Como é que os ecossistemas se regulam a si próprios?

Wilder 24 jul 2026 8 min
Ciência no Jardim
Quando ouvimos falar de ecossistemas, pensamos muitas vezes em florestas longínquas ou num vasto oceano, mas podemos encontrá-los num simples jardim urbano. Maria Amélia Martins-Loução, presidente da SPECO – Sociedade Portuguesa de Ecologia, explica-nos como funcionam e como têm capacidade de se autorregular.

“Podemos dizer que um ecossistema é como uma ‘casa’”, descreve Maria Amélia Martins-Loução. “Tal como numa habitação, onde a forma como os recursos são usados influencia o bem-estar dos seus habitantes, também nos ecossistemas naturais o equilíbrio depende da forma como a energia e a matéria são geridas.”

Mas como é que isso acontece? A professora catedrática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa explica que a circulação da energia e da matéria depende das interações entre os componentes do ecossistema: tanto os componentes bióticos (organismos vivos, como plantas, animais e fungos) como os componentes abióticos (componentes não vivos, como água, solo e luz).

Quando tudo está a funcionar corretamente, a energia e a matéria circulam continuamente e garantem o funcionamento desse sistema.

Sistemas vivos, dinâmicos e interligados

E tal como numa casa habitada, onde os dias nunca são iguais, um ecossistema não é uma estrutura estática, mas sim um sistema aberto que está em constante adaptação às condições ambientais. “São sistemas abertos, com graus de organização e autorregulação, dependentes tanto do meio abiótico como dos organismos vivos, exercendo influência sobre todo o ambiente geral”, sublinha a presidente da SPECO.

“A importância dos ecossistemas está relacionada com o facto de serem sistemas complexos, por se adaptarem e ajustarem às variações das condições ambientais, e com auto-organização e regulação, por serem o resultado das características das espécies que os constituem, e não de uma seleção direta.”

O contacto permanente entre plantas e animais e outros seres vivos gera fluxos de entrada e saída de energia e matéria, criando ciclos que tendem para o equilíbrio, desde que os limites do sistema não sejam ultrapassados. “Tal como na nossa casa, a gestão e funcionamento está dependente do número de pessoas que a habitam e da forma como ganham, consomem e desperdiçam os recursos de que dispõem. Se gastam mais do que ganham, o equilíbrio familiar fica fragilizado, originando problemas de dependência financeira ou mesmo de saúde”, nota a mesma responsável.

Quando isso acontece, o ecossistema torna-se mais vulnerável, tal como uma família que consome mais recursos do que aqueles que consegue repor. E tal como numa habitação, é importante que se vá renovando o grupo etário dos seus moradores, para que esta seja “continuamente conservada e cuidada”.

O que acontece nos jardins urbanos

Na cidade, há diferentes tipos de jardins urbanos, mas em geral são espaços verdes planeados, com funções de lazer, bem-estar, contacto com a natureza e melhoria ambiental. No entanto, diferem dos ecossistemas naturais porque são profundamente moldados pela ação humana.

“Um jardim urbano difere dum ecossistema natural porque os organismos vivos são selecionados pelo arquiteto paisagista que o concebe e são tratados pelo jardineiro que dele cuida e o molda”, refere Maria Amélia Martins Loução. As plantas selecionadas de acordo com o projeto desempenham um papel central, pois condicionam toda a vida que se desenvolve à sua volta.

Quanto maior for a diversidade de árvores, arbustos e plantas herbáceas, maior será também a variedade de insetos, aves, pequenos mamíferos e microrganismos. Todos eles estabelecem redes alimentares e processos ecológicos—como a produção de biomassa, a decomposição e o ciclo de nutrientes—que dão ao jardim alguma capacidade de organização e regulação.

Quanto mais diversa for a vegetação de um jardim, mais diversos serão os seres vivos que nele habitam. © Mike Steele/Wiki Commons

Ainda assim, importa lembrar que “os jardins urbanos são sempre sistemas artificializados, mais ou menos naturalizados”, dependentes do tipo de plantas selecionadas, da quantidade de regas, das podas e de uma manutenção regular, algo que não acontece nos ecossistemas naturais.

“Se forem concebidos com plantas autóctones, formando mosaicos diversos, tipo vegetação mediterrânica húmida ou árida, por forma a terem apenas necessidade de estar dependentes de rega à plantação e em alturas de maior secura no verão, a sua capacidade de regulação é maior, adaptando-se melhor às condições adversas que possam surgir.”

Nova área do Jardim Gulbenkian, a sul do Centro de Arte Moderna, onde predominam plantas autóctones e vegetação mediterrânica. © Fernando Guerra

O que é a autorregulação ecológica?

