Piazzolla e Ginastera

Orquestra Gulbenkian / Leonardo García Alarcón

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Astor Piazzolla foi o grande nome da renovação do tango, tendo criado um novo estilo que acolheu elementos do jazz e da música erudita. Através do seu bandoneón, o tango de inspiração popular afirmou-se como música de alcance mais exigente. O concerto para bandoneón e orquestra Aconcagua foi estreado em 1981, em Washington, com o próprio Piazzolla no lugar de solista. Na Gulbenkian Música esse desafio caberá ao jovem Lysandre Donoso, um dos mais requisitados bandoneonistas europeus.


Programa

Orquestra Gulbenkian
Leonardo García Alarcón Maestro
Mariana Flores Soprano
Lysandre Donoso Bandoneón

Astor Piazzolla (1921 1992)
Aconcagua, concerto para bandoneón e pequena orquestra
Allegro marcato
Moderato
Presto

Composição: 1979
Duração: c. 24 min.

O presente concerto apresenta perspetivas contrastantes da música argentina do século XX, integrando obras orquestrais que adaptam géneros tradicionais e populares desse país à sala de concertos. Apesar das diferenças de perspetiva sobre a Argentina que dividem Ginastera e Piazzolla, há uma ligação muito forte entre eles. Na década de 1940, o jovem Astor Piazzolla foi um dos primeiros alunos de Alberto Ginastera. Dessa forma, a visão do professor que colocava o espírito nacional da Argentina nas estancias gaúchas (propriedades dedicadas à criação de gado bovino) é contraposta aos tangos escritos pelo aluno, ligados aos bairros populares de Buenos Aires.

Aconcagua é um concerto para bandoneón e orquestra de cordas e percussão escrito por Piazzolla em 1979. O bandoneón é um instrumento semelhante à concertina. Desenvolvido na Alemanha no século XIX, atravessou o Atlântico na bagagem dos europeus que se fixaram na Argentina aquando das vagas de imigração e ocupou um lugar central na música popular desse país.

A carreira internacional de Piazzolla estava em vias de relançamento no final da década de 70, após várias experiências, nem sempre bem-sucedidas. A capacidade de metamorfose estilística contribuiu para a notoriedade de Piazzolla como um dos expoentes máximos do bandoneón e o desenvolvimento do circuito transnacional da world music catapultou as suas obras para a ribalta internacional, tornando-o presença assídua em festivais de jazz e de música erudita. Aconcagua foi o título atribuído ao concerto pelo editor Aldo Pagani, traçando um paralelo entre o ponto mais alto das Américas e a obra do compositor argentino.

O concerto tem início com um tango em que solista e orquestra fazem a sua entrada em simultâneo e de forma decidida. O bandoneón apresenta as melodias principais da obra, com o apoio da orquestra. As acentuações irregulares que Piazzola tornou omnipresentes no tango permeiam todo o andamento, que leva a uma cadência sem acompanhamento protagonizada pelo solista. A liberdade dessa passagem prepara uma secção intermédia que contrasta com a energia do início. O seu lirismo, encarnado em longas melodias atribuídas às cordas e de caráter cantável, conduz a outra cadência do solista. Esta liga o lirismo da secção intermédia à atmosfera inicial, cuja energia é mantida até ao final do andamento.

O Moderato é um episódio contemplativo e cantável, que atribui primazia ao solista. As longas melodias do bandoneón, interpretadas de forma livre, emaranham-se com os temas do violino, que complementa o solista acompanhado pela harpa. Um tutti expressivo reforça o melodismo do andamento e prepara o regresso do solista acompanhado pelo piano. O retorno do tema principal junta-se à intensificação da dinâmica, que atinge um pico e se dissolve, progressivamente, até ao final.

O último andamento tem início com um tutti vigoroso que encarna a energia do tango. Uma sucessão de melodias de tango, em que o solista e a orquestra se apoiam mutuamente em passagens de grande intensidade, encarnam o cariz rapsódico do andamento. A assimetria rítmica do acompanhamento enfatiza a entrada afirmativa do bandoneón, cujo pulsar rítmico transmite energia à obra. Uma secção intermédia contrastante e cantabile reforça o lirismo da obra, que integra uma nova melodia, de cariz melancólico, e que leva a obra ao final.

 

Astor Piazzolla (1921 1992)
Adios Nonino

Composição: 1959
Duração: c. 7 min.

Adios Nonino é uma obra emblemática de Piazzolla. Baseada no tango Nonino, foi escrita em 1959, durante um dos períodos mais negros da vida do compositor. Pouco antes, Piazzolla tinha abandonado a Argentina e regressado a Nova Iorque. Nessa época, tentou desenvolver uma carreira que ligava o tango à improvisação do jazz. Numa digressão a Porto Rico, recebeu a notícia da morte do pai. Foi num contexto quase improvisatório que se desenrolou a escrita de Adios Nonino, uma melodia que perdurou no tempo. Uma introdução percussiva e ritmicamente obstinada antecipa um dos momentos mais líricos da música da segunda metade do século XX. A longa melodia, apresentada sobre um fundo de cordas, evoca a nostalgia de infância, encarnando uma despedida sentida. Uma secção mais cinética é interpolada nesse ambiente, que retorna no final, trazendo a melodia de volta, agora intensificada pela repetição.

 

Astor Piazzolla (1921 1992)
Oblivion

Composição: 1984
Duração: c. 5 min.

