Vida escrita por si mesmo

Giambattista Vico

Para o leitor contemporâneo, o interesse e o fascínio de uma obra como a autobiografia de Giambattista Vico (1668-1744) – a Vida escrita por si mesmo (1728) – residem talvez na possibilidade de conhecer o percurso humano e filosófico que conduziu à Ciência nova, a  obra pela qual ficou conhecido o seu autor, e que se conta entre os grandes textos filosóficos de todos os tempos. Por outro lado, além de dar a conhecer a história de um filósofo e de uma obra, a Vida abre uma janela com vista ampla para o panorama intelectual das primeiras décadas do século XVII I- italiano, mas não só. Embora Vico tenha vivido em Nápoles praticamente durante toda a vida, as suas ambições tinham na mira não apenas a cidade natal e a Itália, mas sobretudo a Europa, como atestam a dedicatória da primeira edição da Ciência nova, em 1725, “às academias da Europa”, e a autobiografia. […]

A Vida, uma autobiografia intelectual, trata da “reputação de letrado” do seu autor, que não escreve senão sobre o curriculum studiorum, as leituras, as obras compostas ou por compor, e o desenvolvimento da sua filosofia. O leitor da autobiografia de Vico não encontra aí exames de consciência, ou buscas autocontemplativas de um “eu” essencial; nada na Vida se assemelha, enfim, a um “Vico juiz de Giambattista”. Os escassos acontecimentos privados ou domésticos que Vico introduz na narrativa têm uma função estratégica, na medida em que lhe permitem ilustrar ou iluminar determinado aspeto do seu percurso intelectual. Assim, em duas das referências mais relevantes que Vico faz à sua vida familiar, o foco da descrição recai sobre a atividade de estudioso: a primeira diz respeito à elaboração da biografia histórica de Antonio Carafa, De rebus gestis Antonii Caraphaei, composta durante os anos de 1714 e 1715 e publicada no ano seguinte; a segunda concerne à preparação para o concurso universitário de 1723. Estas características podem entender-se, antes de mais, tendo em consideração os modelos de discurso autobiográfico então disponíveis. Sob esse aspeto, o projeto de Pareia, definido por Andrea Battistini como a “carta constitucional” das primeiras autobiografias setecentistas (sobretudo meridionais), é por si só revelador do estado da arte. Como se viu, a autobiografia de Vico foi pensada como um contributo individual para uma empresa coletiva, com vista ao progresso da “república das letras”.

 

(Da introdução de Ana Cláudia Santos)

Ficha técnica

Outras Responsabilidades:

Trad., introd. e notas de Ana Claúdia Santos

Edição:
1ª ed.
Coordenação editorial:
Fundação Calouste Gulbenkian
Editado:
Lisboa, 2017
Páginas:
199 p.
ISBN:
978-972-31-1594-9