Reflexões sobre a Revolução em França

Edmond Burke

Quem lê as Reflections on the Revolution in France, e todos os textos de crítica à Revolução Francesa, pode ver em Burke apenas um conservador, um contrarrevolucionário. Se esta imagem capta em parte o pensamento do autor, será certamente redutora e talvez mesmo desajustada se não se tiver em conta todo o percurso intelectual de Burke. É redutora porque Burke foi um empenhado reformador: toda a sua vida parlamentar e mesmo o cargo político que desempenhou se caracterizou pela reforma. E é desajustada, porque os motivos que o levam a opor-se à Revolução Francesa são distintos dos que inspiram outros críticos da mesma altura. Burke é o próprio a admitir que o Ancien Régime carecia de reforma. A sua crítica feroz e lúcida à Revolução Francesa é uma crítica ao método revolucionário, à índole demolidora do processo, à arrogância intelectual jacobina que entende que pode fazer tabula rasa de todo o património anterior, é também, e fundamentalmente, uma crítica à teoria do contrato social de Rousseau, que Burke julga inspirar os políticos franceses. Um contrato que pressupõe que uma sociedade emerge do acordo entre homens na posse de todos os seus direitos naturais, cuja soberania reside no corpo da nação assim formada, enquanto pessoa moral e coletiva, que estabelece um governo para a preservação destes direitos no qual todo e qualquer um poe participar em condições de igualdade e enquanto executor da vontade geral, derivando daí a sua legitimidade. Mais adiante se verá onde é que o contrato orgânico proposto por Burke diverge desta conceção.

Burke é um reformador e gosta de sublinhar a diferença entre dois processos: a mudança súbita, que caracteriza habitualmente uma revolução, e a reforma: […]

A reforma caracteriza-se sobretudo pela capacidade em defender o que de bom existe. Em qualquer instituição, que serviu bem uma sociedade, há algo que vale a pena preservar e melhorar. Nenhuma realização humana é totalmente perfeita, e a melhor maneira de a ir aperfeiçoando é corrigi-la ao longo do tempo ajustando-a aos novos desafios. Com isto obtém-se algo que é obra de várias gerações e que acumula a sabedoria de todos os que sobre ela refletiram e para ela contribuíram.

 

(Da introdução de Ivone Moreira)

Ficha técnica

Outras Responsabilidades:

Trad. e introd. de Ivone Moreira

Edição:
1ª ed.
Coordenação editorial:
Fundação Calouste Gulbenkiian
Editado:
Lisboa, 2015
Páginas:
343 p.
Título Original:
Reflections on the Revolution in France and on the proceedings in certain societies in London relative to that event
ISBN:
978-972-31-1575-8