Requiem de Verdi

Coro e Orquestra Gulbenkian / Lorenzo Viotti

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Marina Viotti, irmã do maestro Lorenzo Viotti, teve a sua estreia na Gulbenkian Música em Dezembro de 2020, quando os dois se juntaram para levar à cena a tragédia lírica La Voix Humaine, de Francis Poulenc. Antes dessa auspiciosa primeira passagem pelo Grande Auditório, a meio-soprano fora eleita “Melhor Jovem Cantora do Ano”, em Londres, no mesmo ano (2019) em que o maestro suíço partilhou connosco a sua visão do Requiem de Mozart. Os dois voltam a juntar-se na partilha de outra obra magistral, o Requiem que Verdi quis escrever depois de ter visitado a campa de Alessandro Manzoni, romancista e poeta que muito admirava.


TRANSMISSÃO


Programa

Coro Gulbenkian
Orquestra Gulbenkian
Lorenzo Viotti Maestro
Marina Viotti Meio-Soprano
Joshua Guerrero Tenor
Adriana González Soprano
Mika Kares Baixo

Giuseppe Verdi
Messa da Requiem
1. Introitus: Requiem aeternam – Kyrie
2. Sequentia: Dies irae
3. Offertorium: Domine Jesu Christe
4. Sanctus – Benedictus
5. Agnus Dei
6. Communio: Lux aeterna
7. Libera me

Composição: 1873-74 / rev. 1875
Estreia: Milão, 22 de maio de 1874
Duração: c. 1h 25 min

A morte de Alessandro Manzoni, a 22 de maio de 1873, foi um acontecimento transcendente para a jovem Itália. Poeta e novelista, símbolo nuclear do Risorgimento, o movimento político e social que havia conduzido à unificação da península itálica num só estado, Manzoni era considerado, unanimemente, o pai da moderna língua italiana e a reserva moral da nação. No dia imediato à morte de Manzoni, Giuseppe Verdi (1813-1901) escrevia ao editor Tito Ricordi que era seu desejo promover algo em memória do poeta. A proposta não tardou a chegar às mãos do Presidente da Câmara de Milão, Giulio Belinzaghi, que aceitou os termos do compositor: um Requiem, a ser estreado no primeiro aniversário da morte de Manzoni. As despesas de execução correriam pelo município milanês e Verdi asseguraria o pagamento da impressão das partituras, dos músicos envolvidos, bem como a direção musical. O compositor foi célere na escrita, e a 10 de abril do ano seguinte enviou o manuscrito final a Ricordi. Contudo, dada a insistência de Verdi para que a homenagem decorresse numa igreja, começaram a surgir entraves à concretização do projeto. Era necessário que o Arcebispo de Milão autorizasse, a título excecional, o uso de vozes femininas e aceitasse o texto padrão do rito romano da Missa de Defuntos, ao invés do rito ambrosiano, prerrogativa da arquidiocese milanesa. As dispensas foram dadas, mas com a obrigação de todas as cantoras se apresentarem vestidas de preto e de cabeça coberta com um véu. A 22 de maio de 1874, estreava na igreja de São Marcos a Messa da Requiem per l’anniversario della morte de Manzoni, com efetivos musicais generosos, um coro de 120 vozes, uma orquestra de 100 instrumentistas e os solistas Teresa Stolz (soprano), Maria Waldmann (mezzo), Giuseppe Capponi (tenor) e Ormondo Maini (baixo).

Obra maior do repertório coral do séc. XIX, o Requiem de Verdi representa a libertação dos constrangimentos do género, alcançando uma liberdade e flexibilidade musicais que dificultam a sua caracterização ou, pelo menos, categorização. Principia com um murmúrio, numa atmosfera emocional de profundo desalento. A secção central, Te decet hymnus, contrasta pela rigidez vocal, num tecido contrapontístico estrito. O ambiente inicial é retomado, desembocando no Kyrie, primeira manifestação de um registo teatral assumido. A frase melódica ascendente de contorno virtuosístico percorre os solistas, aos quais se junta o coro nas sucessivas invocações.

