Encontros Internacionais Where I (we) Stand

«Where I (we) Stand» reunirá, nos dias 22 e 23 de novembro, um conjunto de autores, artistas e ativistas, em torno das questões da descolonização da história, dos corpos e das narrativas, mas igualmente da própria estrutura do Museu, enquanto lugar de representação e produtor de conhecimento.

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O Museu Gulbenkian desenvolveu ao longo de 2019, no Espaço Projeto da Coleção Moderna, um ciclo de programação dedicado a artistas contemporâneos, nacionais e internacionais, que nas suas obras interrogam e problematizam o passado colonial e o seu legado no presente – um presente ainda por descolonizar, convocando a história, a memória, a experiência da diáspora, propondo narrativas alternativas e dando voz (e imagens) a outros protagonistas. Yto Barrada, Filipa César, Irineu Destourelles (em exposição até 6 de janeiro) são os artistas que desenvolveram projetos realizados especificamente para o espaço. Associada a esta programação e às novas políticas de aquisição de obras da Coleção Moderna, o Museu realizará em novembro os Encontros Where I (we) Stand que terão lugar na Sala Polivalente, junto ao Espaço Projeto. A conceção dos Encontros foi realizada em colaboração com as associações e coletivos Djass, Femafro, Inmune e Padema, com a plataforma Buala e com a investigadora Filipa Lowndes Vicente.

Com o título Where I (we) Stand, os Encontros convocam os lugares da história colonial, com enfoque no passado colonial português, ao mesmo tempo que se ancora no presente para pensar os lugares a partir dos quais defendemos a construção de outras narrativas e ampliamos as possibilidades para outras «imaginações». Nesse sentido, é também o lugar de um posicionamento ativo em relação a estas questões. Quisemos que os Encontros tivessem um enfoque nos feminismos negros que, pelo pensamento e estrutura intersecionais, se cruzam com as problemáticas do colonialismo, da descolonização e do racismo, mas igualmente com as questões de género e de classe. Estas vozes são, há muito tempo, sujeitas a uma dupla invisibilização.

Os Encontros contam com as participações de Ângela Ferreira, Denise Ferreira da Silva, Flávio Almada, Irineu Destourelles, Laura Hampden, Marta Lança, Melissa Rodrigues, Museum Detox, Raquel Lima, Rita Fabiana, Vânia Gala e das entidades e Associações Moinho da Juventude, Djass, Femafro, Inmune e Padema.

 


PARTICIPANTES

Ângela Ferreira nasceu em 1958 em Maputo, Moçambique. Concluiu os estudos de Artes Plásticas na África do Sul, obtendo o grau de mestre na Michaelis School of Fine Art, University of Cape Town. Atualmente, vive e trabalha em Lisboa, leciona na Faculdade de Belas-Artes, onde obteve o doutoramento em 2016. O trabalho de Ângela Ferreira desenvolve-se em torno do impacto do colonialismo e do pós-colonialismo na sociedade contemporânea. Estas investigações são guiadas por uma pesquisa profunda e pelo filtrar de ideias que conduzem a formas concisas, depuradas e evocativas. Representou Portugal na 52.ª Bienal de Veneza em 2007.

A Associação Cultural Moinho da Juventude é uma organização sem fins lucrativos, situada no bairro Cova da Moura. Fundada por um grupo de moradores, o Moinho existe desde 1984, consagrando-se, entre muitas outras coisas, pelos seus diversos projetos na área da formação e de apoio a crianças e jovens do bairro. Além do projeto comunitário, o seu principal objetivo é ajudar pessoas com dificuldades de integração no bairro, fornecendo serviços que vão desde o acompanhamento aos pais na educação e nos cuidados a ter com os seus filhos, a atividades de tempos livres, formação profissional, apoio social e atividades culturais.

O trabalho de investigação e a prática artística de Denise Ferreira da Silva convoca as questões do presente global e elege a dimensão metafísica e paraepistemológica do pensamento moderno. É professora e diretora do The Social Justice Institute (GRSJ) na University of British Columbia. Os seus trabalhos no campo artístico incluem textos para publicações nas Bienais de Liverpool, São Paulo, Veneza, e na Documenta 14, assim como colaborações com Arjuna Neuman nos filmes Serpent Rain (2016) e 4Waters-Deep Implicancy (2018), sessões públicas (performances, conversas e sessões privadas), e textos associados aos Poethical Readings e the Sensing Salon, com Valentina Desideri.

