Quatro Últimas Canções

Coro e Orquestra Gulbenkian / Nuno Coelho / Camilla Tilling

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Desde que se estreou na New York City Opera, coroada com uma forte ovação, a soprano sueca Camilla Tilling passou a ser uma presença regular nos mais prestigiados palcos de ópera do mundo. Nos 22 anos que distam desse momento inicial, o amadurecimento de Tilling transformou-a também numa das vozes mais envolventes e fascinantes em concertos e recitais, nos quais emprega toda a beleza da sua coloratura vocal. Na Gulbenkian Música, caber-lhe-á cantar as Quatro Últimas Canções de R. Strauss, inspiradas pela leitura da poesia Joseph von Eichendorff e Hermann Hesse. Destaque ainda para a possibilidade de ouvir ao vivo a raramente interpretada obra Canto da Parcas, para coro e orquestra, de J. Brahms.


Programa

Coro Gulbenkian
Orquestra Gulbenkian
Nuno Coelho Maestro
Camilla Tilling Soprano

Johannes Brahms (1833 – 1897)
Canto das Parcas / Gesang der Parzen, op. 89

Composição: 1882
Estreia: Basileia, 10 de dezembro de 1882
Duração: c. 13 min.

Johannes Brahms, enquanto compositor de Lied, quando comparado com Schumann e Wolf, foi frequentemente acusado de falta de gosto literário, por ter evitado alguns poetas considerados essenciais, preferindo outros menores. Era, no entanto, um leitor interessado, reunindo uma biblioteca com as obras completas de alguns dos maiores nomes da literatura antiga, assim como diversas antologias poéticas. Se nas canções usou textos com os quais se identificava, independentemente do poeta, nas obras corais recorreu aos autores mais queridos e aos livros que melhor conhecia: Goethe, Schiller, Hölderin, a Bíblia.

Terá sido ao assistir à peça teatral Iphigenie auf Tauris, de Goethe, que Brahms decidiu pôr em música o quarto ato, conhecido como Canto das Parcas. Integrado no mito grego de Ifigénia, irmã de Orestes e de Electra, a canção das Parcas (três deusas que controlam o destino humano) era cantada aos três irmãos por uma ama, quando eram crianças. A sua base é a história do terrível castigo de Tantalus (antepassado dos pais de Ifigénia), condenado a passar a eternidade num tormento de fome e sede por ter ofendido os deuses.

A história é tétrica e o poema impressiona. Brahms usa a passagem que começa com “Temendo os deuses, viveremos nós, os filhos dos homens”. Goethe avisa a humanidade que, apesar de poder ser exaltada pelos deuses, vive em constante perigo de ser atirada para a profunda escuridão da noite e relembra a condição de resignação dos homens face ao destino e à crueldade dos deuses. Mas Brahms, a certo ponto, insurge-se contra a desolação do poema e procura um final consolador.

Foi a última obra coral orquestral do compositor e a mais negra das suas elegias. Brahms reforça o ambiente sombrio do texto privilegiando as vozes e os instrumentos mais graves, com divisi nos altos e nos baixos e utilização do contrafagote e da tuba, de modo a acentuar a escuridão. A orquestração é relativamente grande para a curta duração da composição.

Os tímpanos têm um papel proeminente, marcando o ritmo da marcha num quaternário inexorável. Secções tremendas e enérgicas como a dos titãs sufocados nos abismos, contrastam com outras mais calmas e quase sinistras como a imagem do festim dos deuses sentados à sua mesa dourada.

Quando “os governantes desviam os olhos de todas as raças”, a marcha passa a compasso ternário, o staccato transforma-se em linhas sustentadas, o modo menor passa a maior. Brahms deseja imbuir-nos de compaixão por todos aqueles a quem os deuses viraram costas: “creio que, com a simples entrada do modo maior, o ouvinte ingénuo deverá sentir o seu coração derreter e os seus olhos humedecerem; é então que, de facto, pela primeira vez, toma consciência de toda a angústia da humanidade”.

No epílogo, regressamos ao modo menor e ao ambiente inicial, transfigurado, em pianíssimo, com uma sonoridade obsessiva e sustentada das cordas com surdina e uma flauta a iluminar a melodia do violino. O coro declama as últimas linhas em uníssono.

Richard Strauss (1864 – 1949)
Quatro Últimas Canções / Vier Letzte Lieder
1. Primavera / Frühling
2. Setembro / September
3. Ao adormecer / Beim Schlafengehen
4. Ao pôr do sol / Im Abendrot

Composição: 1948
Estreia: Londres, 22 de maio de 1950
Duração: c. 25 min.

Nascido em Munique em 1864, Richard Strauss compôs durante quase oitenta anos, passou por duas guerras mundiais e teve uma brilhante carreira como maestro. No final da sua vida assistiu aos bombardeamentos que destruíram o Teatro Nacional de Munique, onde seu pai havia sido primeira trompa da orquestra da corte e onde ele próprio tinha dirigido algumas das mais importantes óperas. A comoção provocada pela destruição da guerra e a recordação do tempo da arte e da beleza marcaram as suas últimas obras.

