Behzod Abduraimov

Quadros de Uma Exposição

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Desde que venceu o Concurso Internacional de Piano de Londres, em 2009, o pianista uzbeque Behzod Abduraimov conquistou por mérito próprio um lugar destacado entre os mais prodigiosos músicos da sua geração. Sobre a interpretação de Quadros de Uma Exposição, de Mussorgsky, escreveu a revista Crescendo que “Behzod Abduraimov pinta estes quadros como diferentes elementos de um fresco fascinante, cujos timbres, cores, disciplina e impulsos rítmicos servem esta partitura magistral com indesmentível maturidade”. Para além da técnica soberba, Abduraimov dispõe ainda uma extrema sensibilidade, desvendando novos mundos em cada interpretação.


Programa

Behzod Abduraimov Piano

Franz Liszt (1811 – 1886)
Bénédiction de Dieu dans la Solitude, S173/3

Composição: 1847
Duração: c. 18 min.

A relação entre música e literatura encarnou uma forma muito particular na obra de Franz Liszt. Frequentador dos salões artísticos parisienses, um grande número de obras de sua autoria remete para a produção literária romântica. Bénédiction de Dieu dans la Solitude partilha o título com um poema de Alphonse de Lamartine, pertencente ao livro Harmonies poétiques et religieuses. O texto aborda a solidão como potenciadora da introspeção, um aspeto valorizado no Romantismo. O ciclo para piano homónimo foi iniciado na década de 30 e Liszt escreveu a segunda versão das Harmonies poétiques et religieuses entre 1847 e 1853, enquanto foi abandonando a carreira de virtuoso itinerante para se dedicar à composição.

Bénédiction de Dieu dans la Solitude começa com uma figuração ondulante em que melodias emergem e submergem. O material é gradualmente transformado e atravessa diversas tonalidades. Os arpejos em legato e em constante transformação representam um elemento líquido, possivelmente o Oceano referido por Lamartine no poema. A solenidade e a placidez pontificam na secção inicial, interrompida por uma pausa dramática. A textura esparsa e vertical da secção seguinte e a repetição de motivos criam um ambiente estático. Figuras descendentes são apresentadas de forma progressivamente mais densa e reforçada pelo registo grave do piano. Uma interrupção quebra a narrativa e prepara uma secção que evoca a textura de noturno, em que uma melodia cantabile é acompanhada por arpejos. A longa linha melódica difere as resoluções, criando tensão e distensão sublinhada pelo contraste dinâmico. Bénédiction de Dieu dans la Solitude termina com o regresso da atmosfera inicial, submergindo as melodias na massa de água oceânica.

 

Sergei Rachmaninov (1873 – 1943)
Variações sobre um tema de Corelli, op. 42
Tema: Andante
Variação 1: Poco più mosso
Variação 2: L’istesso tempo
Variação 3: Tempo di minuetto
Variação 4: Andante
Variação 5: Allegro, ma non tanto
Variação 6: L’istesso tempo
Variação 7: Vivace
Variação 8: Adagio misterioso
Variação 9: Un poco più mosso
Variação 10: Allegro scherzando
Variação 11: Allegro vivace
Variação 12: L’istesso tempo
Variação 13: Agitato
Intermezzo
Variação 14: Andante, come prima
Variação 15: L’istesso tempo
Variação 16: Allegro vivace
Variação 17: Meno mosso
Variação 18: Allegro con brio
Variação 19: Più mosso – Agitato
Variação 20: Più mosso
Coda: Andante

Composição: 1931
Duração: c. 20 min.