O Dies irae começa com uma massa instrumental tempestuosa, a que se sobrepõe o coro, proclamando o texto de forma incisiva e cromática, numa ilustração sonora impressionante. O sussurro pianíssimo nas palavras Quantus tremor extingue-se no preciso momento em que soa uma longa fanfarra, num crescendo telúrico, metáfora da trombeta do Juízo Final, Tuba mirum, sobreposta pelas entradas sucessivas do coro até uma suspensão apoteótica. Um curtíssimo recitativo do baixo solista, Mors stupebit, dá lugar a uma das passagens mais líricas de toda a obra, Liber Scriptus.

Repetindo o que parece ser uma constante neste Requiem, o contraste permanente entre luz e sombra, dramatismo e lirismo, o elegante solo de fagote que acompanha o contido, mas suplicante trio, Quid sum miser, é sucedido pelo opressivo Rex tremendae. A prece “Salva me” coroa o andamento com uma vaga luz de redenção. Segue-se o dueto Recordare, de um intimismo comovente. A serenidade da secção seguinte, Ingemisco, caminha a passos curtos para uma das passagens mais exigentes do ponto de vista vocal, verdadeiro tour de force para o tenor solista. O baixo proclama severamente “Confutatis maledictis”, num registo musical de grande teatralidade.

A inesperada reexposição do Dies irae contraria o texto canónico, algo que Verdi faz ao longo de toda a obra, ao recuperar palavras de forma a enfatizar musicalmente determinado ambiente. A Sequentia termina com o Lacrimosa. Ainda que compassadamente dolente, é trespassado por um ténue sentimento de esperança e por uma modulação surpreendente na palavra Amen.

Contrariando, de novo, o expectável, Verdi entrega a totalidade do Offertorium ao quarteto solista, numa sucessão de texturas musicais, cabendo ao tenor o momento de maior lirismo, com a introdução do Hostias.

O Sanctus começa com uma fanfarra esfuziante, em que as três invocações canónicas correspondem a uma gradação harmónica de grande efeito. A dupla fuga que se segue assenta num intricado jogo contrapontístico de motivos melódicos ascendentes. Por oposição, o Agnus Dei mantém-se sombrio. Soprano e mezzo entoam uma melodia de contorno austero, duas frases simétricas, próxima de uma cantilena. A melodia é repetida, ora pelos solistas, ora pelo coro, como uma ladainha, oscilando entre o modo maior e o modo menor. Inesperadamente, o panejamento orquestral vai, gradualmente, sendo enriquecido, em constantes oscilações tímbricas, conferindo uma riqueza sonora de grande efeito.

O trio Lux aeterna contrapõe a luminosidade etérea das frases do mezzo e do tenor, Lux aeterna, com a linha escura do baixo, enfaticamente percutida, Requiem. Na gradação de intensidade que percorre todo o andamento, o trio termina com um arabesco celestial da flauta e do flautim, quiçá o confronto da finitude com a imortalidade.

O andamento final, Libera me, foi, na realidade, o ponto de partida de toda a composição. Escrito, na sua versão original em 1868, correspondia ao contributo de Verdi para um projeto que não chegou a bom porto, uma Messa da Requiem per Rossini, obra de composição coletiva, reunindo os doze compositores italianos em atividade mais conceituados, cabendo a cada um deles uma secção, segundo um plano formal e tonal pré-estabelecido. Apesar de revisto em 1874, as ideias essenciais do Introitus e do Dies irae, estavam já aí delineadas de forma concisa. Diálogo entre o soprano, o coro e a orquestra, o Libera me é, por si, um verdadeiro monumento de intensidade dramática, de profundo impacto emocional, testemunhando o medo, a absolvição, a paz e a incerteza, um mundo tão humano quanto divino.

José Bruto da Costa


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