A pegada da sustentabilidade na arte

Até final de maio, há uma peça de Bordalo II para descobrir no Jardim Gulbenkian.

Artur Bordalo nasceu em 1987, em Lisboa, e diz pertencer a “uma geração extremamente consumista, materialista e gananciosa”. Sob o nome Bordalo II – depois do avô, artista plástico Real Bordalo, falecido aos 91 anos em junho do ano passado –, o artista de arte urbana começou no graffiti e tornou-se conhecido pelas suas esculturas feitas com recurso a lixo e desperdícios, expostas um pouco por todo o mundo ao longo dos últimos anos. A peça que criou especialmente para o Jardim Gulbenkian, da sua série “Big Trash Animals”, inaugurou a 21 de abril e está exposta até ao fim do mês de maio. Siga esta pegada no Jardim.

O trabalho com o lixo faz com que as suas obras tenham uma dimensão ecológica, além da artística. Como começou o trabalho com este material?

Não foi uma coisa premeditada. Há uns anos tinha um estúdio pequeno, onde comecei a fazer as minhas experiências com pintura, e como era muito desarrumado deixava num canto os cartões, os plásticos, as embalagens das telas, as latas… Um dia, decidi juntar todo esse desperdício e comecei a esmagar as peças, a colá-las e a fazer superfícies para pintar. Depois, gradualmente, comecei a explorar temáticas diferentes, até chegar à temática dos animais – e, neste caso, o conceito veio pela forma e não o oposto. Entendi que o trabalho com lixo ou desperdício podia ter um potencial conceptual muito interessante, porque se está a trabalhar com um problema para criar uma imagem também ela relacionada com o problema. É uma espécie de “pescadinha de rabo na boca”: utilizar o material que mata os animais para fazer uma imagem dos animais que são a vítima desse mesmo material. Foi assim que a componente ecológica acabou por surgir no meu trabalho. Hoje, a maior parte das coisas que utilizo são plástico encontrado na rua, em aterros “ilegais”, fábricas abandonadas, sucatas, oficinas ou centros de reciclagem.

 

Além dos trabalhos expostos em Portugal, tem tido muita projeção internacional. Quais as experiências que mais o marcaram até ao momento?

Foram sem dúvida aquelas em países onde há muito lixo e não há sistema de reciclagem ou uma grande preocupação ambiental. Falo de países como o México, o Haiti, a Tailândia… O Haiti, por exemplo, é uma ilha com um ambiente paradisíaco, mas a ação descontrolada do Homem e a miséria que vem por arrasto tornam-no completamente deprimente. Apesar de haver lixo por todo o lado, foi muito difícil encontrar material para trabalhar; não havendo sistema de reciclagem, está tudo misturado e é impossível encontrar um pedaço de plástico isolado com o qual trabalhar. Essa experiência de recolha de lixo, que me obriga a estar no terreno à procura de material quando vou fazer uma obra, é uma parte bastante importante do processo de criação, que se vai refletindo também naquilo que me vou tornando como pessoa e artista.

 

Como sente que o seu trabalho tem sido recebido?

Trabalho bastante mais fora do que cá, mas acho que no geral o trabalho tem sido recebido com os olhos com que eu espero que seja – não como uma série de coisas meramente estéticas e agradáveis à vista, mas como um trabalho com algo para dizer, um conceito, uma mensagem. Acho que o facto de ser convidado para expor numa instituição como a Gulbenkian é uma prova disso mesmo.

 

Pela primeira vez há uma peça sua exposta na Fundação Gulbenkian. Que peça é esta?

A escultura que fiz para o Jardim Gulbenkian faz parte da série de trabalhos à qual chamei “Big Trash Animals”, que tenho desenvolvido um pouco por todo o mundo, e em que construo imagens de animais de várias espécies (muitos em vias de extinção), chamando a atenção para a problemática da poluição e da contaminação do lixo no ecossistema. Esta peça em particular é composta por dois ursos – a mãe, com cores vivas, bonitas e naturais e o filho, com as cores sintéticas do plástico –, em que a diferente plasticidade de um e outro pretende evocar a ideia de intergeracionalidade, e marcar uma diferença geracional. O que isto quer dizer é que a próxima geração é ou será muito mais afetada pelos nossos erros do que nós.

 

Porque é que acha que este tema (a preocupação com as gerações futuras) é relevante nos dias de hoje? Qual a relação que pode existir entre arte e sustentabilidade? 

Eu acho que acima de tudo devemos preocupar-nos com o estado do mundo e da Natureza. A Terra é provavelmente única no universo, e para já não temos outra alternativa. É uma grande contradição alguém que não tem essa consciência ambiental querer ter filhos e netos, porque estamos a deixar um legado infernal para as gerações futuras. Acredito que o meu trabalho pode servir, e eu espero que sirva, como parte da educação e cultura, que quanto a mim deve ser a base de qualquer sociedade sustentável. A arte, e especialmente a arte no espaço público, no meio dos anúncios e outdoors com que somos bombardeados no dia-a-dia, ainda funciona como agente de comunicação impactante, com o poder de captar o olhar das pessoas para as coisas importantes. No meu trabalho, digo que a questão da sustentabilidade veio por acréscimo, porque o conceito surgiu depois do processo de criação; mas é algo em que espero trabalhar durante muito tempo. Faz-me sentir muito mais realizado poder fazer uma peça que não seja apenas um objeto artístico, que tenha alguma coisa a dizer à sociedade e que seja uma presença ativa na esfera comum.