Sinfonia n.º 1 de Mahler

Orquestra Gulbenkian / Hannu Lintu / Karita Mattila

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Durante muitos anos, a soprano finlandesa Karita Mattila resistiu às obras de Wagner. Mas depois de interpretar Sieglinde, em A Valquíria, e de assistir às cinco horas de O Crepúsculo dos Deuses, confessou ao New York Times ter-se rendido por completo ao compositor alemão. “Foi como uma experiência religiosa.” É essa relação transcendente que Mattila transpõe para este concerto com a Orquestra Gulbenkian, dirigido pelo seu compatriota Hannu Lintu. A reputação extraordinária da soprano tem sido construída a partir o ponto de tangência entre a beleza lírica da sua voz e a natureza teatral das suas interpretações, fazendo de cada atuação uma experiência inesquecível.


Programa

Orquestra Gulbenkian
Hannu Lintu Maestro
Karita Mattila Soprano

Richard Wagner (1813 – 1883)
Wesendonck Lieder
1. Der Engel / O Anjo
2. Stehe still! / Pára!
3. Im Treibhaus / Na Estufa
4. Schmerzen / Sofrimento
5. Träume / Sonhos

Composição: 1857-58
Duração: c. 25 min.

As canções são uma exceção na produção musical de Wagner, que direcionou a sua criatividade quase exclusivamente para a ópera. Os Wesendonck Lieder, escritos no inverno de 1857-58, durante um exílio na Suíça, têm especial significado pela ligação com a obra-prima Tristão e Isolda e como expressão do amor impossível com a autora dos poemas.

Após o fracasso da revolução de maio de 1849, Wagner foi forçado a deixar Dresden. Em Zurique, onde se refugiou após uma passagem por Paris, o seu principal mecenas foi Otto Wesendonck, um abastado comerciante de seda. A sua jovem e bela esposa Mathilde tornou-se para Wagner na musa ideal, numa criativa parceira intelectual e amante, ainda que platónica segundo alguns autores. A relação com os Wesendonck, que teve início em 1852 numa récita de Tannhäuser, foi preponderante na revitalização da sua criatividade, estagnada após a estreia de Lohengrin (1847) e perturbada por uma crise no casamento com a atriz Minna Planer.

Inspirada pela leitura dos primeiros esboços de Tristão e Isolda que Wagner lhe mostrava regularmente, Mathilde escreveu cinco poemas com algum talento literário, mas sobretudo apaixonados. Wagner musicou-os para voz e piano ao mesmo tempo que escrevia o primeiro ato de Tristão e Isolda e quis publicá-los sem menção do poeta, com o subtítulo “Cinco poemas diletantes”. Durante muito tempo atribuiu-se ao próprio compositor a autoria dos textos de Cinco poemas para voz feminina com música de Richard Wagner. Entusiasmado e excessivo afirmou: “Nunca escrevi nada melhor do que estes Lieder e muito pouco da minha obra futura se poderá vir a comparar com eles”.

A relação entre as canções e Tristão e Isolda é evidente, com ideias musicais desenvolvidas na ópera e duas delas classificadas por Wagner como “estudos para Tristão e Isolda”. Os temas são tendencialmente existenciais, oscilando entre terra e céu, vida e morte, vontade e desejo. Der Engel evoca o anjo redentor com frases que se encaminham em direção ao céu, através de quartas ascendentes, e sugere o motivo do anúncio da morte de A Valquíria. Em Stehe still! a renúncia à vontade e ao desejo é traduzida por uma desintegração do tempo, com figuras cada vez mais longas quebradas por pausas. Im Treibhaus é talvez a mais complexa do conjunto, servindo mais tarde para o 3.º ato de Tristão e Isolda. Em Schmerzen, Wagner retrata musicalmente a imagem do sol a afundar-se para renascer no dia seguinte com uma exultação heroica. Träume é o esboço do dueto de amor de Tristão e Isolda. Foi a única canção que Wagner orquestrou, para que fosse tocada à janela de Mathilde.

Susana Duarte

 

INTERVALO

 

Gustav Mahler (1860 – 1911)
Sinfonia n.º 1, em Ré maior
1. Langsam, schleppend / Lento, arrastado
2. Kräftig bewegt, doch nicht zu schnell / Andamento poderoso, mas moderado
3. Feierlich und gemessen, ohne zu schleppen / Solene e mensurado, sem arrastar
4. Stürmisch bewegt – Energisch / Tempestuoso – Enérgico

Composição: 1887-1888
Estreia: Budapeste, 20 de novembro de 1889
Duração: c. 56 min.

Considerado hoje um dos mais destacados compositores da sua geração, Gustav Mahler representa um elo fundamental na transição entre a tradição austro-germânica do século XIX e o modernismo do início do século XX. O seu percurso criativo foi, numa primeira fase (c.1880-1901), marcado pela íntima e complexa proximidade entre canções e sinfonias. É o caso da Sinfonia n.º 1, em Ré maior, que reutiliza as canções n.º 2 e n.º 4 do seu ciclo de canções orquestrais Lieder eines fahrenden gesellen (1884-85). Composta em Leipzig entre 1887 e 1888, seria estreada em Budapeste no ano seguinte com uma receção negativa. Planeada originalmente como um poema sinfónico em cinco andamentos, a obra conheceria várias revisões até assumir a sua forma definitiva em 1898, ano da sua publicação, renunciando ao título Titã (inspirado em Jean-Paul) e à descrição programática, bem como ao 2.º andamento original, Blumine.

O primeiro andamento abre num ambiente misterioso, marcado por um motivo de quartas descendentes nas madeiras, clareando a atmosfera no momento em que esse motivo se torna no início do tema principal. O desenvolvimento recorda o material da introdução e, nos compassos finais, o motivo de duas notas encerra o andamento com humor. Segue-se um scherzo e trio inspirado num Ländler tradicional austríaco. O trio apresenta material lírico contrastante e o Ländler retorna abreviado e com uma orquestração mais pesada. O terceiro andamento é uma marcha fúnebre baseada na melodia infantil “Frère Jacques”, exposta por um contrabaixo solista e comentada pelo oboé. Após a evocação de um conjunto instrumental judaico e um episódio mais contemplativo, a marcha fúnebre encerra com a sobreposição dos três elementos temáticos e o seu desmoronamento. No Finale um tema em Fá menor é proclamado energicamente nos metais, contrastando com uma ideia poética nas cordas. O tema inicial surge em Ré maior, e as trompas apresentam uma versão modificada do motivo inicial de quartas, submergindo agora em nova secção lírica. O tema principal do Finale retorna em modo menor nas cordas, sendo reafirmado em Ré maior pelos metais e alcançando enfim um ponto culminante que leva à conclusão da obra em ambiente de fanfarra.

Luís M. Santos


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  • Por Alexandre Delgado

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