A Djass – Associação de Afrodescendentes é uma organização sem fins lucrativos, constituída em 2016. Tem como objetivos principais o combate e a denúncia de todas as formas de racismo e discriminação contra negras/os e afrodescendentes em Portugal; a promoção de uma reflexão crítica e abrangente sobre as relações interétnicas em Portugal, de forma a contribuir para a transformação social e para a afirmação positiva das/os negras/os e afrodescendentes enquanto membros de pleno direito da sociedade portuguesa; o combate e a desconstrução da visão eurocêntrica da História, reivindicando o contributo das/os africanas/os na construção do conhecimento, da cultura e da História; a organização de iniciativas de divulgação e de valorização das identidades e culturas negras e africanas. Desde a sua génese, a Djass sempre trabalhou, a nível nacional, em articulação e parceria com outras associações e grupos ativistas.

A FEMAFRO é uma associação sem fins lucrativos constituída no ano de 2016, conduzida por mulheres e jovens, que define a sua atuação a partir da defesa e promoção de direitos das mulheres negras, africanas e afro descendentes em Portugal. Procura a eliminação de todas as formas de discriminação étnico-racial e de género, com base nos princípios éticos da igualdade, justiça social e laboral, promoção da qualidade de vida e respeito dos direitos humanos. É autónoma e independente e reúne mulheres de todos os quadrantes sociais com atuação nas áreas de educação, cultura, saúde, promoção e defesa dos direitos humanos.

 

Artista interdisciplinar e escritora, Grada Kilomba (Lisboa, 1968) vive e trabalha em Berlim, onde tem desenvolvido uma obra que cruza a literatura, o teatro, a música, a performance e a instalação. A colonização e o seu legado – memória, trauma, raça e género –, a descolonização e a diáspora africana são temas centrais do seu trabalho, que analisa criticamente os sistemas de produção de conhecimento através da formulação de três questões fundadoras: «Quem pode falar?»; «O que podemos falar?» e «O que acontece quando falamos?».

O INSTITUTO DA MULHER NEGRA EM PORTUGAL – INMUNE é uma entidade feminista interseccional e antirracista constituída por mulheres, de direito privado, sem fins lucrativos, solidário, apartidário, mas não apolítico, que combate o silenciamento das mulheres negras, africanas e afrodescendentes na História e no tempo presente. Promove o empoderamento, a participação social e política de mulheres, a igualdade de direitos, a paridade e a justiça social. Fomenta, através das suas atividades e reflexões, um ambiente propício à afirmação e valorização da herança e da cultura negra e africana em Portugal.

Irineu Destourelles expõe atualmente no Espaço Projeto da Coleção Moderna (Museu Calouste Gulbenkian) o seu mais recente trabalho, intitulado Subtitulizar/Subtitling. O seu trabalho integrou exposições na Casa África (Las Palmas), Videobrasil (Sesc Pompeia, São Paulo), Fondazione Giorgio Cini (Veneza), Transmission (Glasgow), Mama Showroom (Roterdão) e foi projetado no ICA (Londres), Transmediale (Berlim), Hangar Bicocca (Milão) e Espaço Transversal da ArtRio 2017, entre outros. Atualmente vive e trabalha entre Edimburgo e Londres. Irineu Destourelles estudou na Willem de Kooning Akademie (Roterdão) e na Central Saint Martin’s College of Art and Design (Londres).

Laura Hampden é líder em desenvolvimento no comité executivo da rede Museum Detox. Com formação em arqueologia, trabalha presentemente no GLAAS, que se dedica à consultoria arqueológica de projetos de urbanização e construção na Grande Londres. Enquanto presidente da rede para a igualdade racial da Inglaterra histórica (Historic England’s Racial Equality Network), e através do seu trabalho com o Museum Detox, Laura procura estimular o investimento das organizações do setor do património em redes para a promoção da igualdade nas equipas de trabalho. É através destas redes que será possível desenvolver uma abordagem representativa e intersecional para a igualdade, diversidade e inclusão no setor do património e da cultura.

Doutoranda em Estudos Artísticos na FCSH-UNL, onde estuda o debate pós-colonial nas artes em Portugal. Criou as publicações V-ludo e Dá Fala (em Cabo Verde) e, desde 2010, é editora do BUALA, portal de reflexão sobre questões do sul global. Em Luanda, entre 2005 e 2008, lecionou na Universidade Agostinho Neto, colaborou com a I Trienal de Luanda e com o Festival Internacional de Cinema, em Maputo, no Dockanema (2009). Organizou o programa Vozes do Sul para o Festival do Silêncio (2017); as conferências do projeto NAU! (Porto 2018); com Raquel Lima, o ciclo «Para nós, por nós», produção cultural africana e afrodiaspórica em debate (2018), entre outros. Traduziu dois livros do Achille Mbembe.

