A construção do oleoduto Iraque-Mediterrâneo

O oleoduto Iraque-Mediterrâneo, o primeiro oleoduto transnacional do mundo, inaugurado em 1935, foi construído por iniciativa da Iraq Petroleum Company Limited, consórcio empresarial no qual Calouste Gulbenkian detinha a famosa participação de 5%.
10 nov 2023 10 min
Dos Arquivos

Construído entre 1932 e 1934 pela Iraq Petroleum Company Limited (IPC) através da sua subsidiária Mediterranean Pipe-Lines Limited, o oleoduto Iraque-Mediterrâneo encontrava-se previsto no Acordo firmado em 14 de março de 1925 entre a então Turkish Petroleum Company Limited (TPC), antecessora da Iraq Petroleum Company Limited, e o Governo do Iraque, no contexto da concessão atribuída, em exclusividade, a essa empresa para a prospeção, exploração e exportação de petróleo nesse território.

Logo em outubro desse ano são iniciados estudos de exploração e prospeção geológica, realizados por 5 equipas de geólogos, abrangendo o território da concessão.

Os trabalhos de perfuração, começados em abril de 1927, produzem os seus primeiros resultados e, em outubro desse ano, jorra petróleo em Baba Gurgur, nas proximidades de Kirkuk.

A abertura deste poço, pela excecional abundância em crude que propiciou, revelara, contudo, as fragilidades do sistema de aproveitamento e escoamento do petróleo. A construção do oleoduto tornara-se, assim, muito urgente, tendo-se dado prioridade à formulação deste projeto, em detrimento dos trabalhos de extração.

A partir de janeiro de 1928 dá-se início aos trabalhos de pesquisa no terreno. Um pequeno escritório da empresa é aberto em Beirute em meados de 1929, juntando-se aos já existentes em Bagdade e Kirkuk – onde são concentradas todas as operações relativas ao futuro oleoduto – e, no final desse ano, já se encontravam em estudo possíveis trajetos tanto a Norte como a Sul do território.

No ano seguinte é tomada a decisão final de bifurcar a linha do oleoduto nas proximidades de Haditha, prosseguindo para o Mediterrâneo, pelo Norte, via Síria e Líbano, terminando em Trípoli, e pelo Sul, via Transjordânia e Palestina, terminando em Haifa.

Esta decisão, como refere Nubar Gulbenkian na sua autobiografia, fora motivo de fervorosa “(…) discussão entre os vários participantes na I.P.C. (…) Por razões puramente financeiras, era óbvio que o oleoduto devia seguir a rota mais curta e segura para o mar, e isso implicava orientá-lo para Trípoli (…)

Tal significava, contudo, atravessar território sob mandato francês e, portanto, ficar sob o controlo francês, o que, por razões políticas e comerciais, servia aos franceses e, por razões puramente comerciais, nos servia a nós [os Gulbenkian].

Não servia, porém, aos grupos britânicos, que queriam que o oleoduto atravessasse o território sob mandato britânico da Palestina e terminasse em Haifa. (…) Nenhum dos lados parecia disposto a ceder, até que o impasse acabou por se resolver (…). Por sugestão de um dos americanos, acordou-se que existiriam dois oleodutos”.

No final desse ano é aprofundado o estudo das duas linhas. O projeto geral do oleoduto é acelerado pelo novo Acordo assinado entre a agora Iraq Petroleum Company Limited e o Governo do Iraque em 24 de março de 1931.

Acordos entretanto celebrados com os governos da Palestina (5 de janeiro de 1931), Transjordânia (11 de janeiro de 1931), Líbano (25 de março de 1931) e Síria (25 de março de 1931) permitem a passagem das condutas por esses territórios.

Estava em marcha o primeiro oleoduto transnacional do mundo.

As primeiras demarcações físicas no terreno acontecem ainda em meados desse ano. São instalados novos escritórios da Iraq Petroleum Company Limited em Haifa, Amã e Trípoli.

