Viagem à Hungria

Concertos de Domingo

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Em 1896, o compositor checo Antonín Dvořák inspirou-se em contos do folclore local para a criação de quatro poemas sinfónicos, sobre poemas de Karel Jaromír Erben. Uma dessas peças intitula-se A Bruxa do Meio-Dia e retrata os potenciais excessos da proteção dos filhos quando os pais tentam mantê-los a salvo das ameaças do mundo exterior. É também a ligação à cultura popular que está na base do Concerto Romeno de Ligeti, enquanto Liszt se debruçou sobre melodias gregorianas para a criação de Dança da Morte. Num programa fértil na exploração de pistas criativas, ouviremos também a música que Verdi compôs para a ópera Macbeth, a partir de uma das mais emblemáticas peças de teatro de William Shakespeare.

 

Música e Ciência: Catarina Carmo

Dança dos mosquitos

Como se relacionam a música e a ciência? Numa parceria com o Instituto Gulbenkian de Ciência, em cada Concerto de Domingo um investigador é convidado a apresentar um tema que relaciona as duas áreas.


Programa

Orquestra Gulbenkian
Nuno Coelho Maestro
Nuno Cernadas Piano
Maja Plüddemann Comentadora

György Ligeti (1923 – 2006)
Concerto romeno
1. Andantino
2. Allegro vivace
3. Adagio ma non troppo
4. Molto vivace

Franz Liszt (1811 – 1886)
Dança da morte, S. 126

Antonín Dvořák (1841 – 1904)
A Bruxa do Meio-Dia, op. 108

Giuseppe Verdi (1813 – 1901)
Música de bailado da ópera Macbeth

Comparada amiúde à produção literária dos Irmãos Grimm, a escrita do checo Karel Jaromír Erben explorava muitas vezes esse universo em que o imaginário infantil se deixa atravessar por histórias sombrias e até mesmo macabras. A intensa sugestão visual das suas palavras iria suscitar no compositor Antonín Dvořák (1841 – 1904), em mais do que uma ocasião, uma resposta musical de idêntica intensidade. No momento mais significativo dessa relação com a obra de Erben, Dvořák musicou quatro poemas sinfónicos a partir da coleção de baladas Bouquet, entre os quais se encontra A Bruxa do Meio-Dia.

A história, baseada num conto popular, relata a ameaça de uma mãe que, enquanto prepara o almoço, é interrompida uma e outra vez pelo filho, sedento de atenção. Numa tentativa de apelar ao seu bom comportamento, a mãe acaba por assustá-lo ao contar que as crianças malcomportadas são castigadas e levadas pela Bruxa do Meio-Dia. E eis que, às doze badaladas, a bruxa aparece mesmo para levar a criança, enquanto a mãe a fecha num abraço protetor. Fértil em interpretações – desde os exageros da proteção parental às ameaças exteriores como forma de condicionamento comportamental –, o texto de Erben arranca também de Dvořák uma das suas mais pungentes narrativas musicais, com uma abrangência de ambientes que vai desde a despreocupada harmonia familiar ao pânico e ao horror.

Referências semelhantes estão na base da Dança da Morte que Franz Liszt (1811 –1886) começou a compor nos anos 1830, mas só viria a completar passada uma década. Inspirada por temáticas sombrias, recolhidas tanto nas xilogravuras em que Hans Holbein colocava a Morte enquanto personagem no centro da sua criação, quanto no Julgamento Final sugerido por um fresco no Camposanto de Pisa, esta Dança da Morte (chamada igualmente danse macabre) funda-se sobre um motivo popularizado desde a Idade Média e que remete para a ideia universal da morte – que não poupa ninguém, qualquer que seja a sua condição social em vida.

A busca incessante por pistas criativas fora do âmbito estrito da música, que muitas vezes permite que a imaginação se expanda em direções imprevistas e surpreendentes, e que se encontra no centro deste programa, encontra na música que Verdi compôs para Macbeth outro extraordinário exemplo. Numa diferente aceção do que podem significar “zonas sombrias”, o italiano escolheu basear-se na peça homónima de Shakespeare para trabalhar sobre obscuras pulsões humanas como a corrupção política, o despotismo, o autoritarismo e a vertigem do poder. Tudo muito longe, portanto, daquilo que levou György Ligeti à criação do seu Concert Românesc. Para o compositor húngaro, o estudo da música popular, na senda de Bartók e Kodály, foi decisivo, embora o principal alimento para a sua escrita tenha residido nas memórias de uma infância vivida na Transilvânia que gravaram em si a imagem de músicos que atacavam febrilmente os seus instrumentos escondendo-se por detrás de máscaras de animais.

A inspiração, na verdade, está um pouco por todo o lado. É preciso é saber procurá-la e dela extrair algo de luminoso.


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