Ivo Pogorelich

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Em 1980, a passagem do prodigioso pianista croata Ivo Pogorelich pelo Concurso Chopin, em Varsóvia, foi de um tal fulgor e originalidade que, ao não ser selecionado para a final devido às suas interpretações consideradas pouco canónicas, Martha Argerich se demitiu em protesto das funções de jurada. Desde então, no entanto, a abordagem muito pessoal de Pogorelich à música do compositor polaco tornou-se uma referência e tem despertado os mais apaixonados elogios. Na crítica Chopin: Piano Works, escrevia-se na Gramophone que “tudo aquilo que ele faz é feito com uma autoridade principesca”.


Programa

Ivo Pogorelich Piano

Fryderyk Chopin
Sonata para Piano n.º 3, em Si menor, op. 58
1. Allegro maestoso
2. Scherzo: Molto vivace
3. Largo
4. Finale: Presto non tanto

Composição: 1844
Duração: c. 26 min.

Fryderyk Chopin compôs três sonatas para piano em diferentes períodos da sua vida, refletindo o seu percurso como compositor na relação com este género e com a sua conceção musical ao nível da estrutura e da forma. A Sonata n.º 1, op. 4, composta quando tinha 18 anos, em 1828, constituiu a primeira aproximação ao género, ainda que marcada, como referido pelo próprio, por uma certa imaturidade. Onze anos depois, em 1839, compôs a Sonata n.º 2, op. 35, que inclui o conhecido andamento “marcha fúnebre”, num trabalho de maior envergadura. A Sonata n.º 3, op. 58, de 1844, é comumente colocada no leque de obras tardias e de maior maturidade musical. Terminou a sua composição em Nohant, na casa de George Sand, onde procurava recuperar de vários problemas de saúde, e dedicou-a à condessa Émile de Perthuis, esposa do ajudante de campo do rei Louis-Philippe I. Foi ali, em Nohant, que recebeu, com grande impacto emocional, a trágica notícia da morte de seu pai.

A obra, em quatro andamentos, constitui uma das suas composições mais desafiantes do ponto de vista técnico e interpretativo, com um virtuosismo intrincado e exigente, ainda que procurando manter alguns pontos estruturais das sonatas clássicas. O primeiro andamento, inicia-se de forma quase intrigante, mas determinada, com um arpejo descendente seguido de vários acordes, num desenho que se repete e se diferencia de um segundo tema mais melódico e lírico. Depois de um desenvolvimento caracterizado por grande criatividade sobre os temas e a harmonia, reportando-nos às Baladas do compositor, segue-se a reexposição, que incide sobre o segundo tema.

O Scherzo, mais curto, introduz-nos num ambiente sonoro fugaz e leve, que contrasta com o trio mais introspetivo e etéreo, regressando depois ao tema inicial. O andamento lento, um Largo, não obstante o seu início decidido com figuras rítmicas pontuadas, como que a anunciar um novo momento, caracteriza-se pela dimensão melódica e lírica, mas com passagens intensas e dramáticas.

O último andamento é em forma rondó, com um começo decidido e forte numa progressão ascendente à qual se segue um momento mais agitado e inquieto. A segunda secção temática apresenta-se de forma inesperada, mas com um caráter virtuoso que inclui a exploração de refinados elementos melódicos. A obra termina com uma coda intensa e triunfante.

 

Fryderyk Chopin
Fantasia em Fá menor, op. 49

Composição: 1841
Duração: c. 14 min.

A Fantasia em Fá menor, op. 49, foi composta em 1841 e dedicada por Chopin à sua aluna, a princesa Cathérine de Soutzo, filha da aristocrata russa Nathalie Obrescoff, mecenas e dona de um salão em Paris. Nesse ano, Chopin compôs algumas obras relevantes do seu repertório, entre as quais figuram, por exemplo, a Balada n.º 3, op. 47, e os dois Noturnos op. 48. Na estadia em Nohant, apesar da saúde instável, encontrou alguma paz que lhe permitiu trabalhar numa obra com as características da Fantasia, uma peça longa e de grande envergadura que absorve vários elementos musicais característicos do universo chopiniano, procurando enquadrar-se no verdadeiro espírito de uma forma mais livre.

