Mitsuko Uchida

Ciclo de Piano

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Consciente de que a aprendizagem sobre a música e o repertório é inesgotável, Mitsuko Uchida, consensualmente considerada uma das pianistas mais brilhantes do nosso tempo, diz que a idade não lhe trouxe nada de novo – continua a ser alguém que estuda e se esforça por melhorar todos os dias. Aquilo que também não mudou, diria ainda em entrevista, é que sente como abençoado qualquer dia em que lhe seja “permitido tocar Mozart, Beethoven, Schubert e a música do nosso tempo”, especialmente do seu “adorado amigo György Kurtág”. “Se o céu existisse”, acrescenta, “isto seria o céu”. É a esse paraíso terreno, com obras de Kurtág e Mozart, que a pianista nos levará nesta nova passagem pela Gulbenkian Música.

 


Programa

Mitsuko Uchida Piano

György Kurtág
Játékok / Jogos: Vol. III/2: Játék a végtelennel / Jogo do infinito

Composição: 1979-2003 
Duração: c. 6 min. 

György Kurtág (n. 1926) encetou a composição de Játékok (Jogos) em 1973, em resposta ao desafio colocado pela professora de piano húngara Marianne Teöke no sentido de criar um conjunto de novas peças de intuito pedagógico para o instrumento. Desde então, até 2021, foram já publicados 10 volumes, para piano, piano a quatro mãos ou dois pianos, uma longa coletânea que tem funcionado também como uma espécie de laboratório para a experimentação das novas ideias musicais do compositor. Segundo o próprio revelou no prefácio aos primeiros volumes, a sua preocupação central foi a de procurar captar o melhor possível a espontaneidade e o espírito lúdico infantil na exploração do teclado, conciliando ainda o ensino da técnica básica com o aprofundamento dos modos de expressão musical através do instrumento. 

Em termos musicais, Kurtág baseia-se invariavelmente, nestas peças breves e concisas, em ideias musicais mínimas (uma nota, um cluster, um glissando…) – um estilo fragmentário e aforístico típico da sua obra, que denuncia a influência determinante do modelo de Anton Webern. Mas o foco da experiência musical está afinal colocado no corpo do intérprete: com uma abordagem ao teclado que está muito longe de se restringir à via tradicional, o compositor concede a maior relevância ao gesto e ao modo de atuação, promovendo uma experiência física que coloca todo o corpo em diálogo com o instrumento. Nesse sentido, a notação tradicional é complementada pela sua própria notação gráfica, que tem como objetivo a perceção imediata do movimento envolvido na execução, bem como estimular no intérprete, mais do que uma compreensão intelectual da partitura, a espontaneidade da interpretação e a vivência das sensações sonoras. 

Wolfgang Amadeus Mozart
Fantasia em Dó menor, K. 475

Composição: 1785 
Duração: c. 13 min. 

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) é considerado um dos representantes máximos do chamado classicismo vienense, tendo desenvolvido um estilo bastante pessoal, produto da confluência entre o lirismo da ópera italiana e a tradição instrumental germânica, no qual naturalmente sobressai a sua beleza melódica, a sua elegância formal, bem como a sua riqueza a nível harmónico e textural. Autor de uma obra vasta e variada, é possível constatar que dominou todos os géneros sobre os quais se debruçou. Por altura do seu estabelecimento definitivo em Viena em 1781, o piano desempenhou um papel central na sua sobrevivência enquanto quase-freelancer, tendo a sua fama de improvisador alcançado uma rápida difusão. Datada de maio de 1785, a Fantasia em Dó menor, K. 475, é, com feito, um documento demonstrativo dessa mesma capacidade. Com todo o seu experimentalismo, a obra revela o ascendente das fantasias de Carl Philpp Emanuel Bach nos seus súbitos e marcados contrastes de ambiente, uma sequência ousada de elementos dramáticos e líricos que nunca coloca em causa a lógica estrutural, mas não deixa de levar ao limite a exploração das possibilidades técnicas do instrumento de então. 

György Kurtág
Játékok / Jogos:
Vol. III/23: Hommage a Schubert
Vol. II/43: Antifona fiszben / Antífona em Fá sustenido
Vol. V/33: Capriccioso-luminoso
Vol. III/30: Sirató (2) / Lamento (2)
Vol. VII/8: Kósza gondolatok az Alberti-basszusról / Pensamentos fugidios sobre o baixo de Alberti

Wolfgang Amadeus Mozart
Sonata para Piano n.º 17, em Si bemol maior, K. 570
1. Allegro
2. Adagio
3. Allegretto

Composição: 1789 
Duração: c. 18 min. 

Em 1788, a vida cultural vienense foi fortemente perturbada pela guerra em curso entre a Áustria e a Turquia. De facto, o desaparecimento dos principais patronos aristocráticos refletiu-se desde logo numa quebra na vida concertística – e, logo, nas possibilidades de sustento de Mozart enquanto virtuoso do teclado –, mas o ensino particular continuou a proporcionar-lhe uma fonte de rendimento regular. Foi justamente para esse âmbito que, em fevereiro de 1789, compôs a Sonata para piano n.º 17, em Si bemol maior, K. 570, a qual, apesar de toda a sua simplicidade aparente, não deixa de ser uma peça sofisticada. 

