Così fan tutte

Coro e Orquestra Gulbenkian / Nuno Coelho

Slider de Eventos

Na terceira das três extraordinárias colaborações entre o génio de Mozart e a criativa escrita para palco de Lorenzo da Ponte, Così fan tutte, ópera bufa em dois atos, tem lugar um drama jocoso que muitos consideram ser uma das mais inspiradas e elevadas obras de entretenimento e provocação do repertório operático. Apesar de não ter gozado de uma receção muito entusiástica na estreia, esta sátira das relações entre homens e mulheres tornar-se-ia extremamente popular a partir de meados do séc. XX. A natureza espirituosa do libreto inspirou Mozart a compor para este alguma da sua música mais efusiva e com maior fulgor narrativo.


VÍDEO

 


Programa

Coro Gulbenkian
Orquestra Gulbenkian
Nuno Coelho Maestro
Marcos Fink Ação cénica
Valentina Naforniţa Soprano (Fiordiligi)
Sunhae Im Soprano (Despina)
Natalie Pérez Meio-Soprano (Dorabella)
Ilker Arcayürek Tenor (Ferrando)
Samuel Hasselhorn Barítono (Guglielmo)
Marcos Fink Baixo (Don Alfonso)

Rita Castro Blanco Maestrina assistente
Bárbara Magalhães
Assistente de Guarda-Roupa
Ricardo Junceiro Adereços
Joana Cornelsen / Siça Souza Maquilhagem e Cabelos
Joana David Pianista correpetidora
João Cachulo Desenho de luz

Wolfgang Amadeus Mozart (1756 – 1791)
Così fan tutte, K. 558
Ópera em dois atos

Libreto de Lorenzo Da Ponte
Composição: 1789/90
Estreia: Viena, 26 de janeiro de 1790
Duração: c. 3 horas

Così fan tutte tem dividido gostos e opiniões ao longo dos tempos, não pela música, unanimemente considerada genial, mas pelo libreto, visto por vezes como imoral, cínico, incompreendido.

As origens da sua composição não são inteiramente claras. O libreto de Lorenzo Da Ponte (1749-1838), autor também de Le nozze di Figaro e de Don Giovanni, terá passado primeiramente pelas mãos de Antonio Salieri, que o abandonou após escrever apenas alguns números de conjunto. Mozart, embora já muito respeitado como compositor de ópera, passava por uma crise financeira e precisava urgentemente de encomendas. A oportunidade de colaborar uma vez mais com Da Ponte num género musical que lhe era tão caro, aliada à necessidade de dinheiro, revelou-se imperdível.

Há poucas referências escritas ao processo de construção de Così fan tutte, mas Mozart, numa carta, menciona a pressão para terminar a partitura. No último dia do ano de 1789, às dez da manhã, convidou dois amigos para assistir a um primeiro ensaio musical da obra: Franz Joseph Haydn, cuja opinião muito valorizava, e Michael Puchberg, abastado comerciante vienense que lhe dava apoio financeiro com alguma regularidade.

A ópera estreou no dia 26 de janeiro de 1790 no Burgtheater em Viena. Foi bem recebida pelo público, apesar das “cabalas” de Salieri (segundo Mozart). No entanto, após cinco récitas, foi cancelada devido ao falecimento do imperador José II. A súbita interrupção para cumprimento do luto institucional arruinou o momento de sucesso inicial que não mais viria a ser recuperado, apesar das reposições realizadas alguns meses mais tarde.

O libreto de Da Ponte foi criticado logo desde o início, visto como grosseiro e inferior, pela sexualidade quase explícita, com seduções rápidas e bizarros disfarces, e os acontecimentos a sucederem-se num espaço temporal inverosímil. Franz Xaver Niemetschek, primeiro biógrafo de Mozart, estabeleceu uma fenda irreparável entre o génio musical do compositor e a aparente frivolidade do texto, veredicto que inaugurou uma corrente de desconfiança em relação à ópera que viria a perdurar ao longo de todo o século XIX. E se inicialmente era a imoralidade das duas mulheres que juravam fidelidade aos seus noivos, mas facilmente na sua ausência viravam as suas atenções para dois pretendentes estrangeiros, mais tarde foi uma alegada misoginia presente na história e no título (“assim fazem todas”) que perturbou críticos, académicos e audiências.

