Crises Socioeconómicas e Saúde Mental: da Investigação à Ação

Fórum Gulbenkian de Saúde Mental, dias 24 e 25 novembro 2016

Os principais especialistas mundiais no estudo dos determinantes sociais da saúde mental e das estratégias para a promoção da saúde mental das populações vão estar reunidos, nos próximos dias 24 e 25 de novembro, na Fundação Calouste Gulbenkian, para um fórum dedicado ao tema “Crises Socioeconómicas e Saúde Mental: da Investigação à Ação”. No decorrer deste encontro serão também apresentados os primeiros resultados de um novo estudo sobre o impacto da crise económica na Saúde Mental em Portugal.

O objetivo central do fórum de dois dias será reunir a investigação mais relevante que tem sido feita sobre o impacto dos fatores sociais e económicos na saúde mental em Portugal, na Europa e no mundo, com a participação de investigadores provenientes de campos de estudo diversos, não só da Psiquiatria e da Saúde Mental, mas também das Ciências Sociais, da Antropologia, da Sociologia e da Economia, cruzando uma perspetiva mais mundial ou mais europeia com a realidade portuguesa.

“Ter ou não ter uma doença mental depende dos genes, de acontecimentos na vida de uma pessoa, mas também das condições de vida. Depende do rendimento, por isso a saúde mental está muito associada à pobreza, e depende das diferenças sociais e económicas: a desigualdade é em si um fator estreitamente associado à saúde mental. Neste contexto, a crise económica que vem desde 2008/2009 em todo o mundo, e que se fez sentir de uma forma particular na Europa, tornou-se um campo de estudo muito importante. Criou uma oportunidade, infelizmente, para se poder comprovar a influência destes fatores sociais e económicos sobre a saúde mental”, afirma José Caldas de Almeida, presidente do Lisbon Institute of Global Mental Health, uma estrutura criada em 2015 para dar continuidade aos projetos de saúde mental global desenvolvidos nos últimos anos pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, em colaboração com a Organização Mundial de Saúde e com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.

José Caldas de Almeida coordena um estudo ainda em curso, mas cujos resultados preliminares serão apresentados durante o Fórum. “Estivemos muito tempo sem saber quase nada em termos científicos da magnitude dos problemas de saúde mental em Portugal. Só em 2010 é que tivemos pela primeira vez resultados de um estudo numa amostra representativa da população portuguesa”. O follow-up deste estudo só termina formalmente em abril de 2017, mas os resultados das primeiras análises de dados trazem já “algumas indicações interessantes”, avança o coordenador.

Michael Marmot, o mais conhecido investigador a nível mundial na área dos determinantes sociais e do impacto das desigualdades sociais na saúde, dará uma das conferências principais do fórum, bem como Crick Lund, investigador da África do Sul que tem trabalhado muito sobre as associações entre pobreza, subdesenvolvimento e saúde mental. Para além destas conferências, várias mesas redondas vão debater o impacto da crise económica sobre a saúde mental na Europa, em geral, e em alguns países em particular, como a Grécia e a Espanha onde estes problemas se manifestaram duma forma bastante evidente. Haverá ainda um debate sobre o problema dos novos grupos especialmente vulneráveis que estão a surgir em função da crise e da globalização, e de muitos outros fatores ligados às mudanças sociais e políticas dos últimos tempos, incluindo a situação dos refugiados, dos sem-abrigo e das minorias étnicas, entre outros. No final do encontro, que conta com a participação de Shekhar Saxena, atual diretor para a Saúde Mental na Organização Mundial de Saúde, serão apresentadas recomendações não só para Portugal como para outros países.

O Fórum Gulbenkian de Saúde Mental realiza-se no contexto de um trabalho internacional que tem vindo a ser desenvolvido nos últimos anos pela Plataforma Gulbenkian para a Saúde Mental Global, em estreita colaboração com a Organização Mundial de Saúde.