Oblivion é um tango lento que domina a banda sonora que Piazzolla escreveu para Henrique IV, filme de 1984 realizado por Marco Bellocchio e protagonizado por Marcello Mastroianni. Essa década marcou o regresso de Piazzolla ao circuito internacional de apresentações, após um período de relativo esquecimento. Assim, a sua fama foi promovida pelo cinema, que recorreu à sua música em filmes que receberam muitos prémios. Oblivion é uma miniatura lenta cuja melodia sinuosa é complementada pelos contracantos da orquestra, revelando a escola neorromântica cultivada por Piazzolla.

 

Alberto Ginastera (1916 1983)
Danzas de Estancia, op. 8a
Los trabajadores agricolas
Danza del trigo
Danza final: Malambo

Composição: 1941
Estreia: Buenos Aires, 12 de maio de 1943
Duração: c. 13 min.

Se Piazzolla encarna a renovação e legitimação da música urbana de Buenos Aires, processo que criou tensões entre respeitabilidade e autenticidade, o jovem Ginastera cultivou a música tradicional argentina. Assim, as pampas e os gaúchos inspiraram a escrita de obras que colocavam o substrato nacional da Argentina nas pampas. O bailado Estancia encarna essa síntese de nacionalismo e folclorismo. Baseado no poema oitocentista Martín Fierro, de José Hernández, Estancia recorre a formas poéticas associadas à tradição popular improvisada.

Inspirada na vida quotidiana dos gaúchos argentinos, a obra resultou de uma encomenda da companhia americana Ballet Caravan. Contudo, esta foi dissolvida antes da apresentação do bailado. Assim, parte da sua música foi estreada em Buenos Aires a 12 de maio de 1943, no formato da suite que iremos ouvir. Os protagonistas dessa apresentação foram a Orquestra do Teatro Colón e o maestro Ferruccio Calusio, que contribuíram para a projeção da carreira de Ginastera. A suite tem início com “Os trabalhadores agrícolas”, uma passagem dominada pelos ostinati dos sopros e da percussão. Uma dança sincopada que estiliza o malambo encarna a energia das estancias argentinas num contexto de fanfarra cujo material sonoro se repete e sobrepõe periodicamente. O malambo é uma dança exclusivamente masculina na qual os gaúchos exibem as suas capacidades, concorrendo entre si.

Uma textura de canção tradicional emerge em “Dança do trigo,” em que uma nota sustentada antecipa uma longa melodia sinuosa apresentada pela flauta. A secção intermédia integra jogos de pergunta-resposta entre os naipes. O violino solista retoma a melodia principal, conduzindo ao final do andamento.

A solenidade pontifica na secção seguinte, “Os trabalhadores da fazenda.” Nela, a assimetria rítmica e os ostinati são protagonizados pelos instrumentos de bocal e pela percussão, encarnando a vivacidade da cultura das pampas.

O andamento final é um malambo. Os sapateados da dança encarnam o espírito de masculinidade associado ao equivalente argentino dos cowboys e são representados magistralmente por Ginastera. No Malambo final, a percussividade emula os sons dos dançarinos num crescendo de emoção que leva o bailado ao término.

 

Astor Piazzolla (1921 1992)
Quatro canções (arr. Quito Gato)
Siempre se vuelve a Buenos Aires
Yo soy María
Balada para mi muerte
Balada para un loco

Composição: 1968-1982 (arr. Quito Gato, 2012)
Duração: c. 18 min.

O concerto termina com quatro tangos escritos por Piazzolla em parceria. Três resultaram da colaboração com Horacio Ferrer (1933-2014), uma das referências da renovação do género. Este uruguaio divulgou as novas tendências do tango a partir da rádio e da promoção de concertos. Tendo conhecido Piazzolla depois do regresso do compositor após o período de formação em Paris, encetou uma relação criativa que originou tangos como Yo soy Maria, Balada para un loco e Balada para mi muerte.

Yo soy Maria pertence à ópera María de Buenos Aires, estreada a 8 de maio de 1968. Baseada no universo narrativo e sonoro do tango, a obra envolve a dança, a paixão, a morte e a marginalidade em Buenos Aires. Yo soy María apresenta o personagem principal de forma assertiva e na primeira pessoa. María de Buenos Aires é uma mulher que canta e se prostitui na cidade. Assim, personifica os circuitos marginais em que o género era, inicialmente, apresentado. A sinuosidade da melodia sobre as acentuações do tango enfatiza a sensualidade da personagem.

O final da década de 60 marcou uma viragem na abordagem de Piazzolla e Ferrer, criando tangos de temática social. Em 1969, escreveram Balada para un loco e Balada para mi muerte, estreados pela cantora Amelita Baltar (n. 1940). O primeiro exemplo é marcado pela alternância entre os registos declamado e cantado, sobre a marcação rítmica do tango. Um acompanhamento vertical acentua a clareza do texto, cujo lirismo se centra na contemplação de um louco que interpela o sujeito poético nas suas deambulações por Buenos Aires. O texto de Balada para mi muerte aborda a morte do sujeito poético. A atmosfera trágica e escura reforça uma espécie de profecia em que se misturam elementos da capital argentina. O sujeito poético espera, pacientemente, pela morte que sabe que virá às seis da madrugada, por entre tangos e whisky.

Siempre se vuelve a Buenos Aires é um tango escrito em parceria com a cantora, letrista e compositora Eladia Blázquez (1931-2005). Nele, assoma a nostalgia muito própria do tango, que evoca a identidade local numa espécie de ritual de eterno retorno, assombrado pelo tango, a uma cidade da qual nunca se chega a partir.

Notas de João Silva


GUIA DE AUDIÇÃO

 

Por Sérgio Azevedo

No Guia de Audição desta semana, Sérgio Azevedo fala-nos das três obras que serão apresentadas pela Orquestra Gulbenkian, a soprano Mariana Flores e o bandoneonista Lysandre Donoso, sob a direção de Leonardo García Alarcón.


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