Zineb Sedira: «Acredito que o envolvimento com o passado é essencial para compreender o presente e avançar para o futuro»
Rita Fabiana: O título da exposição Standing Here Wondering Which Way to Go [Permaneço Aqui Pensando que Caminho Seguir] convoca uma canção interpretada por Marion Williams no primeiro Festival Pan-Africano de Argel, em 1969, original de 1956, da cantora gospel americana Mahalia Jackson, uma ativista pelos direitos civis americanos, próxima de Martin Luther King. Este título carrega consigo tanto as marcas da opressão, como da esperança e da euforia (do fogo[1]), vividas nessas décadas de 1960 e 1970, quer pelas lutas de libertação africanas, quer pelas lutas dos direitos civis norte-americanos.
Neste projeto, como noutros, mergulhas nesses momentos de mudança do curso da História. Mas o título aponta também para um ponto de viragem, um olhar para o futuro: o que ficará de todas estas lutas, de todas estas utopias, dessa esperança numa mudança do mundo? Não há ponto de interrogação, mas a questão está lá: wondering which way to go [que caminho seguir?]. Que outros «fogos » guarda este título?
Queres falar-nos também desta relação com o tempo (passado, presente e futuro) no teu trabalho, e neste projeto em particular? Como artista, olhas este passado, estes arquivos, estas imagens, estas canções, mas a tua prática artística está ancorada no presente, para o presente e, talvez, para o futuro?
Zineb Sedira: Marion Williams atuou no Festival Pan-Africano de Argel (também conhecido como PANAF), em 1969, ao lado de artistas icónicos, como Nina Simone, Archie Shepp, Miriam Makeba, entre outros – músicos convidados precisamente porque encarnavam os ideais anti-imperialistas e anticapitalistas. Argel recebeu então ativistas afro-americanos, incluindo membros dos Panteras Negras, oferecendo a sua solidariedade na luta contra a segregação nos EUA, uma luta que ressoava profundamente na própria história revolucionária da Argélia.
Tanto as canções de Mahalia Jackson como de Marion Williams, e a minha instalação de 2019 Standing Here Wondering Which Way to Go, apresentam ao mesmo tempo uma questão e uma posição. Expressam um momento de incerteza coletiva, mas também uma busca por modelos alternativos de governação, cultura e identidade. Na própria expressão, há hesitação, reflexão e urgência – uma ressonância que fala poderosamente ao contexto político de hoje.
Não esqueçamos que o PANAF não foi apenas um evento cultural, foi uma declaração geopolítica, uma plataforma onde vozes marginalizadas se uniram para redefinir o significado da solidariedade global.
Acredito que o envolvimento com o passado é essencial para compreender o presente e avançar intencionalmente para o futuro. Os atos de recordação são poderosos: revelam como as lutas de hoje contra a desigualdade e a injustiça são ecos de batalhas anteriores, mesmo que agora tomem novas formas. A luta continua – e também a nossa memória coletiva deve permanecer.
E talvez seja hora de revisitar este momento passado – não com nostalgia, mas com clareza – para aprendermos com os seus fracassos e sucessos, e para pensarmos como estes podem inspirar o presente e o futuro.
RF: O que te levou até ao Festival Pan-Africano de 1969 em Argel? Queres dizer algumas palavras sobre o teu interesse pelo pan-africanismo e como este se manifesta no teu trabalho e, em particular, neste projeto?
ZS: Participar na reconstituição de 2009 do PANAF, em Argel, foi um ponto de viragem para mim; revelou-me o profundo significado do evento original de 1969. Comecei, então, a pesquisar este momento crucial, e descobri, claro, que o icónico filme de William Klein Festival Pan-Africano de Argel, de 1969, encomendado pelo Estado argelino, continua a ser o único registo completo do festival. Na altura, os relatos escritos eram escassos, e o material de arquivo em Argel era difícil de aceder. De certa forma, esta ausência de registos tornou-se o próprio projeto – uma missão de recuperação, que juntasse fragmentos de uma história que sentia ser demasiado vital para ser esquecida.
Enquanto mergulhava nos arquivos da edição de 1969, Argel era mais uma vez agitada por protestos e debates políticos – desta vez através do movimento Hirak, uma poderosa revolta contra o governo. O que mais me comoveu foi o profundo sentimento de solidariedade e determinação que varreu o país. Testemunhar este desenrolar dos acontecimentos pareceu-me quase surreal, fazendo eco do espírito do Festival Pan-Africano de 1969, quando Argel serviu também de palco para a esperança coletiva, a resistência e a imaginação política.
O meu interesse pelo pan-africanismo decorre do facto de, apesar de a cultura africana possuir uma vasta diversidade de histórias e identidades, persistirem tensões – particularmente entre os especialistas culturais de África – entre o Norte e o Sul, muitas vezes enraizadas em debates sobre autenticidade, identidade e representação. Enquanto artista argelina africana, experimentei pessoalmente estas formas de exclusão – por causa da minha herança árabe, berbere e mediterrânica, e por vezes até devido à cor da minha pele.
O meu projeto no CAM aborda diretamente estas dinâmicas, desafiando a visão estreita e essencialista de África que omite as histórias partilhadas do continente de colonização, resistência, migração e longo intercâmbio cultural. Estas divisões são, em parte, um legado colonial que continua a moldar as perceções contemporâneas. Rejeito esta lógica e procuro, em vez disso, afirmar a unidade na diversidade, tal como o Festival Pan-Africano de Argel, em 1969, que se estabeleceu como um espaço poderoso para a expressão das identidades plurais e das histórias interligadas do continente.