A última obra de Sergei Rachmaninov para piano solo inspirou-se na música barroca, em particular na Sonata para Violino, em Ré menor, op. 5 n.º 12 de Arcangelo Corelli. Publicada em 1700, baseia-se na folia, uma dança ibérica renascentista em forma de variações abordada por diversos compositores. Assim, o tema das Variações de Rachmaninov não será de Corelli, mas a obra remete para a abordagem característica do Barroco. Dedicadas ao violinista Fritz Kreisler, foram compostas no verão de 1931 e estreadas por Rachmaninov em Montreal a 12 de outubro. Nessa época, o compositor já residia nos Estados Unidos da América há mais de uma década, apresentando-se regularmente em concerto (por vezes transmitidos pela rádio) e registando fonogramas. Após a apresentação do tema, Rachmaninov apresenta 20 variações, interpoladas por um intermezzo. A obra termina com uma breve coda que retoma o tema original depois de uma série de transformações melódicas, rítmicas e harmónicas.

As Variações sobre um tema de Corelli espelham os diversos mecanismos aos quais o virtuosismo tardo-romântico de Rachmaninov recorre. Episódios que remetem para a textura do noturno transformam a harmonia da folia, levando-a a territórios desconhecidos no Barroco. Episódios de atmosfera lúdica segmentam os materiais e alteram a articulação, contrastando com marchas e passagens solidamente ancoradas no virtuosismo brilhante do período romântico. A exploração da extensão do piano, os jogos de pergunta-resposta e a ênfase na expressividade marcam as Variações. Estilizações da toccata e de danças sociais barrocas coabitam com harmonias dissonantes e misteriosas intensificadas pelo cromatismo. O lirismo sobrepõe-se à escuridão, a verticalidade opõe-se ao contraponto, a variação contínua contrasta com a repetição. Texturas etéreas são contrapostas a passagens densas e pesadas, em que a harmonia é transformada gradualmente numa obra de grande fôlego, um verdadeiro catálogo de pianismo tardo-romântico que coroa Rachmaninov como enorme expoente da música para o instrumento.

 

Intervalo (15 min.)

 

Florence Price (1887 – 1953)
Fantasie nègre n.º 1, em Mi menor (1929)

Composição: 1929
Duração: c. 8 min.

O património musical dos negros dos Estados Unidos da América foi usado como substrato para a criação de música erudita a partir do final do século XIX. Nesse processo, os espirituais negros tornaram-se essenciais na afirmação de uma cultura erudita dos afrodescendentes americanos. As suas melodias, harmonizadas de forma particular, constituíram um manancial de elementos para os compositores basearem obras de caráter nacional. Com o Modernismo do período Entre-Guerras, em que o jazz se tornou um sinal de vanguarda e sofisticação, a vida musical americana foi transformada. O “Modernismo de Harlem” apresentou modelos artísticos associados à emergência do “Novo Negro,” que reclamou direitos fundamentais de cidadania e criou formas próprias de arte. Nesse contexto, a música de compositores negros integrou os programas das salas de concerto.

Florence Price encarna a sofisticação do Modernismo africano na América do Norte, sendo das primeiras compositoras negras a obter reconhecimento nacional. Para isso contribuiu a sua abordagem a património musical que abarca do espiritual ao ragtime. Price nasceu em Little Rock, a capital do Estado do Arkansas. Possivelmente para evitar a discriminação racial, a família Price fixou-se em Chicago em 1927. Nessa altura, a cidade era uma metrópole cultural com grande participação de americanos de origem africana. Price frequentou o Conservatório Americano de Música e o Chicago Musical College, onde se destacou.

O ano de 1929 marcou o início da escrita das Fantasias negras, obras para piano baseadas na música dos negros americanos. A Fantasie nègre n.º 1 baseia-se na melodia do espiritual Sinner, please don’t let this harvest pass e mistura técnicas do virtuosismo romântico com elementos modernistas. A fantasia tem início com uma cadência virtuosística, em que os timbres cristalinos do piano se destacam. Price introduz a melodia do espiritual, interpolando-a com figurações ondulantes. A harmonização diatónica do espiritual lança uma sucessão rapsódica de elementos sonoros, baseada no princípio da variação. Momentos cantabile evocam as igrejas negras americanas e a melodia sobrepõe-se a ostinati onde ressoam as práticas de improvisação associadas ao património musical dessas comunidades. O som da América estava a mudar.