 

Com uma pós-graduação em Performance e uma licenciatura em Antropologia, Melissa Rodrigues integrou a Formação Intensiva Acompanhada (F.I.A.) em Artes Performativas pelo c.e.m. – centro em movimento. Trabalhou em projetos de arte na comunidade e educação pela arte, através de associações como MOVEA, e em escolas públicas no concelho da Amadora. Atualmente vive no Porto, é educadora no Serviço Educativo do Museu de Arte Contemporânea de Serralves; colabora com A Oficina – Educação e Mediação Cultural, em Guimarães, e está envolvida na criação do projeto pedagógico do ESPAÇO SP620 – Salut Au Monde! Performer, arte-educadora, membro do Núcleo Anti-Racista do Porto, em junho de 2019 integrou a equipa da RAMPA Porto, Associação Cultural.

raquellima (1983) é lisboeta das duas margens do Tejo e do Atlântico, de mãe angolana, pai santomense, avó paterna senegalesa e trisavó materna brasileira. Poeta, performer e arte-educadora, raquellima apresentou o seu trabalho em eventos de literatura, narração oral, poetry slamspokenwordperformance e música, nomeadamente na FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty, no FLUP Rio – Festival Literário das Periferias, no FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, entre outros. A transdisciplinaridade com que aborda a arte, a memória e a sociedade, atenta às desigualdades sociais e aliada a uma vontade de encontrar e compreender as suas raízes, levou-a a regressar à academia, onde desenvolve a sua investigação focada em oratura e escravatura em São Tomé e Príncipe na Universidade de Coimbra.

Plataforma para o Desenvolvimento da Mulher Africana, Padema é uma Associação sem fins lucrativos, defensora dos valores culturais e identitários da mulher africana, nomeadamente de Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

Vânia Gala é uma coreógrafa e investigadora residente em Londres. Tem um bacharelato em Dança pela EDDC (European Dance Development Center, Arnhem) e um Mestrado em Coreografia com Distinção pelo Trinity Laban Conservatoire of Music and Dance (Londres). É doutoranda na Kingston School of Arts e bolseira da PASS (Kingston University). As suas coreografias e «performances conversacionais» exploram o potencial crítico do desaparecimento, (não)performance, opacidade e evasão em coreografia no tempo presente. Os seus trabalhos foram apresentados em Angola, Portugal, Noruega, Alemanha, Irlanda, Reino Unido, Áustria e na Federação Russa.

 


Programa

10:15   Apresentação

Por Penelope Curtis e Rita Fabiana  

10:30   Museum Detox: The Rise of the Resistance. Empowering Black women in the heritage sector.

Museum Detox é uma rede dirigida por voluntários que se desenvolveu como resposta à falta de representatividade e de apoio aos profissionais «BAME» (negros, asiáticos e minorias étnicas) em museus e no setor mais alargado do património e da cultura. É uma rede coletiva de ativistas que têm por objetivo apoiarem-se uns aos outros de forma a desafiar as desigualdades de poder estruturais e de origem colonial, inerentes ao setor. Este artigo irá apresentar a formação de redes tais como a Museum Detox enquanto estratégia de resistência de mulheres negras no setor do património e como veículo através do qual se pode influenciar uma mudança significativa. Por Laura Hampden  

11:15   Pausa para café

 

11:35   Mesa para Práticas de Cabeça para Baixo ou de Pernas para o Ar

Esta apresentação assume a forma de uma performance conversacional, a partir de uma mesa redonda com os participantes. Partindo da ideia de posicionamento enquanto ato performativo ou, mais mundanamente, enquanto posição assumida em, com ou dentro de corpos negros, iremos enquadrar perguntas e especular em conjunto sobre posicionamentos específicos. Ao abordar a performance a partir deste ponto de vista, pretendo criar uma abertura e partilhar performances, conhecimentos e mesmo conceitos alternativos que são frequentemente «menorizados» (E. Glissant, 1997) ou ignorados. Além disso, uma tal abordagem pode revelar-se produtiva nas trocas de performances generativas que se manifestam em práticas opacas e frequentemente indecifráveis ou de enunciações específicas que podem constituir um convite para outras possíveis futuridades coletivas. Por Vânia Gala  

12:40   Conversa com Laura Hampden e Vânia Gala

Moderadora Marta Lança  

13:15   Almoço

 

14:45    «Nas Nossas Lentes: Agora somos nós a fazer as perguntas»