O primeiro andamento, Allegro, em 3/4, abre com uma ideia leve e elegante, soletrando as notas do acorde de Si bemol maior, e que posteriormente terá várias implicações estruturais e contrapontísticas. Depois de esta ser complementada por um gesto gracioso, uma cesura de cariz teatral dá lugar a uma nova ideia melódica, que assume a função de produzir a transição para a apresentação de um segundo tema, em Fá maior. Neste ponto, a ideia inicial é evocada no baixo, enquanto a mão direita a adorna com uma contra-melodia. Na secção de desenvolvimento, esta elaboração será levada ainda mais longe, sobre território harmónico instável, antes da expectável recapitulação. 

Segue-se um requintado Adagio, em Mi bemol maior, concebido numa forma rondó. Ao elegante e dolce tema inicial sucede primeiro um episódio contrastante em Dó menor, suavemente agitado por uma melodia sombria, e depois uma outra ideia de cariz mais lírico, em Lá bemol maior. No final, uma breve coda que alude a ambos os momentos. 

Por fim, o espirituoso Allegretto, de novo em Si bemol maior, está também próximo da forma rondó. Com o seu espírito lúdico e ligeiro, é afinal um dos inúmeros finales em que o compositor evoca o mundo da opera buffa. 

György Kurtág
…couple égyptien en route vers l’inconnu… / Casal egípcio a caminho do desconhecido…

Composição: 2013 
Duração: c. 3 min. 

Em 2013, uma iniciativa da Cité de la musique, em Paris, levou à organização de um concerto de jovens pianistas, cujo programa consistiria em novas obras para piano inspiradas em peças expostas no Museu do Louvre. Convocado para o evento, Kurtág elegeu a escultura Deux Époux, uma peça em madeira de acácia à guarda do Departamento de Antiguidades Egípcias do Museu do Louvre, datada de algures entre 2350 e 2200 a. C (época da VI dinastia), que retrata, em corpo inteiro, um casal de mãos dadas, aparentemente caminhando, cuja identidade, origem e destino se desconhece. Foi inspirado nesta peça que Kurtág compôs …couple égyptien en route vers l’inconnu… (…casal egípcio a caminho do desconhecido…), uma marcha vacilante e arrastada que procura evocar, numa atmosfera enigmática, o percurso daquelas personagens incógnitas. 

— Intervalo de 20 min —

Robert Schumann
Davidsbündlertänze / Danças da Confraria de David, op. 6
1. Lebhaft (Vivo)
2. Innig (Íntimo)
3. Mit Humor (Com humor)
4. Ungeduldig (Impaciente)
5. Einfach (Simples)
6. Sehr rasch (Muito rápido)
7. Nicht schnell (Moderado)
8. Frisch (Fresco)
9. Lebhaft (Vivo)
10. Balladenmässig – Sehr rasch (Como uma balada – Muito rápido)
11. Einfach (Simples)
12. Mit Humor (Com humor)
13. Wild und lustig (Selvagem e travesso)
14. Zart und singend (Terno e cantante)
15. Frisch (Fresco)
16. Mit gutem Humor (Com bom humor)
17. Wie aus der Ferne (Como vindo de longe)
18. Nicht schnell (Moderado)

Composição: 1837 
Duração: c. 37 min. 

Robert Schumann (1810-1856) foi um dos principais expoentes do Romantismo musical, tendo-se destacado sobretudo pelo contributo que deu à música para piano e ao Lied germânico. Cedo revelou o seu interesse pela música e pela literatura, o que o levaria a desenvolver um estilo composicional profundamente marcado por modelos literários, cujas implicações se observam não só na sua produção liederística, mas também na própria música instrumental. Foi no verão de 1837, numa fase em que se aprofundava a sua relação com a pianista Clara Wieck, que compôs as Davidsbündlertänze, op. 6: na verdade, esta série de 18 peças para piano foi escrita em apenas alguns dias após o início do noivado com Clara, em meados de agosto. O próprio número de opus – enganador, uma vez que a obra é posterior ao Carnaval, op. 9, e aos Symphonische Etüden, op. 13 – aponta para essa circunstância, remetendo para as Soirées musicales, op. 6, da pianista e compositora, coletânea da qual Schumann cita uma mazurca na abertura da sua primeira peça. De resto, a designação da obra advém da sociedade artística imaginária formada pelo compositor – a Davidsbund (Liga de David) –, com o intuito de derrubar o que via como os filisteus musicais da época, tendo-se manifestado em inúmeros escritos seus. Para além do mais, a edição original continha, no final de cada peça, as iniciais “F.” ou “E.”, referindo-se às figuras imaginárias de Florestan e Eusebius – dois dos membros da dita liga –, que representavam, respetivamente, os aspetos mais turbulentos e mais reflexivos da sua própria personalidade. 

Estes alter egos schumannianos, que terão sido moldados a partir dos dois irmãos do romance Flegeljahre, de Jean-Paul Richter (o seu ídolo literário), são retratados em inúmeras outras obras suas. De uma ou outra forma, cada uma das 18 peças que integram o ciclo Davidsbündlertänze está embebida do espírito de dança, consistindo, em termos composicionais, numa especulação em torno de tipologias como a mazurca, a valsa, a polca, a tarantela, o Ländler e outras. Estas são tratadas de modo mais ou menos subtil, e por vezes até humorístico, numa sequência plena de contrastes que atravessa um espectro emocional bastante alargado, assumindo Sol maior e Si menor como centros tonais principais. No final, com uma breve valsa graciosa e sonhadora, é a Eusebius que cabe a última palavra. 

Notas de Luís M. Santos 


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