No âmbito da Iraq Petroleum Company Limited são criados, para os assuntos relativos ao oleoduto, o Pipe-Line Committee, como órgão consultivo, e a Mediterranean Pipe-Lines Limited, como empresa subsidiária. Neles terá Nubar, em representação do seu pai, papel ativo.

Aliás, Calouste Gulbenkian já havia delegado no seu filho, bem como em Kevork Essayan, seu genro, os assuntos relativos à participação na Iraq Petroleum Company Limited.

É a cargo da Mediterranean Pipe-Lines Limited que ficará a gestão da construção do oleoduto. Logo em 1932 são assinados contratos entre a Iraq Petroleum Company Limited e esta sua subsidiária para a transferência do direito de construção, propriedade e utilização (19 de fevereiro de 1932), bem como para a construção propriamente dita do oleoduto (11 de março de 1932).

Estabelece-se a data-limite de 31 de dezembro de 1935 para o término dos trabalhos.

O processo de construção decorre entre 1932 e 1934. Partindo de Kirkuk, o alinhamento do oleoduto é feito via Fatha Gorge até Haditha, nas proximidades do rio Eufrates, onde é feita a bifurcação. A partir daqui a linha do Norte segue por Al-Qaim e daí por Palmyra e Homs até ao Terminal de Trípoli. A linha do Sul segue por Muhaiwir e daí por Rutbah, Um-el-Jemal e Jisr al Majami até ao Terminal de Haifa.

Desde logo entendido como a grande obra de engenharia em construção à época, e também a mais cara – “The most expensive chicken in history”, como lhe chamou Nubar –, em plena depressão económica mundial, o oleoduto Iraque-Mediterrâneo tem a capacidade de transportar por via terrestre, em tubagem de aço de 12 polegadas de diâmetro (reduzida para 10 e 8 polegadas em alguns pontos do trajeto), cerca de 4 milhões de toneladas de petróleo por ano.

Ao longo do percurso, o petróleo é impulsionado por 12 estações de bombagem. Para além dessa função essencial, estas servem igualmente como ponto de controlo da quantidade e qualidade do líquido escoado, bem como base para reparação e manutenção do oleoduto.

No tronco comum, entre Kirkuk e Haditha, o oleoduto compreende 3 estações – K1 a K3. Após a bifurcação de Haditha, a linha do Norte, para Trípoli, compreende 4 estações – T1 a T4 – e a linha do Sul, para Haifa, 5 estações – H1 a H5.

Todas elas são defendidas como autênticas fortalezas. A este propósito relata Nubar: “Passei a noite numa das estações de bombagem que, com o seu alto muro à volta, se assemelhava mesmo a um forte (…), de facto, cada uma das estações de bombagem fora construída do mesmo modo, para suportar possíveis ataques beduínos”.

Nubar tece ainda algumas considerações acerca da construção do oleoduto, quando esta se encontra no seu auge: “Na primavera de 1933 fui ao Médio Oriente numa visita de inspeção à Iraq Petroleum Company e às suas atividades. (…) O principal trabalho em curso era a construção de oleodutos paralelos para transportarem petróleo (…). Um dos aspetos mais notáveis da instalação do oleoduto era a energia e o entusiasmo de todos os que se dedicavam à tarefa. (…) À medida que prosseguíamos de carro, via o modo como o oleoduto estava a ser construído. Primeiro havia os grupos que soldavam as extensões de cano umas às outras (…). Depois vinham as escavadoras, roendo uma trincheira contínua no deserto deixando montes de terra ao longo da mesma. Depois disso, vinha uma máquina que embrulhava o oleoduto com o que pareciam ser gigantes rolos de papel higiénico; esses rolos eram feitos de papel betuminoso e o seu propósito era impedir a corrosão. Em seguida vinha outra máquina para alçar o oleoduto para dentro da trincheira e, por fim, uma que o enterrava ao empurrar a terra novamente para a trincheira, cobrindo-o.”

