José de Almada Negreiros: uma maneira de ser moderno

Entrevista a Mariana Pinto dos Santos

Cerca de um quarto de século depois da última grande exposição dedicada a Almada Negreiros, a Fundação Gulbenkian vai apresentar, na galeria principal da Sede, uma ampla retrospetiva que reúne mais de quatro centenas de trabalhos, muitos deles inéditos, propondo um olhar inovador sobre a presença de Almada na história do modernismo português.

 

A exposição organiza-se em sete núcleos temáticos que refletem a inesgotável energia criativa de um autor que experimentou uma imensidade de linguagens. Será mostrado o modo como o artista elegeu e revisitou temas e como trabalhou os diferentes suportes e meios. Ao defender que a arte da modernidade deveria estar em todo o lado – nos edifícios públicos, nas ruas, no teatro, no cinema, na dança, no grafismo dos jornais e nos desenhos que os ilustram –, Almada entendia que cada obra, gesto ou atitude, fazia parte do “espetáculo” que o artista, agente principal da modernidade, teria por missão apresentar perante o público.

Esta ideia de modernismo total estará presente ao longo dos módulos que estabelecem o percurso da exposição na Galeria Principal da Fundação Calouste Gulbenkian e no piso inferior. A pintura e o desenho mostram-se em estreita ligação com os trabalhos que fez em colaboração com arquitetos, escritores, editores, músicos, cenógrafos ou encenadores. Na sala do piso inferior é destacada a presença marcante do cinema e a persistência da narrativa gráfica ao longo da sua obra. Juntam-se ainda obras e estudos inéditos que darão a conhecer diferentes facetas do processo de trabalho artístico de Almada Negreiros.

Uma programação complementar dará uma dimensão mais completa da versatilidade da obra de Almada: um espetáculo de teatro infantojuvenil, a exibição do multimédia Almada, Um Nome de Guerra, realizado por Ernesto de Sousa, um concerto integrado na temporada Gulbenkian Música, visitas às gares marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, um ciclo de mesas-redondas com vários investigadores de diferentes áreas e ainda um ciclo de cinema na Cinemateca Portuguesa.

Será produzido um catálogo abrangente que reproduzirá as obras do artista presentes na exposição e terá um conjunto de ensaios historiográficos e de pensamento crítico de maneira a constituir-se uma referência nos estudos sobre o modernismo e modernidade, partindo do lugar que neles ocupa Almada Negreiros.

A curadora da exposição, Mariana Pinto dos Santos, historiadora de Arte e investigadora integrada do Instituto de História de Arte da Faculdade de Ciência Sociais e Humanas, fala nesta entrevista das ideias que atravessam a exposição e que vão permitir um novo olhar sobre um dos artistas mais criativos e fecundos da arte portuguesa.

 

Qual a linha central da exposição?

A obra de Almada é encarada como um prisma para repensar o conceito geral de modernidade, na linha de um debate recente da historiografia da Arte que reequaciona o papel assumido pelos países ditos “periféricos” nesse movimento. A narrativa que dominou e domina ainda sobre o século XX é de que houve grandes centros de produção artística, mas importa desfazer a dicotomia centro-periferia, olhando antes para modernidade enquanto rede transnacional (como a denominam alguns historiadores de Arte). As práticas artísticas modernas surgiram em diferentes geografias e a informação que circulava foi sendo apropriada, remastigada, cruzada e reinventada. É isso que torna a modernidade muito eclética e muito diversa. A obra de Almada é particularmente interessante, porque ele próprio era uma espécie de poliglota das artes. Ao longo da vida foi experimentando diferentes linguagens, era um artista que respondia ao momento presente, consoante o que o momento pedia: quer como artista plástico, quer também como escritor, ator, performer, cenógrafo ou ainda através da dança, ou também quando respondeu a encomendas de vitrais, pintura a fresco ou revestimento cerâmico. Deste modo, a obra de Almada é exemplar porque nos permite repensar de um modo abrangente os modernismos e a sua hibridez.

 

Os estudos atuais apontam, então, para a existência de vários modernismos com particularidades próprias?

A crítica à ideia de uma narrativa única é antiga e provém de diferentes áreas de estudo (da Filosofia, para começar). Em Portugal é uma investigação que está em curso em diferentes disciplinas incluindo na História da Arte, onde alguns investigadores se debruçam sobre o reequacionamento das narrativas vigentes, à semelhança do que acontece noutros países. Por modernismo designamos uma demanda do novo. Na modernidade houve uma crença de que era preciso mudar, era preciso encontrar a novidade. A forma de vida das pessoas mudou com a revolução industrial e com os progressos tecnológicos e os modernismos constituíram diferentes interpretações dessa realidade e diferentes respostas a ela. Houve modernismo em regimes autoritários, assim como fez também parte de movimentos de resistência e de reação a esses regimes. Há modernismos que encontram o novo no popular, noutras culturas, na identidade nacional, há os que o identificam com o chamado “progresso civilizacional” e o internacionalismo. Frequentemente esses aspetos contraditórios convivem num mesmo artista, como é o caso de Almada. Há modernismos diferentes e o trabalho da História da Arte deverá ser compreender as diferenças e semelhanças entre eles, sem estabelecer uma hierarquia em relação a um suposto modelo ideal de modernismo.

