ATÉ O PESCOÇO
Eu fui poesia
Fui esperança
E no fim queria mesmo
Ser tão sua quanto sou dela
Quisera…
Comia a poesia
Sem pressa, nesse pêndulo
Eu tento
Tento tempo
Tento tanto
Tanto trampo
Lamento tanto
Me vi perdida
Mas penso nela
Logo queria
Dentro desta gaiola dançar com ela
Mas a arte chama
e a parte dela
Me toma tanto
Me faz ausente
Quem sente?
Eu presa em você, sufocaria
Abre a gaiola
Me balança
enquanto você é prosa
Eu quero ser poesia
Eu quero ser poesia!
Sem despedidas…
Eu escrevi uma carta aberta ao meu amor
Por mais que o tempo seja curto
E quase nunca eu consiga dizer como me sinto
Escrevi sobre o labirinto que me aprisiona
E sobre a liberdade que vivo contigo
Karen David e Marina Campanatti
Poema Ponto de Fuga inspirado na obra School – Classroom (1990), de Mark Wallinger
Ao escrever sobre o quadro School – Classroom, senti o reconhecimento das ausências e presenças que uma sala de aula pode oferecer. Refleti sobre como ela pode ser espaço de carência ou de plenitude para o aluno.
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Sala de aula escura
no meio do quadro uma luz
Sala de aula escura
no meio do quadro uma luz
Tudo em profundidade
Isso me faz lembrar de alguma coisa
Da escola que eu estudei no Sertão da Paraíba
a luz era a professora que me ensinou a ler
Da escola que hoje ensino
em um bairro social em Lumiar
a luz daquelas crianças sou eu
Quando chegam tristes porque
“A polícia levou meu pai embora, monitora”
“Me leva nas cavalitas minha mãe nunca tem tempo”
“Não gosto do dia da família”
“Eu nunca tenho lanche minha mãe nunca tem dinheiro para comprar”
Ver a escassez no olhar de quem tem tão pouca idade
Tanto por dizer
Eu que acho que ensino
Percebo que eu que estou ali para aprender
Me faz confusão uma criança pagar gravemente pelo erro de um sistema que assiste a abundância crescer e apunhala as costas da pobreza do pai trabalhador
Eu não as ilumino
Eu as ouço
E elas brilham
Eu não as ilumino
Eu as ouço
E elas brilham
Esse é o ponto de fuga: Educação.
Manu