Mãos que falam

Cantar alto sem se ouvir

Can-tar, verbo transitivo: Soltar canto, sons musicais, com a voz.

O coro Mãos que Cantam, apoiado pelo PARTIS (Projetos Artísticos para a Inclusão Social), decidiu desafiar a definição do verbo e do ato de cantar. Constituído por um grupo de homens e mulheres com surdez, este conjunto interpreta a voz à sua maneira, transformando as mãos e o corpo num veículo de música que não se ouve, mas que se vê e que se sente. Os pulmões são substituídos por braços, a laringe toma o lugar dos pulsos, e língua, lábios e dentes são interpretados por falanges, falanginhas e falangetas; tudo para provar que a nossa voz somos nós que a construímos e o nosso ritmo somos nós que o mantemos. 

Tudo começou em 2010, na Universidade Católica, quando um grupo de alunos de licenciatura e mestrado em Língua Gestual Portuguesa foi integrado no coro universitário. A ideia foi de Alexandre Castro Caldas, diretor do Instituto de Ciências da Saúde da universidade, do qual faziam parte estes jovens. A iniciativa nasceu de uma necessidade. Por sentir que os alunos surdos não estavam devidamente integrados, percebeu que a solução poderia passar pela inclusão dos mesmos num processo artístico – precisamente as características do PARTIS, do Programa Gulbenkian de Desenvolvimento Humano, que dá apoio ao coro Mãos que Cantam desde 2013. A partir daí, o coro, o único deste género na Europa, foi ganhando autonomia. Quatro anos mais tarde, a ideia mantém-se, os coralistas vão entrando e saindo, mas o maestro é o mesmo desde o início – Sérgio Peixoto.

“Sugeriram-me este desafio de ligar a surdez com a música e eu aceitei, porque é um desafio único.” Sérgio Peixoto é diretor do coro de ouvintes, o coro “normal”, da Universidade Católica. Quando lh0 propuseram não sabia muito bem o que esperar e recaiu sobre ele a responsabilidade de pôr o conceito em prática: “Começámos a trabalhar formas de ligar conceitos musicais à surdez. Acima de tudo são conceitos à base do ritmo e de outras estruturas musicais como a forma da música e a polifonia.” Traduzir estas ideias para gestos é uma tarefa complicada, é o próprio maestro que o afirma. Só assistindo ao coro Mãos que Cantam em ação é que se consegue ter uma ideia do trabalho que está a ser desenvolvido. As harmonias vocais são transformadas em movimentos. Nem todos fazem o mesmo, há uma mistura de língua gestual e dança, com a difícil missão de ter de acompanhar o ritmo da música. “Muitas vezes as músicas são cantadas a duas ou três vozes e eles (os membros do coro) também cantam a duas ou três vozes. A diferença é que cantam com a língua deles, cantam com os gestos.”

O ponto de partida é invariavelmente o texto da música: “Eu apresento-lhes a letra e eles fazem a transcrição para língua gestual com a ajuda de símbolos que criámos. Não é literal porque eles procuram o sentido estético. Isto é um projeto artístico e o lado estético é muito importante para nós.”

Mãos que falam

 

Pôr mãos à obra

Uma vez interpretado e traduzido o texto, chega a altura de ensaiar e pôr tudo em prática. À noite, alguns dos membros encontram-se na AFAS (Associação de Famílias e Amigos dos Surdos), um dos vários locais onde o coro ensaia. Sérgio Peixoto faz-se acompanhar de uma intérprete e cinco coralistas, pega no seu telefone, o único meio que tem para reproduzir a música e dá início ao ensaio. We Are the Ones, da banda We Trust, começa a tocar baixinho pela pequena coluna e o maestro começa a dar indicações. Há alguma pressa, a música é nova para o coro e faltam apenas dois dias para o concerto. No entanto, a situação é comum, o grupo atua com vários artistas, o que os obriga a variar muito o repertório. “É um grande desafio porque trabalhamos todo o tipo de música, desde música coral, porque o projeto nasceu com o coro de ouvintes da Universidade Católica, a outros géneros, e com muitos artistas, como por exemplo o Luís Represas ou a Sara Tavares.”