 

Almada era um poliglota das artes, como diz. A História da Arte não tende a fragmentar uma obra que aspirava ser total?

Existe uma abordagem protagonizada pelos historiadores mais velhos, que desbravaram o caminho da história da Arte do século XX em Portugal, que, apesar de sublinharem as múltiplas facetas de Almada, tenderam efetivamente a fragmentar a sua obra. Os catálogos mais antigos das anteriores exposições dedicadas ao artista comprovam esta tendência, ao dividir a sua produção em áreas – pintura, poesia, teatro, artes gráficas, etc. –, sendo os textos entregues a especialistas de cada uma delas. Deste modo, acabava por se perder a visão de conjunto e o modo como Almada tornava estas artes transversais umas às outras. Ele é extremamente pictórico ou cinematográfico quando escreve e é também muito narrativo quando pinta. Essa separação prendia-se também com outra tendência na História da Arte, que é a menorização de algumas linguagens artísticas em relação a outras — tal como se valorizam “centros” em relação a “periferias”, valorizam-se “artes maiores” em relação a “artes menores”. Este aspeto também tem vindo a ser reequacionado pela historiografia da Arte mais recente.

 

De que modo?

Há algumas abordagens historiográficas que têm vindo a criticar a menorização do desenho, das artes gráficas, da cerâmica, etc. em relação à pintura. A revolução técnica trazida pela modernidade acabou por estilhaçar esse tipo de divisões, no entanto prevaleceu um discurso, que se naturalizou, que elegeu sempre a pintura acima das restantes expressões artísticas. E dentro da pintura, a pintura sobre tela, a pintura a óleo, mais do que a aguarela, e por aí fora. Mas no futurismo e no surrealismo, por exemplo, a palavra impressa e a composição tipográfica passaram a fazer parte da linguagem artística, e as revistas de vanguarda estabeleceram-se enquanto intervenção artística por si mesmas. O catálogo desta exposição vai fazer uma abordagem mais integrada da obra de Almada, evitando as análises sectoriais.

 

Almada teorizou sobre esta relação das várias artes entre si?

Almada refere-se a essa questão em diferentes ocasiões, mas remeto para uma conferência, intitulada Poesia é Criação, proferida já no final da sua vida, em 1962, em que defende que toda a arte é poesia, remetendo para a etimologia grega da palavra – poiesis – que significa criação. Toda a arte é criação ou toda a criação é arte, revelando uma posição muito abrangente de como o artista pode expressar a modernidade. O artista é para ele um interlocutor do moderno, independentemente do meio com que trabalha.

 

Tendo sido um artista irreverente e experimentalista, deixou também a sua marca em muitas obras encomendadas pelo regime. Como é que ele geriu esta questão?

Almada não foi um artista do regime. Artista do regime foi, por exemplo, Eduardo Malta, um pintor próximo de Salazar, com quem partilhou a ideologia política, tecnicamente muito competente mas sem qualquer arrojo experimental formal ou temático. Almada não só contestou o gosto que Malta representava como se opôs à sua nomeação para a direção do Museu de Arte Contemporânea. Com a formação do Estado Novo em 1933, implementou-se uma política vastíssima de obras públicas e decoração dos edifícios que garantia trabalho aos artistas. Essa política queria uma imagem renovada e moderna da nação. A partir de então, os artistas não tinham praticamente nenhuma outra entidade empregadora que não fosse o Estado. Ou tinham recursos próprios ou, então, tinham de aceitar as encomendas do Estado. Por exemplo, para a Exposição do Mundo Português de 1940 foram chamados todos os arquitetos, independentemente da sua postura política. Era uma decisão baseada num sentido prático. O meio era pequeno e havia que aproveitar os recursos.

 

Qual era a margem de manobra dos artistas nessas condições?

Os artistas plásticos não tinha grande margem de manobra na escolha dos temas, porque eram quase sempre encomendados. Sobre este assunto, Querubim Lapa prestou um testemunho relevante: declarou que o tema não era importante, o que importava era como é que o artista conseguia abordá-lo sendo fiel à sua arte. Almada trabalhou muitas das encomendas de um modo particular, tratando por vezes os temas com um humor muito subtil. Inicialmente, escreveu alguns textos e deu entrevistas reagindo contra a instrumentalização dos artistas modernistas pelo Estado para fins políticos e propagandistas. Não participa nas primeiras exposições oficiais do regime e em 1936 marca presença na Exposição dos Artistas Independentes, feita em reação ao Estado Novo. Os trabalhos que fez que mais diretamente fizeram parte de uma campanha levada a cabo pelo regime, como cartazes e selos, não podem ser vistos como uma anuência da ideologia que veiculavam. A partir de 1941 já participa em exposições oficiais, junto com tantos outros artistas da sua geração e mais novos. A questão é complexa e não deve ser abordada de forma maniqueísta.