Com o intuito de dar resposta a ausência habitacional, ocorrida antes e depois do 25 de Abril, período no qual houve uma enorme pressão demográfica na Grande Lisboa, surgiu a Cova da Moura, como sumo da sinergia «Djunta Mô» entre os seus próprios habitantes. Ao longo dos anos, a Cova da Moura tem sido um dos espaços desfigurados no imaginário social deste país. Em forma de contrapor a narrativa dominante, «Nas Nossas Lentes: Agora somos nós a fazer as perguntas» é fruto de um trabalho de estimulação crítica, desenvolvido pelos jovens de 13 aos 17 anos, residentes da Cova da Moura, cujo paradigma interpretativo privilegia as narrativas locais destes jovens. Por Associação Cultural Moinho da Juventude Moderador Flávio Almada (coordenador da Associação Cultural Moinho da Juventude)  

15:45   Pausa para Café

 

16:15   Livro e audiolivro «Ingenuidade Inocência Ignorância» de raquellima

Este livro reúne 24 poemas selecionados de uma década de escrita irregular. Juntos fecham um capítulo a que a artista chamou «Ingenuidade Inocência Ignorância», três palavras que se confundem, com significados ambíguos e contraditórios. São essas inevitáveis ambiguidades e contradições humanas que compõem este livro, assumido como um espaço de vulnerabilidade que reflete uma identidade em construção, e no qual as palavras tanto podem ser lidas pelo seu desgaste e esvaziamento de sentido, como pelo reconhecimento de serem a única via possível de luta e paz. E porque os nossos corpos transportam histórias, culturas e saberes, memórias que ganham dimensão pela performance, este é também um audiolivro. Apresentação por Marta Lança e leitura de poemas por raquellima  

17:10   Irineu Destourelles conversa com Ângela Ferreira

  Tradução simultânea Inglês-Português e Português -Inglês  

10:30   Boas vindas

 

10:50   Apresentação

Por Rita Fabiana  

11:00   «O Desafio Racial e a Justiça»

Nesta intervenção, Denise Ferreira da Silva analisa de que forma a dominação colonial e a subjugação racial põem em questão aquilo que fundamenta a ideia/o ideal de justiça. Visando principalmente levantar questões, esta intervenção procura acentuar o que há de comum entre as várias modalidades e situações de subjugação racial no presente global. Em vez de respostas, a análise identifica as linhas de reflexão que podem ajudar na formulação de um discurso e de um programa político que abarque a questão que a submissão racial impõe à justiça.
Por Denise Ferreira da Silva  

11:45   Projeção do vídeo «Illusions III. Antigona», 2019

Grada Kilomba dedica a sua nova instalação às políticas da justiça e ao simbolismo do enterro digno. Antigona é a história de uma mulher que desafia o patriarcado ao enterrar um irmão a quem tinha sido negado o direito a uma sepultura. É também a história do seu assassinato por desobediência ao rei e pela prática de rituais em honra dos mortos. E se a nossa história estiver assombrada pela violência cíclica, precisamente porque nunca foi contada nem enterrada de forma digna? Aos olhos da artista, Antigona sente a necessidade de enterrar o seu irmão de forma digna, porque precisa de produzir memória. Apenas através do enterro e dos rituais associados pode a sua história ser recordada, não esquecida. Instalação multicanal, som, 54’ 35”, em loop. Encomendada por Bildmuseet, Umeå, Suécia e Maxim Gorki Theatre, Berlim, Alemanha. De Grada Kilomba  

12:30   Conversa com Denise Ferreira da Silva

Moderadora Raquel Lima  

13:00   Almoço

 

14:45    Mesa redonda: Arte, Cultura e Feminismo Negro

Associações Djass (Evalina Dias), Femafro (Lucia Furtado), Inmune (Angella Graça) e Padema (Luzia Moniz). Moderadora Denise Ferreira da Silva  

16:00   Performance-conferência. «De submisso a político — o lugar do corpo negro na cultura visual»

Na publicidade, na televisão, no cinema, na pintura, na fotografia, nos livros que temos nas nossas prateleiras, quantos homens e mulheres negros e negras estão lá representados? Como são representados? Pesquiso no Google por «imagem e representação do corpo negro na cultura visual», a par de imagens do corpo negro escravizado, sexualizado, fetichizado, submisso e selvagem, encontro novas narrativas visuais e estéticas, novos discursos de quem se posiciona a partir «da barriga da besta» para desconstruir e criar outras representações sobre si mesmo, sobre o seu corpo negro. É este o lugar onde me encontro. Por Melissa Rodrigues

 

17:00    Encerramento