Poesia no CAM: obras da exposição «Paula Rego e Adriana Varejão. Entre os vossos dentes»
Poema FOTOTIPOS inspirado na obra Polvo Color Wheels (2015), de Adriana Varejão
Relativamente ao poema finalista, confesso que de antemão fiquei meio ansioso e preocupado, sem saber do que se tratava a obra, porém quando recebi uma breve explicação por parte da Daniela, aquilo atiçou em mim um tema poético que muito há por se dizer, e incrivelmente já tinha abordado de forma correlacionada no poema lido anteriormente. Assim sendo, fiz o acasalamento de textos sobre a imigração e racismo que já venho preparado de forma solta, com algumas ideias espontâneas surgidas no momento, foi um momento inspiracional e único, pelo que gostei imenso da experiência tão desafiadora.
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Cá estou sozinho e esperançado
neste mundo com sonhos não dados
Sou o que quiseres denomina
Sou aquilo que quiseres chamar
Cá estou e juntos vamos caminhar
Não sou bege
Não sou cor de burro quando foge
Não sou base 02 da prateleira
Nem tom neutro da novela das oito
Sou o tom que não tem nome
Sou a cor que não se esconde
Minha pele tem sol
Tem barro
Tem brasa
Tem suor dos que vieram antes
e silêncio que vira asa
sou descendente de gente que pintada com história, que não apareceu nos livros, mas deixou na pele memória
pele parda, preta, morena
pintada de dor, lavada de poema
Cada tom é um grito que não cabe na tabela, minha cor não é escolha de aguarela
Já tentei me clarear com o olhar do outro mas percebi:
Meu brilho não depende de aprovação
Sou constelação em carne
Sou a arte que não cabe na palma da mão
Dizem que a cor não importa
Mas o que acontece quando ela importa demais
Quando ela define se você entra ou fica para trás
Quando ela dita quem morre primeiro
Quem apanha mais
Quem é visto como perigo mesmo antes de abrir a boca
Tons de pele são códigos
São mapas de luta
Não é só estética é estrutura
Minha cor é vivência, é presença que não se apaga, é veneno que o mundo se nega mas a verdade se escancara
Então respeita:
Respeita o preto que é rei mesmo sem coroa
Respeita o tom canela que carrega alma boa
Respeita o corpo mestiço
Que não cabe na caixinha
Aqui ninguém é rascunho
Aqui toda cor caminha
E eu
Eu sou todos os tons que disseram pra esconder
Sou mistura sobre cor para doer, no sistema no espelho, na mentira que contaram pra´ você
Quando me perguntam qual é a sua cor?
Eu respondo:
Sou a que nunca se apagou
Sou a que resistiu
Sou a que veio e nunca mais partiu.
Gunji
Poema Perde-se a democracia inspirado na obra Tríptico (1998), de Paula Rego
Conhecendo o conceito da exposição e as artistas em questão, pensei previamente nos temas que poderiam surgir no sorteio das obras. Vários tópicos se cruzam com os que abordo nos meus poemas e achei que seria mais simples por isso. Não foi. Foi inquietante. Acabei por escrever um poema bastante distinto do qual imaginei aquando do sorteio. O poema guiou-me. As eleições recentes potenciaram esse trajeto. Que não abortemos os nossos direitos. Fui por aí. Confrontada com o pouco tempo para planear a linha condutora, surpreendi-me. A qualidade do ponto de partida foi sem dúvida um bom impulso.
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Toda a gente aqui hoje
Sabe o que sinto sobre o direito ao aborto
O que não sabem é
Que já abortei
Os suores frios
As cólicas
Os pontapés
Dados por um ser morto
Que insiste em não partir
As pontadas no ventre
Que insiste em parir
Todas as mulheres que vieram antes de mim
Abortaram
Muitas espontaneamente
Há uma linha ancestral
De aborto natural
Achei que eu seria diferente
Mas trago-o nos genes
O meu corpo insiste em sentir
Essa culpa genética
Oiço num sonho
Cabe-me a mim quebrar o padrão
É uma diferença milimétrica
Em pedir desculpa
E pedir perdão
Sinto que falhei a todas as que vieram antes de mim
Sabe deus as que virão
Suspeitaram que tivesse apneia
Durante o sono
Das noites meias
Agitadas, tempestuosas
Em que puxava o freio
Travão inoportuno
Nada acontecia
Mergulhada em águas gelatinosas
Acordava suada
Cansada
Sabia que no fundo
Não tinha ido a lugar algum
Além profundidade
Nunca tinha de lá saído
Um dia acordei em confronto
Com cartazes por toda a parte
Confrontada com o meu rosto
Tinham me dado como perdida
Ouvi "Vai encontrar-te"
Ainda em lençóis encolhida
Bem podes espernear-te
Enquanto estiveres ai estendida
Como irás confrontar-te
Com a infindo beco sem saída
Escrevo-te avó minha
Digo-te não queria
Lutei com tudo o que tinha
Sei que quando ouviste
Que eu seria Maria
Ouviste resiliência
Pureza
Em rebelia
Mae eu engravidei
Não quis abortar
Era filho de todos os homens
Que em mim deixei entrar
Hoje choro na cama
Depois de tanto soco
Tenho dado tudo o que tenho
Meu corpo diz-me
Deste tão pouco
Sinto escorrer
Pelas minhas pernas
Vem socorrer
E as minhas perdas
Jurei um dia
Que ia ser mãe
Engravidei
De nados mortos
Na ecografia
Não vi ninguém
Juro devota
Avó tentei
Senti o coração bater
Da democracia
Mas em maio passado
No meio de nossos votos
Sem querer abortei
Tudo o que queria
Nossos direitos
Pelos Filhos nossos
A vida
O corpo
A alma
Daria
Ontem abortei
Sou fértil hoje
Para o novo dia
Maria Caetano Villalobos
Poema ESTOUROU O MUNDO inspirado na obra Mapa de Lopo Homem (1992), de Adriana Varejão
A interpretação de uma obra de arte é sempre muito pessoal. Mas, Adriana Varejão, com esta obra e a influência das outras já observadas, despertou, em mim, o interesse por uma analise mais aprofundada, que o tempo, tão limitado, não me permitiu. Apesar de tudo, foi um desafio e uma pressão, que muito me agradou e o resultado aquele flash.
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Estourou o mundo!
Ali, mesmo ao meio…
Quem fica com ele,
Se o querem inteiro?!
E lá estão as feridas,
Abertas, ainda,
À espera, também,
Que as venham sarar…
Mas porquê no mar?
Que se passou lá?
Esperam que alguém
As possa curar?...
Se os poderosos,
Não sabem?... Nem querem
Ver o que se passa…
Estamos tramados!
Mas tudo é possível!
A força de todos
Vai dar que falar
E, espero que seja
De grande união
Pra tudo sarar.
Zé