“A escola tem de ser um lugar que permita a mobilidade social”

Antiga bolseira Gulbenkian Mais, mestre em Paris e consultora na UNESCO, Catarina Cerqueira acredita que a influência de um mentor pode fazer toda a diferença para o sucesso escolar de um estudante. Conheça o seu percurso.
© DR
Catarina Cerqueira standing in front of UNESCO's Headquarters in Paris © DR

Catarina Cerqueira estudou em diferentes escolas na periferia de Lisboa e desde cedo se deu conta das desigualdades sociais que a rodeavam e dos múltiplos fatores que definem o sucesso ou insucesso escolar entre alunos. Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, candidatou-se à Bolsa Gulbenkian Mais com o objetivo de fazer um semestre de Erasmus no segundo ano, cumprindo o seu sonho de viver em Paris.

Foi a França que voltou e lá ficou, na Sciences Po Paris, para o Mestrado em Políticas Públicas, com uma especialidade em Política Social e Inovação Social. Pelo meio fez um estágio na UNESCO, onde ainda hoje trabalha como consultora na área da Educação – a sua área de eleição – e criou um programa de mentoria, em parceria com o Serviço de Bolsas da Fundação Gulbenkian, ao qual chamou “Raízes”. No futuro, espera poder contribuir para melhorar a área da educação, em particular em Portugal, num contexto que lhe é familiar e onde sabe que há ainda “imensas coisas onde trabalhar”.

 

Está a estudar e trabalhar em Paris. Há alguma razão em particular para ter escolhido esta cidade?

Foi o primeiro sítio para onde viajei fora de Portugal. Vim quando tinha 12 anos e, não sei se por ter sido a minha primeira viagem ou se por ser Paris, fiquei apaixonadíssima e disse “um dia tenho de viver aqui”. Desde os meus 12 anos que o meu quarto estava cheio de posters da Torre Eiffel, era uma espécie de objetivo de vida. Não me arrependo porque gosto mesmo muito desta cidade. Tem uma riqueza cultural imensa e gosto muito da língua.

 

O estágio na UNESCO surgiu a partir daí? Como foi essa experiência?

Sim, a sede da UNESCO é aqui em Paris. É uma experiência em crescimento, onde cada vez vejo mais as possibilidades de ter impacto naquilo que é e vai ser a educação.

 

Como surgiu o projeto “Raízes”?

Durante o primeiro ano de mestrado tive de fazer um projeto de impacto social para uma aula e esta foi uma ideia que sempre esteve presente na minha cabeça. As escolas onde andei tinham muitos alunos desfavorecidos ou de origem imigrante; desde muito cedo percebi que havia ali uma série de desigualdades no acesso ao ensino superior, que o sucesso escolar vai muito além do empenho e que as condições que se tem em casa são determinantes.

Basicamente, neste projeto alunos do ensino superior vão ser mentores de alunos do ensino básico e secundário, não para dar explicações, mas para dar informação sobre o acesso ao ensino superior, sobre a orientação profissional – aquele apoio que deveríamos ter nas escolas mas não costumamos ter, sobretudo nas mais desfavorecidas.

Em junho de 2019 apresentei a ideia à Gulbenkian e em setembro desse ano comecei, com quatro outras bolseiras e em coordenação com o Serviço de Bolsas, esta espécie de projeto-piloto. A ideia era cada uma comunicar com as suas antigas escolas, que identificariam um aluno com potencial para ir para o ensino superior mas que, por uma série de razões, tivesse dificuldade. Durante este ano letivo fui mentora de duas raparigas que entraram na universidade.

A ideia agora é a de que todos os bolseiros Gulbenkian Mais tenham um pouco esta missão de ser mentor de um aluno nas suas antigas escolas. Porque nós, que sabemos que a bolsa da Gulbenkian existe, acabamos por ser os mais privilegiados dos não-privilegiados. Então como é que fazemos a informação chegar àqueles que precisam e não têm o privilégio de, por exemplo, ter uma prima, como eu, que me falou da bolsa e me levava aos museus e à Gulbenkian. É essa a ideia deste programa, que se chama “Raízes”.

 

O que espera fazer no futuro? Será alguma coisa nessa área?

Neste momento estou a trabalhar em Educação num âmbito mais geral, mas mais tarde gostaria de fazer algo em Portugal que realmente permitisse diminuir as desigualdades que ainda existem a nível da educação, porque há imensas coisas onde trabalhar. A escola não pode ser um lugar onde se reproduzam as desigualdades sociais; a escola tem de ser um lugar que permita a mobilidade social. Gostava de trabalhar nesse sentido, porque ainda não é uma realidade.

Esta bolsa da Gulbenkian e outras coisas permitiram-me talvez esta mobilidade, mas não gosto que digam que sou um exemplo de que ela é possível. É possível em alguns casos, com vários elementos de sorte à mistura, mas para muita gente ainda há um determinismo muito grande que não o permite.

 

Diz que a bolsa Gulbenkian mudou a sua vida. De que forma?

A bolsa mudou a minha vida porque me permitiu não colocar barreiras aos meus sonhos. Desde o secundário que queria fazer Erasmus em Paris, e sabia que provavelmente teria uma bolsa da DGES mas que isso não seria suficiente. No fundo, permitiu-me acreditar nos meus sonhos sem estar limitada pelos recursos financeiros dos meus pais. Neste momento vivo na Casa de Portugal em Paris, que foi criada pela Gulbenkian… Por isso o senhor Gulbenkian está sempre presente. [risos]

Tenho muito orgulho de ter tido esta oportunidade com a Gulbenkian e tenho um carinho muito grande pela Fundação. Acho que não deixei a minha experiência enquanto bolseira acabar quando deixei de ser bolseira. Até estou mais ligada à Gulbenkian agora, uma vez que tenho este projeto, e estou muito contente por poder fazer parte disso e ter acesso a esta plataforma.

 

Onde é que se vê daqui a cinco, 10 anos?

Gostava de me ver a fazer algo que tivesse um impacto na vida de crianças e jovens, seja a um nível mais de terreno, numa escola, seja já a um nível de decisão, num Ministério de Educação, numa fundação que trabalhe nesta área ou numa organização internacional, como estou agora. Sempre disse que acho que a profissão que me faria mais feliz seria ser diretora de uma escola, mas não acho que isso vá acontecer nos próximos cinco anos [risos]. Se me perguntarem onde é que me vejo nos próximos 15 ou 20 anos, diria que me vejo como diretora de uma escola, onde possa desenvolver projetos que toquem as várias partes do desenvolvimento dos estudantes dessa escola.

 

Em Portugal?

Sim, gostava de fazer isso em Portugal. Não por ser o meu país, mas por conhecer essa realidade, porque foi nessa escola que cresci. Antes tinha muito uma visão de que o importante é trabalhar nos países em desenvolvimento, na área dos direitos humanos. Depois, fiz uma viagem à Índia em que percebi que conhecer o contexto importa, ou seja, não podemos simplesmente ir para um país e achar que podemos resolver os problemas desse país. É muito importante conhecer o contexto. O contexto que conheço melhor é o europeu, e nomeadamente o português, por isso é que me dirigi mais para a área das políticas públicas. Apesar de neste momento estar a trabalhar numa organização virada para a área do desenvolvimento, tenho consciência de que não há, como se diz em inglês, um “one size fits all”, não se podem dar remédios gerais para problemas muito distintos.