O grupo é pequeno, mas cheio de boa disposição, e a cumplicidade entre todos os membros é bem visível apesar do trabalho que está pela frente. “Ao todo temos à volta de dez elementos, entre os 25 e os 50 anos, e não podemos ter mais. Ao longo destes anos percebemos que, com mais, tornar-se-ia muito complicado trabalhar o gesto.”

A noite ainda vai ser longa, mas aos poucos nota-se uma diferença no entrosamento entre todos. O que ao início parecia apenas uma tradução para língua gestual começa cada vez mais a tornar-se numa dança, mas a transformação é complexa. “Um trabalho que faço em duas horas com o coro de ouvintes pode durar cinco ou seis aqui”, explica Sérgio Peixoto, que entende que a integração foi tanto dele na comunidade surda como o oposto. “Lembro-me que o primeiro ensaio que fiz durou sete horas. Foi a primeira vez que me senti numa inoria, ou seja, estava rodeado de pessoas e eu era o único ouvinte, eu e a intérprete.” E se agora a ligação entre o coro e o maestro parece fácil, no início não foi assim: “É uma comunidade um bocado fechada e é muito difícil integrarmo-nos, mas as coisas acabaram por correr maravilhosamente. Também é para isso que isto serve, não é só para integrar os surdos, é para integrar os ouvintes na comunidade deles.”

Todos em círculo num pequeno escritório da AFAS e passado algum tempo a coreografia parece começar a ficar interiorizada por cada um, faltará agora passar para o palco e perceber a reação de quem vê. Habitualmente, conta o maestro, as respostas são muito variadas. “É muito interessante ver a reação do público. Há de tudo, há pessoas que se emocionam. Normalmente há pessoas que acabam a chorar nos concertos. Há também indiferença, claro, há de tudo.”

Mãos que falam

O melhor é não parar

É sábado à noite e a banda We Trust prepara-se para tocar as últimas músicas do concerto. Sentados ali perto estão os membros do coro Mãos que Cantam. São professores de língua gestual, funcionários públicos, todos têm as suas profissões, mas nos minutos que se seguem vão ser cantores e contadores de histórias. Ouve-se o nome do coro ser chamado ao palco e o grupo sobe para debaixo das luzes do Jardim de Inverno do Teatro São Luiz. A participação é curta, mas vale o trabalho que tiveram umas noites antes. Cerca de 15 minutos em palco, com muita alegria e sentido de pertença, durante os quais o coro Mãos que Cantam mostra que a música não é exclusiva de quem ouve e pode ser sentida e interpretada por todos. “Cantam” temas como We Are The Ones e Better not Stop e a poucos metros, à frente do palco, Sérgio Peixoto vai dando indicações e tenta acompanhar o ritmo da banda. No público, vê-se quem olhe isto tudo com estranheza, quem esteja completamente intrigado e até gente que tenta acompanhar os gestos. A verdade é que, durante estes 15 minutos, todos ali se lembram que a surdez existe, está entre nós e deve ser mais integrada na nossa sociedade. Do lado do coro, a satisfação final é notória. Os nervos do pré-concerto são substituídos por sorrisos de alívio e orgulho, acima de tudo porque puderam mostrar aquilo de que são capazes. Foi mais uma atuação no meio das muitas que o Mãos que Cantam tem agendadas, a última de 2014. Em 2015 prometem não parar.


O projeto educativo e o futuro

O Mãos que Cantam não pretende ficar apenas pelos palcos. Com o apoio do PARTIS (Fundação Gulbenkian), está a trabalhar num projeto educativo que consiste na criação de um e-book com os símbolos gestuais que têm transportado para o universo musical. Estão a construir um vocabulário novo, inexistente, uma linguagem musical para surdos que querem pôr em prática nas escolas com alunos surdos por intermédio de professores de música. Para Sérgio Peixoto,  este é o grande objetivo do coro – dar continuidade ao caminho que estão a desbravar com este grupo reduzido.
Entretanto, vão preparando o futuro em termos de concertos. Neste momento estão a trabalhar com um compositor da Escola Superior de Música, Carlos Garcia, que está a compor a primeira obra para coro de ouvintes e coro de surdos, uma peça especificamente criada para juntar estes dois mundos distintos. “Gostava muito que pudesse ser estreada com o Coro Gulbenkian”, revela o maestro.

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