13 Julho 2020 Museu Calouste Gulbenkian

Maria Beatriz (1940 – 2020)

Maria Beatriz2000 Papel Fotográfico Fotografia Inv. 02FP367 © Museu Calouste Gulbenkian - Coleção Moderna

É com grande pesar que a Fundação Gulbenkian vê partir Maria Beatriz, artista a quem apoiou no início da sua carreira nos anos 1960, e cujo percurso foi sempre seguindo com atenção, como atestam as várias dezenas de obras, muitas delas em gravura, mas também pintura, objetos e fotografia, com que está representada na Coleção Moderna.

Maria Beatriz foi bolseira da Gulbenkian entre 1966 e 1968 para ir aprofundar, em Paris, no mítico Atelier 17 de Stanley William Hayter, os seus conhecimentos de gravura (em água-forte e água-tinta), iniciados na Cooperativa Gravura, em Lisboa. Já tinha vivido, entre 1961 e 1963, em Londres, depois da frequência em Lisboa do curso de Biologia e do Curso de Pintura da Escola de Belas-Artes. Determinada em ser livre e em ser artista, irrequieta e revoltada com a falta de perspetivas da juventude portuguesa, decidira não ficar em Lisboa onde “lhe faltava o ar”, como referiu em entrevista em 2016.

Em Paris, além do trabalho com Hayter, frequentou a Cinemateca e o atelier de Júlio Pomar, e assistiu ao Maio de 68. O seu regresso a Lisboa, onde expõe gravuras em 1969, foi breve, indo, em 1970, viver para a Holanda, onde em 1973 obtém um diploma em Pintura e Artes Gráficas pela Academia de Belas-Artes de Roterdão. Será ainda professora de Gravura em Metal, entre 1974 e 1987, e de Desenho e Pintura, entre 1988 e 1990 na Academia Livre de Haia. Foi bolseira do Ministério da Cultura Holandês (em 1974 e 1978-1980), da Amsterdam Kunstfonds (em 1977), e do Governo Holandês (entre 1980-1987).

A arte foi sempre para a artista a melhor forma de libertação. Como referiu , desde a infância «foram os livros, a poesia e alguma música. Nessa idade a minha ligação à arte começou a ser muito positiva. Via a arte como uma coisa que podia dar apoio e, digamos, mudar a vida de uma pessoa. Portanto, muito nova, foi a minha escolha».

A sua carreira artística desdobrou-se a partir de dois princípios igualmente enunciados pela artista: por um lado, o envolvimento social, focado sobretudo no desejo de emancipação, na luta pela liberdade, tema que procurou abordar de uma forma poética, a partir do inconsciente; e, por outro lado, de um ponto de vista técnico, o seu interesse pela colagem e o seu gosto pelo corte: «Gosto muito de cortar. Sempre gostei. Desde desenhos pequenos feitos em diminutos pedaços de papel até grandes telas ou figuras recortadas em contraplacado.»

A partir de 1980 a sua obra desenvolveu-se em séries. Entre os seus trabalhos na Coleção Moderna destacam-se oito fotografias e um objeto da série «Vita Brevis», 2000-20001, realizada a partir de uma leitura contemporânea da natureza-morta na pintura holandesa do século XVII, e da homenagem prestada a Vicent van Gogh, à sua pintura de juventude «Os Comedores de Batata», pelo objeto intitulado «Cascas» (e que remete para outros trabalhos de Maria Beatriz igualmente dedicadas a van Gogh).

Destaque ainda para o objeto «Homenagem a Almada» que dedica a Almada Negreiros, artista que muito admirava e de que cita a frase no final da introdução do seu site: «Só o mistério chega inteiro ao fim». Que o mistério, e o encantamento, permaneçam na revisitação que sempre faremos da sua obra.

 

Obras na Coleção Moderna