O motivo musical que abre a obra, na secção grave do piano, apresenta uma natureza marcial, num mundo sonoro que se vai desvendando e transformando. Surge depois uma melodia com um desenho rítmico inspirado no motivo anterior, retomando posteriormente o material inicial, de modo quase sombrio. A mudança de ambiente sonoro, com uma série de figuras ascendentes, antecede a apresentação dos vários temas. Um lento sostenuto, sensivelmente a meio da obra, oferece-nos um coral introspetivo, subitamente interrompido pelos arpejos apresentados anteriormente, retomando o material temático. No final, Chopin explora uma linha melódica livre, articulada depois com os arpejos ascendentes que nos encaminham para os acordes finais.

 

Fryderyk Chopin
Polaca-Fantasia em Lá bemol maior, op. 61

Composição: 1845-46
Duração: c. 13 min.

A Poloca-Fantasia op. 61 integra o leque de obras tardias de Chopin. Foi composta entre 1845 e 1846, em Nohant, e dedicada a Madame A. Veyret. Assume-se como uma obra peculiar em vários sentidos, num resultado que procura combinar traços de uma linguagem heroica que Chopin utiliza nas suas Polonaises, e uma liberdade de escrita que remete para a fantasia, acrescentando uma considerável complexidade harmónica e conceção musical densa. Em rigor, o título atribuído à obra, ainda que revelador do seu conteúdo, terá apenas surgido quando o compositor a terminava. Na sua correspondência, encontramos uma possível referência a uma obra que estava a terminar nesse período, mas que, segundo o próprio, não sabia ainda como denominá-la. O título bipartido espelha o modo como Chopin utiliza material contrastante para momentos mais melancólicos associados à fantasia, em particular com o uso de arpejos ascendentes e livres, e o desenho rítmico mais vivo da polonaise.

O início da obra, após os acordes em forte, introduz-nos num ambiente quase contemplativo, anunciado pelos arpejos ascendentes em piano, de forma livre. Chopin apresenta depois diferentes temas com carateres distintos, denotando-se o gosto refinado nas melodias cantabile e expressivas, e o virtuosismo e sentido heroico noutras secções, ou o dramatismo explorado em momentos mais agitados. Os arpejos iniciais surgem novamente, depois de uma secção intermédia mais lenta, conduzindo ao final em pianissimo e ritenuto, que contrasta com o acorde conclusivo em fortissimo.

 

Fryderyk Chopin
Barcarolle em Fá sustenido maior, op. 60

Composição: 1846-46
Duração: c. 9 min.

As canções tradicionais cantadas pelos gondoleiros venezianos, intituladas barcarole, inspiraram vários compositores que dedicaram a sua mestria a revisitar este universo sonoro. A Barcarolle op. 60 constitui uma das últimas obras compostas por Chopin, completada em 1846, e que incluiria no programa do seu último recital em Paris, na Sala Pleyel, a 16 de fevereiro de 1848.

A obra, dividida em três secções, inicia-se com uma breve introdução, com uma oitava no registo grave, seguida de um desenho descendente que nos conduz ao acompanhamento da mão esquerda, a remeter para o balancear das gôndolas venezianas.  Surge então o cantabile na mão direita, com um tema em terceiras e depois em sextas, concedendo ao momento uma riqueza sonora pautada por alguma melancolia. A secção intermédia, poco più mosso, mantém-se inicialmente em piano, dando depois lugar a um crescendo intenso, no qual Chopin introduz um certo brilhantismo quase heroico. De notar também a inventividade harmónica, antes de voltar ao tema inicial, com o uso de cromatismos que conferem uma certa intensidade ao discurso musical. Na secção final, que funciona como uma reexposição, Chopin apresenta o desenho inicial da mão esquerda, agora em oitavas e num registo forte, numa clara afirmação temática com recurso a acordes na mão direita. A coda final, com escalas e arpejos rápidos tocados de forma subtil e ligeira, conduz a uma conclusão resoluta em fortissimo.

Notas de Pedro Russo Moreira

Fryderyk Chopin
Berceuse em Ré bemol maior, op. 57


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