 

Modest Mussorgsky (1839 – 1881)
Quadros de uma Exposição
Promenade
I. Gnomo
Promenade
II. O velho castelo
Promenade
III. Tulherias (Disputa de crianças depois de um jogo)
IV. Bydlo
Promenade
V. Bailado dos pintainhos nas suas cascas
VI. Samuel Goldenberg e Schmuÿle
VII. Limoges. O mercado
VIII. Catacombae (Sepulchrum romanum). Cum mortuis in lingua mortua
IX. A cabana sobre patas de galinha (Baba-Yaga)
X. A grande porta de Kiev

Composição: 1874
Duração: c. 30 min.

O pintor Viktor Hartmann inspirou uma obra única da História da Música. Falecido muito jovem em 1873, pintou e desenhou um imaginário baseado na tradição eslava. Apresentado pelo crítico Vladimir Stasov ao chamado Grupo dos Cinco, foi uma figura marcante nas artes russas. A exposição póstuma da sua obra em 1874 inspirou Quadros de uma Exposição, peça para piano escrita por Modest Mussorgsky para homenagear a memória de Hartmann. Contudo, muitos desses quadros foram perdidos.

Quadros de uma Exposição, escrita em 1874, tornou-se uma obra incontornável do repertório para piano. Então, o compositor atravessava um período de reconhecimento após o sucesso da ópera Boris Godunov. O uso colorístico da harmonia, do timbre e do ritmo situaram Mussorgsky como um precursor do Modernismo. A sucessão de miniaturas começa com Promenade, a estilização do passeio do visitante à exposição, cuja marcha é traduzida pela irregularidade métrica. Esse material será reapresentado, de forma transformada, entre alguns dos quadros que Mussorgsky tenta representar. Um ambiente misterioso caracteriza “Gnomo”, uma peça que explora as ressonâncias dos graves do piano e recorre ao cromatismo e às apojaturas como mecanismos de contraste. Uma melodia cantabile sobre acompanhamento regular com ritmo de siciliana representa “O velho castelo”, estilizando uma canção italiana que procura ilustrar o quadro de Hartmann. A textura leve e a atmosfera lúdica de “Tulherias (Disputa de crianças depois de um jogo)” traduzem jogos infantis que têm lugar nos jardins das Tulherias, contrastando com a marcha pesada de “Bydlo”. Aí, a música representa a aspereza e rusticidade de um camponês e da sua carroça. “Bailado dos pintainhos nas suas cascas” é uma peça tripartida inspirada nos figurinos que Hartmann desenhou para um bailado. As secções extremas, brilhantes, leves e cristalinas, contrastam com uma secção intermédia que recorre ao trilo como elemento expressivo. Mussorgsky contrasta dois judeus em “Samuel Goldenberg e Schmuÿle” (O Judeu Rico e o Homem Pobre). O primeiro caracteriza-se por melodias sinuosas e modais que remetem para a música das comunidades judaicas, em especial o papel do Cantor das sinagogas. O segundo, pela repetição de notas. Uma atmosfera de dança social que retrata o hedonismo despreocupado dos bailes permeia “Limoges, o mercado”, que tenta retratar o movimento e os sons associados a um mercado francês. “Catacombae (Sepulcrum romanum) Cum mortuis in lingua mortua” evocam as catacumbas de Paris com a sua verticalidade, estatismo e dissonância, um tremolo antecipa o regresso da melodia de Promenade. Uma dança ritual, baseada em ostinati, crescendi e apojaturas, de caráter misterioso e percussivo representa um relógio inspirado em “A cabana sobre patas de galinha (Baba-Yaga)”. Quadros de uma Exposição termina com “A Grande Porta de Kiev”, uma peça que recupera a melodia de Promenade, tornando-a mais solene através do aproveitamento da ressonância e da repetição de motivos que representam o toque dos sinos das igrejas ortodoxas da cidade. Uma atmosfera solene de inspiração religiosa é atravessada pela omnipresença do tema principal da obra, terminando numa atmosfera de placidez que poderá traduzir um lamento pelo desaparecimento de Hartmann.

Notas de João Silva


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