Calouste Gulbenkian, na sua viagem ao Egito, Palestina e Síria, em 1934, na sua breve passagem por Haifa vindo de Beirute, documenta no seu diário, na entrada relativa ao dia 13 de fevereiro: “(…) Cheguei aos escritórios da I.P.C. em Haifa. Antes de entrar na cidade, avistei o oleoduto da I.P.C. mas não vi muito; estava tudo coberto. Fui (…) ao Monte Carmelo para ter uma vista geral do porto e das várias instalações da Companhia: vi muito pouco: um porto como tantos outros, terrenos, algumas construções”.

Concluído mais de um ano antes da data prevista, o oleoduto com a instalação da tubagem, centrais de bombagem, terminais marítimos e todo o conjunto de infraestruturas de apoio necessárias ao seu funcionamento, tem um custo total aproximado, à época, do valor previsto de 1 milhão de libras, num esforço suportado pela Iraq Petroleum Company Limited através dos seus acionistas.

O primeiro petróleo chega a Haifa a 16 de outubro de 1934.

As cerimónias de abertura oficial do oleoduto começam a ser planeadas no mês seguinte. São enviados convites a individualidades, definem-se dias, percursos, horários e alojamentos para os convidados.

Calouste Gulbenkian declina o convite para participar nas cerimónias. Representando os interesses da família, Nevarte, mulher de Calouste, viaja para o Médio Oriente, acompanhada pelo irmão Yervant Essayan: “Querido, estou muito animada! Eu disse ao seu pai que adoraria ir a Bagdade. Ele não faz nenhuma objeção!” relata, entusiasmada, ao filho Nubar a 6 de novembro.

Este decidira não acompanhar a mãe nesta longa viagem, ajudando, todavia, no seu planeamento.

A Iraq Petroleum Company Limited havia informado Nubar sobre a preocupação com as senhoras que pretendiam viajar para Bagdade, devido à incerteza do clima e à fraca acomodação do hotel.

Dias antes do início da viagem, Nevarte acabaria por ser alertada pela empresa de que as senhoras não estavam autorizadas a ir de Bagdade para Kirkuk para participar nas cerimónias de inauguração, tendo de permanecer em Bagdade.

A Iraq Petroleum Company Limited não aponta razões especiais para esta restrição a não ser a falta de acomodação no avião para as transportar.

Ainda assim, Nevarte e Yervant partem de Marselha a 4 de janeiro a bordo do vapor Sibajak, chegando a Port Said, no Egipto, a 7. No dia seguinte, viajam de comboio para Jerusalém, onde chegam a 11.

Entretanto, entre os dias 9 e 11 de janeiro, os convidados vão chegando a Jerusalém, partindo, de seguida, para Bagdade. Nevarte acaba por permanecer em Jerusalém na companhia da família de Waley Cohen e de seu irmão Yervant, não prosseguindo viagem.

As cerimónias de inauguração decorrem entre 14 e 24 de janeiro em Kirkuk, Damasco, Homs, Trípoli e Amã, com a presença, entre outros, de altos membros da Iraq Petroleum Company Limited e de individualidades com funções políticas e diplomáticas no Médio Oriente.

O oleoduto esteve operacional entre 1935 e 1948, apesar de pontuais ataques de grupos beduínos.

É inegável a sua importância estratégica durante a Segunda Guerra Mundial, sobretudo no abastecimento às forças aliadas a operar no Mediterrâneo. A partir daqui o oleoduto vai perdendo progressivamente relevância, fruto da instabilidade política da região.

Em 1948 o Governo do Iraque corta as remessas de petróleo para Haifa. Nas décadas seguintes avolumam-se os conflitos entre o Governo e a Iraq Petroleum Company Limited conduzindo, em 1972, à nacionalização da indústria petrolífera no Iraque.

Série

Dos Arquivos

Momentos relevantes na história de Calouste Gulbenkian e da Fundação Gulbenkian em Portugal e no resto do mundo.

Explorar a série

Definição de Cookies

Definição de Cookies

Este website usa cookies para melhorar a sua experiência de navegação, a segurança e o desempenho do website. Podendo também utilizar cookies para partilha de informação em redes sociais e para apresentar mensagens e anúncios publicitários, à medida dos seus interesses, tanto na nossa página como noutras.