Da Arte Edificatória

Leoni Battista Alberti

Se bem que a temática central da obra seja a arte edificatória, baseada, em parte, na análise histórica dos edifícios antigos estes são, no entanto e quase sempre, apresentados de forma geral e pouco pormenorizada, exceto no Livro VIII, que se refere aos ornamentos de edifícios públicos, apesar de o autor fazer uma chamada de atenção, como fonte de conhecimento atual, para as obras dos melhores arquitetos da Antiguidade (Livro VI, cap. 13).

O De re aedificatoria configura-se, consequentemente, não como um tratado sobre a arquitetura da Antiguidade, como foi o de Vitrúvio mas, como um texto persuasivamente redigido para os promitentes patronos como para as pessoas cultas, sobre uma nova forma de fazer arquitetura que tem, no passado imperial, uma fonte de referência, que não se esgota nela mas a ultrapassa. […]

Se bem que as dimensões vitruvianas da firmitas, da utilitas e da venustas, não coincidam com as albertianas da necessitas, da commoditas e da voluptas, na medida em que as primeiras correspondem, respetivamente, a construção, utilidade e beleza, e as segundas a necessidade, comodidade e prazer, ambas situam-se no mesmo campo semântico, o que sugere que Alberti qualifica intencionalmente aquelas dimensões. Isto indica que, para Alberti, a construção só faz sentido se resolvida ao nível da necessidade, a utilidade se proporcionar comodidade e a beleza se der prazer. No entanto, estas dimensões não são intercambiáveis, dado que Vitrúvio dirige-se, predominantemente, aos produtos da arquitetura, enquanto Alberti refere-se, principalmente, aos processos da conceção na arte edificatória.

Se bem que as condições histórico-culturais em que Alberti escreveu o tratado, principalmente no que se refere à sua produção manuscrita, à sua distribuição (por cópia a partir dos códices existentes), bem como à sua receção (por uma audiência culta que entendia o latim clássico), tenham-se mantido relativamente estáveis ao longo da sua elaboração, aquele texto anuncia não só uma rutura epistemológica, ao ser comparado com a produção construtiva do antecedente período medieval, como é modelar no âmbito da teoria da arquitetura do Quattrocento.

É no confronto entre uma tradição construtiva, transmitida oralmente, e a realização edificada de uma prefiguração, numa mediação negociada entre o cliente ou patrono e o projetista ou autor, que a arquitetura no Quattrocento se irá desenvolver, para a qual o tratado de Alberti oferece, no mundo ocidental, um contributo não só original como inaugural.

 

(Da introdução de Mário Júlio Teixeira Krüger)

Ficha técnica

Outras Responsabilidades:

Trad. do latim de Arnaldo Monteiro do Espírito Santo; introd. e notas de Mário Júlio Teixeira Krüger

Edição:
1ª ed.
Coordenação editorial:
Fundação Calouste Gulbenkian. Serviço de Educação e Bolsas
Editado:
Lisboa, 2011
Dimensões:
280 mm x 195 mm
Capa:
Encadernado
Páginas:
770 p.
ISBN:
978-972-31-1374-7

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