26 Maio 2020 Dar a volta

‘Estar desocupada é uma doença’

O Projeto Molde 50, com o apoio da Fundação Gulbenkian, promove a empregabilidade de mulheres particularmente afetadas pelo desemprego e violência doméstica. Com a Covid-19, reconverteu-se, devolvendo à comunidade o que dela tem recebido.

Zélia, Paula, Sandra e Marina com o material e o resultado do seu trabalho de voluntariado: máscaras feitas em casa para a comunidade © Márcia Lessa

“Bom dia vizinhas, sou da CAIS, aqui ao lado. Vinha saber se teriam uma máscara a mais…”. Era quarta-feira de manhã, dia em que as participantes no “novo” projeto Molde 50 se juntavam para entregar trabalho, trocar ideias e conviver um pouco, em tempo de pandemia.

A Covid-19 tinha-lhes trocado as voltas, fechando-as ainda mais numa vida com poucas portas abertas. Ironicamente, seria também o vírus a abrir uma janela e a permitir aquele momento de desconfinamento semanal. Assim, naquela primeira quarta-feira após o fim do estado de emergência, juntavam-se à volta de uma mesa alta e comprida Fátima Quinta, gestora do projeto Molde 50, e quatro das mulheres que responderam ao seu desafio.

Cada uma trazia as máscaras feitas em casa, para que fossem entregues à Junta de Freguesia e à Mansão (lar de idosos) de Marvila. Era uma forma não só de ajudar a comunidade, mas também de lhe “devolver” o apoio – social e psicológico, a ocupação nos seus tempos (demasiado frequentes) de desemprego, as tentativas de inclusão social – que dela vinham recebendo, explicou Fátima Quinta. Era ainda uma forma de pôr em prática as aprendizagens recebidas no âmbito do projeto de reconversão profissional e integração social Molde 50 (criado pela AGIR XXI e apoiado pelo Programa Cidadãos [email protected] Grants/Fundação Calouste Gulbenkian).

Costurar em nome da reintegração

Além das máscaras, Sandra Lobo trazia ainda, para mostrar às colegas, uma touca. Melhorado o seu protótipo, poderia servir a profissionais de saúde ou da cozinha.

Aos 51 anos, Sandra tem no currículo várias temporadas no desemprego. Com carreira feita numa marca de material fotográfico, diz-se vítima do digital. Tentou outras áreas (a cozinha de uma escola, uma loja), mas sem sucesso. A lesão na coluna não ajudou. Mas “estar desocupada é uma doença”, diz. Criada por uma avó costureira, apostou no curso de costura do IEFP.

Fez o curso de quatro meses na AGIR XXI e um estágio de quatro semanas no Teatro Nacional D. Maria II. O próximo passo teria sido um workshop sobre criação de marcas. Marina Melo, de 52, seguia sensivelmente o mesmo caminho. Técnica de audiovisuais com várias passagens no centro de emprego, ocupou o estágio numa costureira a fazer fatos de Carnaval. E tinha em mãos trabalho até aos santos populares. Não fosse o Covid-19… Num e noutro caso, quem sabe se reintegração na vida ativa – que é, afinal, a finalidade da AGIR XXI – não estaria ao virar da esquina.

Quando a sorte bate à porta

Tanto Sandra como Marina tinham a sorte de ter máquina própria. Paula Pires, de 54, ex-colega do curso, também tinha uma e aderiu, com gosto, à brigada das máscaras. Mas – sorte ainda maior – ainda a quarentena estava a começar, recebe um telefonema que lhe muda os planos. A fábrica onde tinha entregado um currículo tinha lugar para ela. Começou a trabalhar em abril e, apesar de não ter tanto tempo, quis continuar no projeto, como conta neste depoimento em vídeo.

 

Paula Pires, voluntária do Molde 50, é um caso de sucesso. Ainda a quarentena estava a começar quando recebeu um telefonema que lhe mudou os planos.

 

Mais uma visita à porta. Maria Ana, de uma associação de voluntários, vinha buscar máscaras. Pouco depois receberiam o recado de que a remessa tinha sido entregue à Junta de Freguesia de S. Vicente, que as entregaria, por sua vez, ao Banco Alimentar. Tudo começara com a comunidade de Marvila, mas tinha-se espalhado que nem o vírus. Chegara a S. Vicente e ainda a muitos polícias e bombeiros da cidade.

As quatro voluntárias (Sandra, Marina e Paula, mais Zélia que, por ainda não ter o curso de costura, coloca os elásticos) fazem cerca de 90 máscaras por semana. E ainda se entretém a criar toucas, viseiras, máscaras para miúdos. O Covid-19 obrigou o projeto a reformular-se.

Agora, têm de olhar para os novos tempos sem nunca perder de vista estas mulheres – maduras, com passagens recorrentes pelo Centro de Emprego, algumas vítimas de violência doméstica – em risco de exclusão.

Voltando ao início desta estória, o vizinho da CAIS também foi bafejado pela sorte. Levou duas máscaras. Uma semana depois, estavam feitas mais seis, para os seus colegas.


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