Com o intuito de reabilitar Così fan tutte, fizeram-se tentativas falhadas de ignorar, modificar ou substituir o texto, de modo a torná-lo mais compreensível, e a ópera mais digna. Mas apenas no final do século XIX, com a restauração da sua forma original, e a partir de 1910, com um revivalismo em larga escala levado a cabo por Richard Strauss, começou de facto a ser respeitada. Em 1967 surge a primeira gravação completa, e Così fan tutte afirma-se como obra essencial do repertório operático.

O libreto é espirituoso e cínico. O subtítulo – “a escola dos amantes” – é talvez mais ilustrativo do que trata realmente a ópera: uma comédia artificial onde as personagens aprendem lições morais, são levadas a tomar consciência das suas emoções e insensatez e no final celebram a importância da razão. Mas independentemente de quaisquer considerações sobre o libreto, foi a música que a tornou famosa e popular.

Così fan tutte está estruturada em dois atos e as suas personagens são arquétipos da opera buffa: os aristocratas, o filósofo, a criada experimentada nos assuntos do amor e da vida. A ação é situada em Nápoles, centro do iluminismo italiano, e Don Alfonso (o filósofo) personifica a era da razão. Há uma alternância contínua entre farsa e seriedade, entre ópera bufa e ópera séria.

Os recitativos são o grande motor da trama, exprimindo sentimentos, transmitindo ideias, retratando personagens e articulando conclusões. Mas os ensembles são os números que mais se destacam na ópera, usados para realçar ou resolver os conflitos dramáticos. A orquestração é variada, com mudanças constantes de cor e harmonias subtis. Mozart explora instrumentos como a viola de arco, o clarinete e também o trompete em papéis proeminentes. A Abertura apresenta o oboé, que será associado ao cinismo de Don Alfonso. No presto cria uma atmosfera de bom humor e exuberância que torna a audiência recetiva à vertente humorística da história que se segue.

A forma como Mozart põe em música as palavras e as intenções das personagens de Da Ponte é elegante e apurada, muitas vezes irónica e nas palavras de Alfred Einstein, “iridescente, como uma gloriosa bola de sabão”. As árias, os duetos e os números de conjunto constituem uma verdadeira antologia do canto e das diferentes personalidades, desde a afirmativa e dramática Come scoglio (Fiordiligi) com os seus intervalos impossíveis e coloratura de duas oitavas, ao lirismo italiano e refinado de Un’aura amorosa (Ferrando). O trio Soave sia il vento, adeus das jovens mulheres aos seus amantes, faz contrastar as linhas apaixonadas das vozes femininas com as frases mais angulosas, cromáticas e curtas de Don Alfonso, reveladoras do seu ceticismo. As árias de Despina são mais silábicas do que melódicas e a quase ausência de solos de Don Alfonso, personagem central e motor do enredo, acentua o caráter enigmático das suas motivações e personalidade.

Este dramma giocoso termina, como não podia deixar de ser, com um tutti defendendo a moral da história: feliz aquele que vê as coisas pelo lado certo e que se guia pela razão.

Notas de Susana Duarte


Guia de Audição


  • Por Jorge Rodrigues

  • Por Jorge Rodrigues

Mecenas Principal Gulbenkian Música

Definição de Cookies

Definição de Cookies

A Fundação Calouste Gulbenkian usa cookies para melhorar a sua experiência de navegação, a segurança e o desempenho do website. A Fundação pode também utilizar cookies para partilha de informação em redes sociais e para apresentar mensagens e anúncios publicitários, à medida dos seus interesses, tanto na nossa página como noutras.