A música vocal foi uma constante na sua longa vida, em grande medida inspirada por Pauline de Ahna (1863-1950), soprano com carreira operática, sua companheira durante mais de cinquenta anos. Quando, no final de 1946, se debruçou sobre Im Abendrot (Ao pôr do sol), de Joseph von Eichendorff (1788-1857), poeta romântico cujos textos foram tão caros a Schubert, Schumann ou Wolf, e que se refere ao termo de uma extensa viagem de um par que aguarda a hora de (finalmente) repousar, pensou seguramente em Pauline e no seu longo casamento.

Im Abendrot foi o ponto de partida para as Quatro Últimas Canções, conjunto de Lieder para soprano e orquestra, das mais belas páginas que o compositor alemão escreveu. A esta juntou três canções sobre poemas do seu contemporâneo Hermann Hesse, compostas nos meses seguintes, entre maio e setembro de 1948. O editor deu o título ao grupo sem considerar a ordem cronológica, mas sim a progressão temporal e humana, deixando naturalmente Im Abendrot para o fim. Strauss diz adeus saudoso, nostálgico, mas não trágico, a um mundo desaparecido, partindo um ano antes da estreia da obra.

Com orquestração sumptuosa e refinada, as sensuais linhas melódicas da voz relacionam-se subtilmente com as texturas instrumentais. A trompa tem vários pequenos solos. Frühling é uma canção de primavera onde a voz ascende quando sonha com as árvores e o céu, e a flauta evoca o canto dos pássaros; September é a poética imagem de um jardim de final de verão. Em Beim Schlafengehen (“Ao adormecer”), o final da jornada começa com as cordas graves. A “alma, livre de vigilância” voa, primeiro com o solo de violino e depois com a voz, e a celesta evoca o céu estrelado. Finalmente, em Im Abendrot, à pergunta “Será isto talvez a morte?” a orquestra responde com o tema de Morte e Transfiguração. As cotovias, imitadas pelas flautas, elevam-se para longe.

— Intervalo de 20 min —

Johannes Brahms (1833 – 1897)
Sinfonia n.º 4, em Mi menor, op. 98
1. Allegro non troppo
2. Andante moderato
3. Allegro giocoso
4. Allegro energico e passionato

Composição: 1884-1885
Estreia: Meiningen, 25 de outubro de 1885
Duração: c. 42 min.

Johannes Brahms apresentou a sua Quarta Sinfonia primeiramente a um pequeno grupo privado, tocando em conjunto com o pianista austríaco Ignaz Brüll (1846-1907), numa versão para dois pianos. Eduard Hanslick (1825-1904), o famoso crítico musical (e defensor do conceito de música absoluta, personificada por Brahms), que virava as páginas nessa apresentação, afirmou: “durante todo o primeiro andamento tive a sensação de estar a ser sovado por duas pessoas incrivelmente inteligentes”.

Composta nos verões de 1884 e 85 nos Alpes austríacos, como era seu hábito, a Sinfonia n.º 4 seria, talvez por influência das leituras de Sófocles que Brahms fazia na altura, uma das mais sombrias e de caráter trágico, apesar das belas paisagens que rodeavam o compositor. Se nas duas primeiras sinfonias seguiu o modelo de Beethoven (anos antes afirmava nem se atrever a escrever sinfonias, por reverência) e na terceira explorou novas escolhas para o final, nomeadamente uma conclusão mais serena, na quarta levou essa experiência mais longe. Com uma linguagem muito pessoal e pessimista, a última das suas sinfonias marca o final de uma era e encaminha-se para o futuro, em direção a um novo século que a reconheceria como progressista. Estreada em Meiningen em outubro de 1885, dirigida pelo compositor, foi desde logo bem recebida e compreendida pelo público.

A Sinfonia n.º 4 começa com uma inquieta melodia numa alternância entre terceiras descendentes e ascendentes, mas o desenvolvimento do tema é interrompido por um motivo de fanfarra de sopros, que surge com frequência lembrando uma era romântica de cavaleiros errantes. O Andante moderato que se segue utiliza o modo frígio, criando uma atmosfera medieval. O terceiro andamento, um scherzo ao estilo de Beethoven, adiciona o triângulo e o piccolo à orquestra e novamente as fanfarras alternam com episódios jocosos. O último andamento é construído como uma passacaglia, baseado na cantata BWV 150 de J. S. Bach, Nach dir, Herr, verlanget mich (“A Ti, Senhor, elevo minha alma”). O tema que serve de base ao baixo e sobre o qual Brahms faz mais de trinta variações, provém da frase do texto “Os meus dias de sofrimento são por Deus em alegria transformados”.

Notas de Susana Duarte


Guia de Audição


  • Por Jorge Rodrigues

  • Por Jorge Rodrigues

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