Um ecossistema autorregulado consegue ajustar-se internamente para manter o seu funcionamento dentro de certos limites. “Diz-se que um ecossistema possui autorregulação quando tem capacidade de ajustar os fluxos de energia e matéria, bem como o tamanho das suas populações, a fim de manter o funcionamento do sistema dentro de certos limites”, descreve a professora catedrática. “Usando a mesma metáfora da casa, quando temos um problema financeiro ou de saúde, teremos de ajustar os nossos recursos, o nosso esforço na utilização de recursos, para viver de forma minimalista.”

Um exemplo simples, acrescenta, é o aumento excessivo de herbívoros devido à falta de predadores, o que leva a que haja demasiadas plantas consumidas. Resultado: a escassez de alimento leva por sua vez à diminuição da população herbívora, aproximando novamente a população de um equilíbrio.

“Esta capacidade de regulação é tanto maior quanto mais diversidade de espécies compõem o ecossistema, aumentando a sua resiliência. Mas claro que há limites de autorregulação quando há perturbações intensas ou prolongadas como a desflorestação, fogo, poluição, entre outros”, nota a mesma responsável, sublinhando que “o ecossistema pode vir a recuperar, mas num estado de grande fragilidade, sendo ainda mais suscetível e menos resiliente”.

“Acontece o mesmo quando estamos doentes ou com poucas resistências: a mais pequena infeção ou problema social abala ainda mais a nossa saúde, pelo que demoramos mais tempo a recuperar.”

Exemplos no coração da cidade

Mesmo numa cidade ou vila, é possível observar mecanismos de regulação ecológica em funcionamento. No Jardim Gulbenkian, por exemplo, o projeto assume um papel determinante, uma vez que este espaço verde foi concebido de forma a integrar “manchas húmidas, zonas de arbustos e áreas arbóreas, organizadas de forma harmoniosa e convidativa a caminhar e relaxar”.

Um dos charcos no interior do Jardim Gulbenkian. © Pedro Pina

Inspirado em padrões da paisagem portuguesa, o projeto desenvolvido por Gonçalo Ribeiro Telles e António Viana Barreto “recria matas, clareiras secas e húmidas e sebes”, criando um ambiente que é “simultaneamente urbano e familiar à fauna silvestre da região”, explica Maria Amélia Martins-Loução. “Daí a sensação de bem-estar natural que todo este espaço criou no centro de Lisboa”, acrescenta, sublinhando que a diversidade de habitats contribui para o conforto ambiental e para a presença constante de aves e outros organismos. “Consoante o nicho escolhido, diferentes são os sons de aves que se ouvem, como se estivéssemos isolados do burburinho de tráfego aéreo e de carros que nos rodeia.”

Outro exemplo é o Jardim Botânico de Lisboa, em particular a zona do arboreto, “deixada ao longo dos anos ao sabor das características das suas espécies, sem rega nem grande manutenção”, o que permitiu o desenvolvimento de condições ecológicas únicas em pleno contexto urbano.

Ali, acrescenta, a estrutura densa das copas funciona como um verdadeiro “chapéu protetor” contra a poluição e o calor, criando diferenças de temperatura que podem chegar aos cinco a seis graus Celsius em relação à rua adjacente, a Rua da Escola Politécnica, durante o verão. Estas condições favoreceram ainda a presença de briófitas e líquenes, que normalmente se encontram apenas em zonas naturais, não poluídas.

Assim, embora não seja possível reproduzir totalmente a autorregulação dos ecossistemas naturais, o planeamento paisagístico pode aproximar-se desse ideal. “Se forem usadas plantas autóctones, adaptadas ao clima urbano, e se a manutenção for reduzida, criam-se condições para uma maior regulação das propriedades do sistema criado”, afirma a presidente da SPECO.

A chave está em criar jardins que conciliam áreas de uso intensivo com zonas mais naturalizadas e com uma manutenção mínima, “permitindo uma regulação naturalizada.” Assim, os espaços verdes urbanos podem passar a ser mais sustentáveis, resilientes e úteis para todos os que vivem e trabalham nas cidades.

Série

Ciência no Jardim

Porque é que cheira a terra molhada quando chove? O que são feromonas e mecanismos de autorregulação? Descubra alguns temas de ciência que podemos observar no Jardim Gulbenkian e conheça fenómenos fascinantes do mundo natural. Uma parceria com a revista Wilder.
Saber mais

Relacionados

Definição de Cookies

Definição de Cookies

Este website usa cookies para melhorar a sua experiência de navegação, a segurança e o desempenho do website. Podendo também utilizar cookies para partilha de informação em redes sociais e para apresentar mensagens e anúncios publicitários, à medida dos seus interesses, tanto na nossa página como noutras.