Concerto para Piano de Tchaikovsky

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O mundo despertou para o exuberante talento pianístico de Lucas Debargue quando, em 2015, se apresentou no prestigiado Concurso Tchaikovsky. No primeiro ano em que a competição teve transmissão televisiva na íntegra, o jovem músico francês conquistou milhares de admiradores, graças a uma atuação que levou até os jurados a quebrarem o protocolo e a aplaudirem-no entusiasticamente. Desde então, Debargue tornou-se um músico seguido com apaixonado interesse, provando o quanto a sua postura – que diz ser mais próxima de um cientista do que de um atleta, devido à atenção aos detalhes e não à espetacularidade – enfeitiça qualquer sala onde se apresente.


Programa

Orquestra Gulbenkian
Nuno Coelho Maestro
Lucas Debargue Piano

Piotr Ilitch Tchaikovsky
Concerto para Piano e Orquestra n.º 1, em Si bemol menor, op. 23
1. Allegro non troppo e molto maestoso – Allegro con spirito
2. Andantino semplice – Prestissimo
3. Allegro con fuoco

Composição: 1874-75 / 1876 / 1888
Estreia: Boston, 25 de outubro de 1875
Duração: c. 36 min.

O Concerto para Piano e Orquestra n.º 1, em Si bemol menor, op. 23, constitui o marco inaugural da produção concertante de Piotr Ilitch Tchaikovsky. A partitura foi concluída em fevereiro de 1875, vindo a conhecer revisões subsequentes, em 1876 e 1888. O primeiro impulso do músico foi procurar o amigo e pianista virtuoso Nikolai Rubinstein, de quem recebeu uma apreciação muito negativa, face às dificuldades da escrita para o solista. Reconhecendo mais tarde a valia estética e estilística da obra, situada na esteira dos concertos para piano de Liszt, Rubinstein viria a tornar-se, curiosamente, um dos intérpretes de eleição do Concerto op. 23, o qual chegou a tocar por ocasião do ciclo de “concertos russos” da Exposição Universal de Paris, em 1878. Contudo, não foi a tempo de contrariar a decisão de Tchaikovsky que, desiludido com a reação do amigo, veio a designar outro pianista para a estreia do seu Concerto n.º 1 – o carismático Hans von Bülow, o qual se preparava para uma digressão nos Estados Unidos da América. Foi, pois, com a Orquestra do Boston Music Hall, sob a direção do maestro norte-americano Benjamin Johnson Lang, que o pianista germânico protagonizou a primeira audição pública do Concerto n.º 1, a 25 de outubro de 1875.

A brilhante introdução do primeiro andamento anuncia, desde logo, a acentuada interação entre a orquestra e o piano, por via da partilha de um tema intenso e emocionalmente arrebatado. O andamento prossegue sobre uma estrutura de sonata marcada pela diversidade temática, com amplas passagens para os enunciados melódicos do solista, sobretudo na cadência final.

Com o segundo andamento introduz uma atmosfera contrastante, liderada pelo solo da flauta transversal, na tonalidade mediante de Ré bemol maior. O compositor opta aqui por um discurso musical simples e despojado. Na secção central, mais agitada, emerge a citação de uma cançoneta popular francesa, Il faut s'amuser, danser et rire.

Fazendo apelo às convenções do género, Tchaikovsky encerra o Concerto com um Allegro con fuoco inspirado na forma de rondó-sonata, cujo refrão deve o perfil melódico a um tema tradicional ucraniano. Este poderoso elemento propulsor alterna com secções sinfónicas mais alargadas, pelo que o resultado se constitui como uma súmula entre a sugestão coreográfica reminiscente da dança e o idioma instrumental puro que foi apanágio da vivência artística do Romantismo tardio.

 

Jean Sibelius
Sinfonia n.º 1, em Mi menor, op. 39
1. Andante, ma non troppo – Allegro energico
2. Andante (ma non troppo lento)
3. Scherzo: Allegro
4. Finale: Andante – Allegro molto – Andante

Composição: 1899
Estreia: Berlim, 18 de julho de 1900
Duração: c. 40 min.

Tanto na sinfonia como no poema sinfónico, o compositor finlandês Jean Sibelius demonstrou capacidades criativas que se renovaram constantemente, em busca de um ideal de sonoridade que fundisse os ecos da música tradicional do seu país natal com as demandas próprias do espírito romântico, sem perder de vista as linhas mestras da tradição musical austro-germânica, das quais foi aprendiz durante o seu período de estudos nas cidades de Helsínquia, Berlim e Viena. Província do vasto império russo desde 1814, a Finlândia apenas conheceu uma expressão nacionalista sólida, no que à música diz respeito, a partir de finais da década de 1890. Sibelius liderou este movimento, com a composição da sua Sinfonia nº 1 e do poema sinfónico Finlândia, op. 26.

Composta entre os anos de 1898 e 1899, a Sinfonia nº 1 detém uma base formal de cunho conservador, fortemente influenciada pelos cânones do classicismo, sobretudo no primeiro e terceiro andamentos. De todo o modo, Sibelius mantém presente um espírito aberto, perscrutador, através do qual transmite às suas texturas um conjunto de traços identitários, essenciais, de resto, para a prossecução, em moldes ambiciosos, do seu restante projeto sinfónico, que conta com mais seis sinfonias de larga escala. É uma obra impetuosa, permeada pela sucessão de patamares expressivos muito distintos e contrastantes, no curso dos quais se cruzam constantemente os sentimentos humanos com as recriações sonoras da grandiosa paisagem nórdica.

Um solo melancólico de clarinete sobressai na introdução lenta que serve de ponto de partida ao primeiro andamento, Adante, ma non troppo. Sobre uma exposição de sonata, a secção Allegro energico faz surgir o tema principal, logo seguido de miríades de motivos melódicos secundários que incitam ao desvio da tonalidade sombria de Mi menor para a tonalidade mais auspiciosa de Sol maior. O segundo tema destaca-se pela sua serenidade, evocadora dos amplos espaços da tundra ártica. O violino assume o protagonismo da secção de desenvolvimento, após o que regressa à textura o segundo tema da exposição, no clarinete.

Uma das melodias mais célebres de Sibelius, misto de lirismo e espírito contemplativo, assoma à superfície do segundo andamento, Andante, na tonalidade afastada de Mi bemol maior. Introduzida pelas cordas con sordina, a bela melodia é retomada pelos clarinetes que a envolvem numa teia de sextas paralelas. Por sua vez, as trompas estabelecem uma atmosfera lendária, reminiscente dos dramas de Wagner (ainda que Sibelius não simpatizasse com o autor da Tetralogia), a qual imerge o ouvinte no mundo do Kalevala – uma saga literário-musical finlandesa de origem incerta, que relata as explorações de três irmãos, habitantes de Kaleva (a terra dos heróis). O andamento encerra com o regresso à textura do tema inicial.

No último andamento, em Mi menor, Sibellius leva a efeito uma síntese abrangente dos componentes temáticos dos andamentos anteriores, sem deixar de acrescentar novos motivos, fortemente característicos, os quais imprimem ao ouvido uma persistente sensação de continuidade e fluidez sonora. A melodia do Andante serve aqui como principal elemento melódico unificador.

Notas de Rui Cabral Lopes

 

Piotr Ilitch Tchaikovsky
Valsa Sentimental, op. 51 n.º 6


GUIA DE AUDIÇÃO

Por Sérgio Azevedo

No Guia de Audição desta semana, o compositor Sérgio Azevedo fala-nos do Concerto para Piano de Tchaikovsky e da Sinfonia n.º 1 de Sibelius.


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