2ª ed.

História da Guerra do Peloponeso

Edição digital

Acesso aberto

Foquemos agora a nossa atenção sobre a obra histórica de Tucídides: num teatro de guerra delimitado pelo Mediterrâneo oriental, duas grandes potências helénicas do século v vão defrontar-se: Lacedémon, mais conhecida dos modernos por Esparta, e Atenas. São elas os epicentros da convulsão bélica, que vai suceder a outra, nesse mesmo século, provocada algumas décadas antes pela invasão dos Medos ou Persas, impelidos pela ambição imperialista de poder dos imperadores Dario e seu filho Xerxes, e certamente pelo desejo de garantir, com o substancial aumento de Estados satélites e vassalos, a segurança do seu poderio, (pois qualquer império pode ser dominado pela paranóia de viver cercado por forças independentes que o dominem), e dos recursos financeiros e recursos naturais de que dispõem. […]

Juntaram-se então na Hélade, não obstante naturais rivalidades, diferenças raciais entre Jónios (Atenas) e Dórios (Lacedémon), uma e outra grandes potências gregas, sobretudo na altura da ameaça global movida pela segunda vez pelo Império Persa ao território e ao povo helénicos: depois de 490 a.C., dá-se a primeira invasão movida por Dario; mas em 480-479, procura o Império dos Medos levar a cabo uma segunda invasão, e a mais importante, comandada por Xerxes, e celebrada na solene e impressionante tragédia Os Persas do solene Ésquilo.

Atenas e Esparta juntas então defenderam o solo pátrio dividido por tantas cidades-estados, e tanto uma como outra alegavam, pelos testemunhos que até nós chegaram, que tal fizeram para preservar um bem precioso para ambas, embora entendido por cada uma de maneira diferente, e cujo valor ainda hoje em partes bem definidas do mundo perdura: a liberdade. Essa liberdade era não raras vezes defendida, como hoje, à custa da liberdade dos outros, o que demonstra o enorme desequilíbrio de forças que sempre perseguiu a raça humana, e essencialmente resume-se à dificuldade que os povos sentem de poderem decidir o seu destino por si próprios, o que só é permitido, e tantas vezes com reservas, nas chamadas sociedades democráticas. Quem se permitiria pensar que em pleno século das luzes atómicas poderiam ainda subsistir verdadeiras teocracias, umas, obedecendo aos ditames de um livro sagrado, outras ao culto da utopia igualitária, “em que todos são iguais, mas alguns há que são mais iguais do que outros”, parafraseando o Animal Farm de Orwell?

Lendo contudo este livro do princípio até ao fim, chegamos à conclusão de que a libertação da Grécia foi levada a cabo, em nome da liberdade, pelos Lacedemónios totalitários, que derrotaram os democráticos Atenienses, na sua própria terra, embora fossem estes imperialistas e mais do que autoritários nos territórios que dominavam. Eis uma das razões por que Tucídides caracteriza esta guerra “como nenhuma outra na mesma altura” (I, xxiii, 1).

 

(Do prefácio de Raul Miguel Rosado Fernandes)


Ficha técnica

Outras Responsabilidades:

Trad. do texto grego, pref. e notas introd. de Raul M. Rosado Fernandes e M. Gabriela P. Granwehr

Coordenação editorial:
Fundação Calouste Gulbenkian
Editado:
Lisboa, 2013
Páginas:
822 p.
ISBN:
978-972-31-1358-7
Atualização em 17 setembro 2020

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