Concerto comentado com Lorenzo Viotti

Coro e Orquestra Gulbenkian

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Da ópera à música sinfónica e à música coral, o maestro Lorenzo Viotti tem demonstrado a abrangência do seu fôlego artístico, um elemento essencial para o exercício da liderança musical na Gulbenkian Música. O concerto começa com a mais popular abertura operática de Rossini, prossegue com a inspiração sinfónica de Schubert e termina com uma raridade coral da juventude de Brahms: a breve Missa canonica, uma esquecida obra a cappella que foi resgatada já no século XX. Bons motivos que estreitam laços musicais que perduram.


Programa

Coro Gulbenkian
Orquestra Gulbenkian

Lorenzo Viotti Maestro

Gioachino Rossini (1792 1868)
Abertura da ópera La gazza ladra

Composição: 1817
Estreia: Milão, 31 de maio de 1817
Duração: c. 10 min.

Gioacchino Rossini foi um dos mais destacados compositores de ópera do seu tempo. De tal forma que muitas das suas aberturas ainda são tocadas fora do contexto teatral e pelos mais variados agrupamentos. La gazza ladra (“A pega ladra”) é uma ópera composta em 1817 que se baseia numa história de enganos. Com o desaparecimento de algumas peças de prata de uma família rica, a culpa recai em Ninetta, uma das criadas, que é julgada e condenada à morte por roubo. Após várias peripécias, a prata que faltava é descoberta no ninho de uma pega, um pássaro fascinado por objetos brilhantes, o que salva Ninetta. A abertura da ópera é introduzida por uma marcha marcada pela percussão. Uma contextualização da ação, uma vez que alguns personagens são militares. Os temas são melodias movimentadas e graciosas, bem ao estilo da ópera italiana, com alguns instrumentos a apresentarem as melodias a solo.

João Silva

 

Franz Schubert (1797 1828)
Sinfonia n.º 6, em Dó maior, D. 589
Adagio – Allegro
Andante
Scherzo: Presto – Più lento
Allegro moderato

Composição: 1817-1818
Estreia: Viena, 14 de dezembro de 1828
Duração: c. 30 min.

Num gesto sintomático da mudança dos procedimentos composicionais em pleno despontar da era romântica, Franz Schubert trouxe à sua 6.ª Sinfonia, em Dó maior, um sumptuoso Scherzo, contrariando, desta forma, as tendências classicistas, aliás já postas em causa pelo jovem Ludwig van Beethoven, a partir da sua 2.ª Sinfonia (1802). A 6.ª Sinfonia de Schubert foi concluída em fevereiro de 1818 e é a primeira em que o compositor faz uso daquele designativo de inspiração beethoveniana. A linguagem musical da obra aponta, igualmente, para um horizonte de mudança: o compositor procura, a todo o momento, afirmar um estilo pessoal, ainda que os temas e respetivas sequências harmónicas revelem, muitas vezes, uma inegável parecença com a música italiana e, em particular, com as obras de Rossini, as quais tinham, entretanto, conquistado o gosto do público vienense.

O primeiro andamento inicia-se com um imponente Adagio de trinta compassos, caracterizado por sucessões de acordes ascendentes e descendentes e pela intervenção, em jeito de comentário, dos instrumentos de sopro. O primeiro tema do Allegro é de cariz alegre e extrovertido, parecendo provir diretamente do universo da ópera buffa. O segundo tema é entoado pelas flautas e pelos clarinetes. No desenvolvimento, Schubert procura explorar algumas modulações que transportam o ouvinte para recantos tonais mais obscuros, mas, na essência, permanece inalterado o espírito de profunda alegria.

O segundo andamento, Andante, possui apenas um tema de contornos simples, introduzido pelas cordas e depois retomado pela flauta e pelo clarinete na tonalidade de Fá maior. A orquestração de Schubert visa, sobretudo, o trabalho contrapontístico de pormenor, marcado por um clima geral de serenidade e contemplação.

O já mencionado Scherzo é um exemplo cimeiro da inventividade melódica de Schubert. O primeiro tema, vivo e ritmado, distribui-se parcimoniosamente por toda a textura orquestral e parece lançar um olhar vagamente saudoso aos minuetes setecentistas que o compositor copiara afincadamente quando fora aluno do Colégio Imperial de Viena. Um segundo tema, nos sopros, apresenta um caráter mais vigoroso e determinado. O Trio, em Mi maior, é pontuado por pesados acordes da orquestra, antes de regressar à textura o Presto inicial, numa versão condensada.

Para a conclusão da sinfonia, Schubert reservou alguns momentos de exaltação, típicos da música italiana. Após a introdução do jovial primeiro tema, vêm animar a textura diversos elementos melódicos que fazem lembrar a sucessão contrastante das coplas numa forma clássica de rondó. Fica aqui patente o ensejo de elevar a sinfonia a um patamar formal ainda não explorado e que, de resto, viria a conhecer plena consumação na Sinfonia n.º 9, em Dó maior, dita “A Grande”.

Rui Cabral Lopes

 

Johannes Brahms (1833 1897)
Missa Canonica, WoO18
Kyrie
Sanctus
Benedictus
Agnus Dei

Composição: 1856-1857
Duração: c. 15 min.

Como forma de exercício composicional fundado no estudo do contraponto renascentista, em 1856 o então jovem Brahms compôs o essencial de uma Missa em Dó maior, a qual viria, no entanto, a deixar incompleta, não tendo nenhum autógrafo original sobrevivido. Não obstante, durante a composição da obra, Brahms trocou correspondência e enviou partes da composição aos seus amigos Clara Schumann (1819-1896), Joseph Joaquim (1831-1907) e Julius Otto Grimm (1827-1903) para comentário. Seria graças a uma cópia das partes recebidas por Grimm que a obra ressurgiria em 1978, o que possibilitou a sua revisão e publicação em 1984 como missa brevis, portanto não incluindo Gloria e Credo. Quanto a Brahms, viria mais tarde, no seu percurso composicional, a realizar autocitações de material musical do Benedictus e do Aguns Dei no motete Warum ist das Licht gegeben dem Mühseligen, op. 74 n.º 1, uma obra a cappella de 1877, surgida já no período de maturidade do compositor. Não obstante ter sobrevivido em estado fragmentário, a Missa canonica é um testemunho do talento e da arte composicional de Brahms, do seu hábil tratamento das vozes combinadas e do seu respeito e interesse pelas grandes obras e pelos mestres do Renascimento tardio e do Barroco.

Miguel Martins Ribeiro


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