RF: Há uma frase sobre Argel de Amílcar Cabral, fundador e secretário-geral do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde) e pan-africanista, dita numa conferência de imprensa em Argel, em 1968 – «Os cristãos vão para o Vaticano, os muçulmanos para Meca e os revolucionários para Argel». Argel é desde 1962, o ano da sua independência, um modelo de «revolução» anticolonial. Esta dimensão revolucionária e esta referência de Argel como um lugar revolucionário para todas as lutas das décadas de 1960 e 1970, onde o cinema ocupa um lugar muito importante, desempenha um papel crucial no interesse que tens pela cidade?
ZS: Enquanto cinéfila, fui naturalmente atraída pelo programa de cinema do PANAF. Os filmes então exibidos na Cinemateca de Argel, fundada em 1965, foram uma revelação. A rica seleção de «cinema africano» incluía filmes que abordavam a revolução, o racismo, a colonização, o anticapitalismo e a recusa da guerra. Histórias que, como é claro, ressoavam profundamente com o fervor político da época.
Numa altura em que o Norte Global ignorava, em larga medida, o cinema africano, o Festival Pan-Africano de Argel ofereceu aos cineastas uma plataforma vital para exibirem o seu trabalho e envolverem-se em diálogo – criando um momento de verdadeira solidariedade pan-africana, seja artística, intelectual ou política. A Cinemateca de Argel tornou-se mais do que um mero espaço; foi uma plataforma de despertar cultural, e de consciência política, que durou várias décadas. Como Amílcar Cabral observou corretamente, nas décadas de 1960 e 1970, a Argélia era um país que acolhia revolucionários e, durante o Festival, esse espírito revolucionário estendeu-se para o ecrã.
E, claro, o filme de William Klein encontrou o seu lugar nesta paisagem cinematográfica revolucionária. Tal como os filmes africanos exibidos no PANAF, a obra de Klein tornou-se parte do próprio arquivo de resistência que a Cinemateca procurava amplificar.
RF: A História, e a História da Argélia – a guerra contra a opressão colonial francesa, as lutas pela independência, a construção do país, a deslocação de populações, as viagens e a imigração – emergem no teu trabalho como uma história coletiva e pessoal. O teu trabalho está na encruzilhada destas narrativas? Na instalação Standing Here Wondering Which Way to Go, na Cena 3: Way of Life, reinstalas, reconstituis e encenas a tua sala de estar londrina, um lugar de vida que reapresentarás no projeto da Bienal de Veneza em 2022. Parece-me particularmente bem-sucedida aqui a relação ao pessoal e ao autobiográfico, que negoceia e participa na construção de uma narrativa coletiva.
ZS: Como sabes, sou francesa de ascendência argelina, nascida na década de 1960 de pais que emigraram paraos subúrbios parisienses, oriundos da Argélia sob o domínio colonial francês. Mudei-me para o Reino Unido em 1986. A nossa família incorpora o legado emaranhado da colonização e da sua chamada «descolonização», embora a libertação nunca seja tão simples.
Nasci numa França mergulhada em discriminação e ressentimento, motivada pela perda da guerra da Argélia e pelo colapso da sua identidade imperial. Como tal, é profundamente relevante que o meu trabalho sobre «descolonização» comece pela história da minha família. As nossas experiências – de imigração, discriminação, violência colonial e resiliência – não são meramente pessoais; refletem uma realidade coletiva mais ampla, que se estende para além do contexto argelino. Acredito que a arte pode ser uma força poderosa – contra o esquecimento, o apagamento e as narrativas impostas.
Recriar a minha sala de estar em Brixton, Londres, como um diorama-obra de arte foi, admito, bastante autobiográfico. Mas senti que era importante fazê-lo, especialmente porque a minha sala de estar se tornou uma metáfora, um microcosmo do próprio Festival.
Tal como o PANAF, foi um espaço onde recebi amigos, dancei, vi filmes, cantei, partilhei refeições, e realizei longos e apaixonados debates. Incorporou o espírito de reunião, troca e celebração que o Festival representou em maior escala. Convenientemente, a minha sala de estar também está mobilada e decorada com elementos de design da década de 1960. Tem uma grande estante cheia de livros sobre estudos pós-coloniais, ao lado de uma coleção de DVDs, discos de vinil – blues, rhythm and blues, calypso, rocksteady. Percebi na altura que estes objetos – colecionados ao longo de muitas décadas – encarnavam os próprios temas de protesto, resistência e expressão cultural que eu própria estava a investigar. A sala tornou-se tanto um arquivo como um palco: um espaço habitado de memória, política, cinema e música que ecoa o espírito do PANAF.
E sim, foi angustiante revelar um espaço tão íntimo, mas senti que era necessário – para colocar o pessoal em diálogo com o político. Ao expor a minha sala de estar, convidei os espectadores para um espaço onde convivem a vida quotidiana e o pensamento radical. Foi uma forma de reduzir a distância entre o lar e a história, para mostrar como o político é sempre também pessoal. Mas foi igualmente um convite para o público entrar na minha história e, por extensão, numa narrativa coletiva maior: um ponto de entrada onde a experiência privada ressoasse com lutas políticas e culturais mais amplas.
A entrevista completa está disponível no jornal da exposição Zineb Sedira. Standing Here Wondering Which Way to Go.
[1] Alusão à Cena 2 da instalação, intitulada For a Brief Moment the World was on Fire… [Por um Breve Momento, o Mundo Estava em Chamas]