 

Convém recordar que muitos convites dirigidos a Almada não foram feitos diretamente pelo Estado Novo, mas através do arquiteto Pardal Monteiro

Essa é uma questão importante. Algumas das mais importantes intervenções de Almada não foram, de facto, encomendadas diretamente pelo Estado Novo, mas pelo arquiteto Porfírio Pardal Monteiro, com quem o artista desenvolveu uma extensa colaboração. Na Gare Marítima da Rocha do Conde d’Óbidos, onde o tema foi escolhido por si, Almada dá um sinal claro da sua irreverência ao pintar painéis onde retrata a emigração, a construção de barcos, varinas não estilizadas, mas robustas, africanas, saltimbancos a pedir esmola. Isto foi mal recebido, entendido como uma afronta ao regime e a destruição dos painéis chegou a ser proposta. Na altura, João Couto, diretor do Museu de Arte Antiga, defendeu o trabalho do artista, impedindo-a. Também trabalhou com outros arquitetos, quer em Portugal quer em Espanha (onde viveu entre 1927 e 1932), da sua geração e mais novos, como Nuno Teotónio Pereira, no Bloco das Águas Livres em Lisboa.

 

Que novidades apresenta esta exposição?

Para além de desfazer a compartimentação em que a obra de Almada tem tendência a ser abordada, vai reunir mais de uma centena de obras inéditas, nunca apresentadas publicamente. Chamo a atenção para uma obra que vem de São Paulo, um autorretrato com uma mulher feito em Madrid em 1927, que se encontrava documentada por Ernesto de Sousa, mas que saiu do país em 1975 e nunca foi exposta em Portugal. Também será mostrada pela primeira vez uma lanterna mágica composta de 64 desenhos, que contam uma história como um filme mudo, e que foi feita em 1934 num registo privado entre amigos. Serão ainda mostrados outros trabalhos exemplificativos das experiências de Almada em desenho e pintura.

A mostra retrata ainda a produção de Almada em Madrid, cidade onde manteve intensas colaborações artísticas. Uma delas foi uma outra lanterna mágica, concebida para acompanhar a música do músico Salvador Bacarisse e o libreto do poeta Manuel Abril. Esse espetáculo tinha o nome La tragedia de doña Ajada, e será reconstituído no âmbito da temporada da Gulbenkian Música no dia 23 de março, com a interpretação da Orquestra Gulbenkian e a projeção das imagens de Almada.

 

Existe alguma documentação ou registo desse concerto?

Não, mas iremos reconstituir o possível. O compositor foi obrigado a sair do país durante a guerra civil. Salvou os desenhos do Almada mas a partitura orquestral não chegou até nós completa. O que existe é uma versão para suite que será tocada nesse concerto. Não será possível reconstituir a história que as imagens contam, mas podemos imaginá-la. Este espetáculo teve lugar em 1929 e desde então nunca mais foi representado. O filho do compositor, que tem 92 anos, vem a Lisboa ouvir a obra do pai pela segunda vez — na primeira, tinha cinco ou seis anos.

Um outro espetáculo terá lugar no dia 3 de março: o multimédia de Ernesto de Sousa, Almada, Um Nome de Guerra (1969-1983) com múltiplas projeções, e através do qual Almada é eleito figura tutelar de uma neovanguarda performativa e experimental. 

 

O visitante sairá desta exposição com um novo olhar sobre a figura do artista ímpar que foi José de Almada Negreiros?

Sim, em primeiro lugar pelo facto de a exposição abordar Almada como um caso de estudo particularmente fecundo para pensar as questões da modernidade.

Em segundo lugar, a exposição vai contribuir para um melhor conhecimento da sua obra, já que estarão expostas mais de cem obras inéditas. Algumas obras apresentadas poderão ser uma surpresa para quem já o conhecia e uma descoberta para quem não conhece.

Por outro lado, a apresentação das obras mais conhecidas será reformulada. Por exemplo, os dois retratos de Fernando Pessoa pintados por Almada vão estar separados, cada um deles em diálogo com peças diferentes. O primeiro data de 1954 e pertence à Casa Fernando Pessoa. O segundo, mais recente, resultou de uma encomenda da Fundação Gulbenkian, tendo o artista utilizado um efeito de espelho, pelo que as obras não são exatamente iguais.

 A exposição põe ainda em relevo as suas pesquisas matemáticas e geométricas em pintura, as obras em espaço público na cidade de Lisboa, o carácter de narrativa gráfica que se encontra em vários dos seus trabalhos durante a sua carreira, o diálogo com o cinema e a extraordinária importância do autorretrato na sua obra. Será uma exposição que merece absolutamente uma visita.

 

José de Almada Negreiros: uma maneira de ser moderno
De 3 fevereiro 2017 a Seg, 5 junho 2017  – das 10:00 às 18:00
Curadoria: Mariana Pinto dos Santos
Curadoria executiva: Ana Vasconcelos

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