A importância da madeira morta num jardim

A madeira morta é fundamental para a manutenção e recuperação da biodiversidade local, defende a bióloga Ana Maria Pereira
Wilder 03 nov 2025 5 min
Ciência no Jardim

A técnica de educação ambiental e gestão florestal na Mata de Vilar, no município de Lousada, aponta várias razões para que se crie madeira morta nos nossos jardins e florestas.

Imaginemos, por momentos, que estamos no nosso jardim ou terreno, junto a uma árvore que caiu ou a restos de uma poda. Ao pensarmos no que fazer com ela, a tentação pode ser a de procurar uma forma rápida e fácil de a retirar dali, uma vez que perdeu utilidade. Mas será esta a melhor opção? Na natureza, cada elemento tem a sua função, incluindo a madeira morta que retém humidade e carbono florestal, e é uma ferramenta essencial no restauro da natureza. Dela dependem salamandras, morcegos, aranhas, lesmas, bichos-de-conta, sapos, corujas e pica-paus, escaravelhos e fungos.

Ana Maria Pereira explica que a madeira morta é uma aliada crucial na manutenção e recuperação da biodiversidade local. “A madeira morta ou as próprias árvores mortas que permanecem no solo são habitat para espécies de cogumelos que se têm desenvolvido mesmo durante o verão, o que mostra que os níveis de humidade retidos neste material lenhoso permitem a existência de biodiversidade durante todo o ano, mesmo com maior escassez de chuva.” Acrescenta também que, “historica e culturalmente, a madeira morta foi sendo removida das nossas florestas, no entanto, a presença destas estruturas nas florestas é essencial à sua saúde e equilíbrio.”

Entre 25 a 30% das espécies que vivem nas florestas, a nível mundial, precisam de madeira morta durante algum momento da sua vida e usam-na, por exemplo, para se alimentarem, hibernarem ou nidificarem. Estes organismos são chamados saproxílicos.

Em Portugal são muitas as espécies que dependem da madeira morta, por exemplo, a vaca-loura (Lucanus cervus), o maior escaravelho da Europa, alimenta-se de raízes mortas de carvalho-alvarinho (Quercus robur); os pica-paus alimentam-se de invertebrados que se desenvolvem na madeira morta; o morcego-anão (Pipistrellus pipistrellus) usa as árvores mortas como abrigo e a salamandra-de-pintas-amarelas (Salamandra salamandra) abriga-se debaixo dos troncos caídos durante os meses mais quentes. A madeira morta serve também de suporte para musgos e líquenes.

Além disso, a madeira morta traz ainda muitos benefícios para a saúde das florestas e jardins. “Os troncos, ramos e raízes das árvores vão acumulando nutrientes ao longo do seu crescimento. Quando partes da árvore morrem e caem, esta pool de nutrientes volta ao solo, lentamente, contribuindo para a disponibilidade global destes elementos essenciais ao crescimento de outras espécies”, explica a bióloga, “da mesma forma, a chuva quando cai sobre uma floresta, vai ser intercetada pelas copas das árvores. Quando cai sobre troncos e ramos mortos no chão permite uma infiltração mais lenta no solo, uma vez que inicialmente se vai acumular dentro dos ramos e troncos caídos.”

Esta matéria pode também ser uma importante fonte de nutrientes durante décadas. “A madeira das árvores é composta por cerca de 50% de carbono, sob muitas formas – desde a celulose, a hemicelulose a lenhina, entre outros -, o que significa que mesmo quando uma árvore morre, uma parte significativa de todo esse carbono continua acumulado na madeira e vai-se degradando a ritmos diferentes.

Mas será toda importante?

A madeira morta faz parte da dinâmica de uma floresta, pelo que, idealmente, deveria ser deixada no local e seguir os fluxos naturais. No entanto, Ana Maria Pereira defende que há fatores a considerar. “O tipo de espécie influencia a decisão. Por exemplo, madeira morta de espécies exóticas e/ou invasoras pode não ser particularmente interessante, pelo facto de a nossa macrofauna e os microrganismos que vivem nos nossos solos não conseguirem degradar essa madeira, podendo ficar intacta durante muitos anos, contribuindo para a acumulação de combustível”, explica. Outro fator a considerar é o contacto com o solo que “é essencial pois o material lenhoso que está diretamente pousado no solo vai reduzir a velocidade de perda de água e deixar a água do solo entrar nessa madeira morta.”

“Já o tamanho dos ramos ou troncos vai influenciar a velocidade de perda/acumulação de água”, uma vez que “madeira morta com diâmetro superior a 10 centímetros servirá como maior depósito de humidade do que pequenos galhos que rapidamente secam”.

A madeira morta, em especial os troncos de maior diâmetro, funciona como um importante depósito de humidade num jardim. © Paula Côrte-Real

Uma das formas de evitar a deposição aleatória de pequenos galhos e sobrantes de podas é através da construção de vedações ou sebes de madeira morta. “Ao mesmo tempo que cumprem funções mais mecânicas, a madeira destas estruturas está simultaneamente a ser degradada pelos microrganismos, permitindo a incorporação de novos nutrientes no solo e o enriquecendo de solos pobres, degradados ou enfraquecidos.”

No Jardim Gulbenkian existe o cuidado de preservar ramos que sejam colonizados por aves ou outros animais, desde que não representem risco para os utentes. Também é muito comum verificar como os tocos das árvores rapidamente são colonizados por fungos e insetos, como algumas abelhas solitárias.

Nos jardins urbanos, como o Jardim Gulbenkian, há também a questão da falta de espaço. Neste caso, é importante encontrar um ponto de equilíbrio e há pequenos truques que podemos usar. Além de construir estruturas com madeira morta, como vedações, bancos, canteiros, etc., podemos enterrar esta madeira no terreno, acumulando humidade e promovendo a biodiversidade e o arejamento do solo, contribuindo para a intensificação biológica destes pequenos ecossistemas que são tão importantes para o equilíbrio ecológico das cidades.

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Porque é que cheira a terra molhada quando chove? O que são feromonas e mecanismos de autorregulação? Descubra alguns temas de ciência que podemos observar no Jardim Gulbenkian e conheça fenómenos fascinantes do mundo natural. Uma parceria com a revista Wilder.
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