European Values Study: quais os valores dos portugueses?

Conheça as respostas às questões sobre Família e Papéis de Género, Ética e Moralidade, Cultura Cívica, Distância Social e Imigração e Democracia. O estudo, realizado pelo ICS, foi apoiado pelas fundações Gulbenkian, "la Caixa" e para a Ciência e Tecnologia.

De entre seis esferas da vida – trabalho, família, lazer, amigos, política e religião – qual a mais importante, para os portugueses? Qual a sua postura perante a eutanásia e o suicídio? Estão mais ou menos tolerantes em relação à fuga aos impostos? Que vizinhos preferem: pessoas de etnia cigana, alcoólicos ou toxicodependentes? E que postura têm em relação aos imigrantes? O que pensam da democracia? E de outros tipos de regime político?

A resposta a estas e outras questões sobre Família e Papéis de Género, Ética e Moralidade, Cultura Cívica, Distância Social e Imigração e Democracia, incluídas no European Values Study (2017-2020), vai ser apresentado na segunda feira, 14 de junho, às 15:00, numa sessão online, a partir da Fundação Calouste Gulbenkian.

 

Principais conclusões do Estudo

Família e papéis de Género

De entre seis esferas da vida (trabalho, família, lazer, amigos, política e religião), a família é, para 88% dos inquiridos em Portugal a mais importante.

O casamento continua a ser uma instituição valorizada pela maioria dos inquiridos: apenas 25% dos inquiridos em Portugal consideram o casamento “uma instituição antiquada”. Os fatores determinantes para o seu sucesso (ou de uma união de facto) são a fidelidade, muito importante para 85% dos inquiridos, seguindo-se a existência de filhos e um rendimento adequado (ambos com 59%).

Quase metade dos inquiridos (43%) concordam ou concordam totalmente que “a mulher trabalhe, mas o que a maior parte das mulheres realmente quer é um lar e filhos”. Esta não é uma representação predominantemente masculina, uma vez que as diferenças entre sexos não são estatisticamente significativas.

Relativamente às consequências do trabalho pago da mulher no bem-estar dos filhos, a tendência é semelhante: 46% concordam ou concordam totalmente que, “quando a mãe tem atividade profissional, os filhos são prejudicados”. Esta opinião é partilhada por homens e mulheres. 

Mesmo assim, 18% consideram que “quando os empregos são poucos, os homens têm mais direito ao trabalho do que as mulheres”; 17% concordam que “os homens dão melhores líderes políticos do que as mulheres”, um valor claramente abaixo da média europeia (30%); e, para 11% dos inquiridos, “ter um curso superior é mais importante para um rapaz do que para uma rapariga”.

 

Ética e moralidade

Para os inquiridos em Portugal, as qualidades mais importantes que as crianças podem aprender em casa são ‘ter boas maneiras’ e ‘ter sentido de responsabilidade’. As menos importantes são ‘ter imaginação’ e ‘ter fé religiosa’.

Comparando com 1990, agora é dada maior importância a ‘ser independente’ e ‘ser perseverante’, sendo dada menor importância a ‘ser obediente’.

Relativamente ao conjunto de questões sobre a vida e a morte verifica-se, desde 1990, uma abertura tendencial à eutanásia e mantém-se uma forte condenação do suicídio. A atitude face ao aborto tem-se mantido estável desde 1990, com valores abaixo do ponto médio da escala.

 

Cultura Cívica

Ao longo dos últimos 30 anos, os portugueses têm-se declarado cada vez menos tolerantes em relação a comportamentos como a fuga aos impostos, a reivindicação de benefícios a que não se tem direito, à aceitação de subornos ou mesmo o não-pagamento de bilhetes em transportes públicos.

Contudo, noutros aspetos mais indiretos daquilo a que se pode chamar a “cultura cívica”, as mudanças são muito menos visíveis. Continuamos a estar entre as populações europeias que menos confiança têm nos seus concidadãos, assim como entre aquelas que menos se envolvem em atividades de voluntariado.

 

Distância Social e oposição à imigração

Quem é que os Portugueses não gostariam de ter como vizinhos? De entre um conjunto de 8 grupos de pessoas, há 3 que são mais rejeitados: ciganos (59%), alcoólicos (62%) e toxicodependentes (64%), sendo os dois últimos os que recebem maior rejeição em todos os países.

Os trabalhadores imigrantes e as pessoas percebidas como pertencendo a outra raça são os dois grupos que menos incomodariam enquanto vizinhos, ambos assinalados por 13% dos inquiridos.

Relativamente aos imigrantes, Portugal vem revelando uma abertura crescente à sua presença e à sua importância para o desenvolvimento do país, embora ainda haja uma proporção significativa de inquiridos que acha que os imigrantes ‘tiram trabalho aos nacionais’, ‘contribuem para o aumento do crime’ e ‘são um peso para a segurança social’.

Em Portugal, a imigração é vista como um factor “bom” ou “muito bom” para o desenvolvimento do país por 49% dos inquiridos em Portugal; os que consideram a imigração como má ou muito má representam 14% dos inquiridos.

 

Democracia

Para 86% dos inquiridos “ter um sistema político democrático” é uma maneira boa ou mesmo muito boa de governar o país.

Esta opinião é acompanhada pela rejeição de outros tipos de regime político: autocracias de “homens fortes” (“Ter um líder forte que não tenha que se preocupar nem com o Parlamento nem com as eleições” é um maneira má ou muito má de governar o país para 37%); tecnocracias (“Serem os especialistas e não os governantes a tomar as decisões de acordo com o que consideram ser melhor para o país” é má ou muito má para 28%); e ditaduras militares (“Serem as Forças Armadas a governar o país” é má ou muito má para 66%).

 

Sobre o European Values Study

O European Values Study (EVS) é um dos mais antigos estudos comparativos e longitudinais sobre atitudes e valores que se realizam na Europa. A primeira edição data de 1981, tendo contado com a participação de dez países europeus. Este número foi aumentando progressivamente, tendo participado 27 países em 1990, 33 em 1999 e 47 em 2008. Na quinta edição do EVS (2017-2020), de onde foram selecionados os resultados ora apresentados, participaram 34 países.

Os dados do EVS são de acesso aberto e têm fomentado inúmeras publicações, quer de teor académico, quer de âmbito mais generalizado, que podem ser consultadas em EVS-Publicações.

Portugal participa no EVS desde 1990. A edição de 2017-2021 contou com o apoio financeiro da Fundação Calouste Gulbenkian, da Fundação “la Caixa” e da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. O EVS está integrado no programa Atitudes Sociais dos Portugueses, uma das componentes da infraestrutura PASSDA (Production and Archive of Social Science Data), consórcio inserido no Roteiro Nacional de Infraestruturas da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, liderado pelo ICS-ULisboa.

O trabalho de campo desta foi levado a cabo pela GfK-Metris, entre 11 de janeiro e 31 de março de 2020. De uma amostra inicial de 3032 lares, obtiveram-se 1215 entrevistas que representam uma taxa de resposta de 41% e um erro amostral de ± 2,8% para um intervalo de confiança de 95%.

 

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