Wave by Wave: o surf como terapia

Desde 2016 que o projeto Wave by Wave utiliza o poder terapêutico do surf e do mar para promover a saúde mental e o bem-estar de crianças em risco. Conheça esta iniciativa apoiada pela Fundação Gulbenkian.
Wave by Wave ©Márcia Lessa

É uma manhã de outubro na Praia de Carcavelos. O sol vai alto e o mar calmo. “Um dia perfeito para ir à água e surfar”, diz Marco, surf therapist e membro da equipa Wave by Wave.

Esta é a segunda semana de campos de intervenção anual do projeto. Nesta terça-feira, só apareceram três dos dez jovens que geralmente estão presentes. “Alguns ainda estão a tentar adaptar horários, outros têm estado doentes” explica Ema Evangelista, psicóloga clínica e cofundadora da iniciativa.

Ainda assim, a equipa não perde o ânimo e a manhã segue com o ritual habitual. Com os fatos já vestidos, começa a “roda inicial”, um momento de apresentação e reflexão em que se pode falar sobre tudo: como correu a semana, o que se está a sentir, ideias e pensamentos. Neste dia, a vontade de conversar é pouca. Jorge, o mais velho do grupo, está impaciente: “quero ir ao mar!”.

 

Depois de um breve aquecimento, chega finalmente a altura de entrar na água. Com ou sem a prancha de surf, o mergulho no mar, com o apoio e a supervisão dos terapeutas, deixa os três jovens visivelmente bem-dispostos. Em cima da prancha, o sorriso na cara de Rúben enquanto desliza nas ondas é contagiante.

No fim do campo, fica o balanço e as despedidas. Para a semana há mais.

 

Uma prancha de salvamento

O Wave by Wave começou como um projeto de verão, em 2016. Ema Evangelista, psicóloga clínica, trabalhava numa associação de promoção da saúde mental e foi convidada para participar num campo de três meses ligado ao projeto-piloto Surf Salva Camp, ao qual José Ferreira (surfista e cofundador do Wave by Wave) já estava associado, e que se baseia no surf como instrumento de intervenção junto de populações de risco.

Dessa primeira experiência nasceu a vontade de juntar os princípios de uma intervenção terapêutica em grupo com um contexto natural – o mar – e a prática de surf. Hoje em dia, o Wave by Wave “é um projeto que usa o mar e o surf como mediadores terapêuticos, fundamentalmente para crianças e jovens ditas ‘em risco’, na sua maioria institucionalizadas”, explica Ema.

De prancha na mão, rumo ao mar ©Márcia Lessa

 

Para a psicóloga, o potencial do projeto começou a fazer-se sentir desde a primeira sessão, de que, garante, “nunca se vai esquecer”.  “Os miúdos foram-nos entregues como sendo muito difíceis: ‘vão dar cabo do campo, vão fugir’… Mas esta combinação de uma equipa motivada, multidisciplinar, entre especialistas de saúde mental e de surf, com uma atividade organizada e um contexto natural de praia e de mar, atraiu os miúdos de tal forma que não só eles não fugiram como mostraram muitas vezes os seus melhores lados. Desde logo, apareceram as partilhas significativas sobre as suas vidas e dificuldades e começámos a perceber que isto tinha pernas para andar”.

O primeiro campo Wave by Wave oficializou-se na Páscoa de 2017, ano em que iniciaram também os campos de intervenção anual, que decorrem ao longo de todo o ano letivo. Em quatro anos de trabalho, já mais de 200 crianças e jovens de diferentes idades passaram pelo projeto, vindas de casas de acolhimento ou instituições como a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a Casa Pia ou o Novo Futuro.

A roda inicial é um tempo de reflexão e partilha entre o grupo ©Márcia Lessa
Antes de entrar na água, fazem-se pequenos jogos para aquecer ©Márcia Lessa

 

“De fato somos todos iguais”

Mas, afinal, o que tem o surf de tão terapêutico?

Em primeiro lugar, o contacto com a natureza. A praia, o mar, o sol e a areia são um cenário natural que permite uma fuga ao rame-rame quotidiano e um regresso à calma. Já para não falar nos benefícios de um mergulho na água fria do mar, também largamente provados. “Às vezes os miúdos vêm ter connosco e não querem falar, só mesmo vestir o fato e ir ao mar. Outras vezes é ao contrário, só querem ficar sentados no paredão a conversar”, conta Ema.

Por outro lado, o surf também tem as suas vantagens: é um desporto individual, mas que não se consegue fazer bem nem evoluir sem ajuda de alguém, o que “cria uma oportunidade de ligação com um adulto de referência”. Além disso, de fato de surf vestido, esbatem-se as diferenças de estilo ou materiais: “somos todos iguais”.

Por último, a imprevisibilidade do estado do mar – a possibilidade de fazer ou não surf está sempre dependente das condições climatéricas – é também um limite externo que serve um propósito positivo. “Estes miúdos precisam muito de sentir limites, mesmo quando isso os frustra; é uma ótima oportunidade para trabalhar a sua capacidade de lidar com a frustração”, explica a psicóloga.

 

Consistência, continuidade, previsibilidade, intencionalidade

Que não haja dúvidas: as crianças que passam pelo Wave by Wave vivem situações muito dramáticas, assegura-nos Ema. A equipa é desafiada diariamente com histórias muito duras, cada qual única e individual – doenças do foro mental, situações de abandono e até tentativas de suicídio.

É por isso que todas as ações do projeto têm base no modelo de intervenção intitulado MAR – Modelo de Ação-Reflexão. Com este modelo, que implica reuniões prévias às sessões, reuniões de balanço e ainda reuniões de equipa semanais, as equipas “passam quase tanto tempo com as crianças como a pensar sobre elas”, explica Ema.

Um dos alicerces deste modelo, e do trabalho com as crianças, é precisamente a multidisciplinaridade da equipa de trabalho. Todos os campos têm pelo menos um coordenador de saúde mental, um coordenador de surf, um técnico de saúde mental e um técnico de surf certificado e nadador-salvador.

É esta equipa, escolhida a dedo, que deve garantir um trabalho consistente, contínuo, previsível e comprometido, cumprindo os quatro grandes pilares que regem o projeto e que o permitem funcionar como uma verdadeira rede de segurança e confiança para os jovens envolvidos.

A equipa Wave by Wave ©Márcia Lessa

 

A maior conquista do projeto, para Ema Evangelista, é o reconhecimento que as pessoas responsáveis pelas crianças (as instituições ou as próprias famílias) fazem ao trabalho desenvolvido, que são visíveis nos comentários e agradecimentos que recebem diariamente.

Entre os desejos para o futuro, está a vontade de conseguir um acordo de cooperação com a Segurança Social, o que lhes daria mais estabilidade e capacidade de resposta, e continuar a acompanhar os jovens com quem trabalham, contribuindo para ajudar a integrá-los na sociedade. “Há ainda muitos projetos para crianças e jovens em risco que são coisas muito fugazes. Nós não queremos ser fugazes, queremos ter alguma continuidade na vida destes miúdos”.

O Projeto Wave by Wave é promovido pela associação Surf for Good e conta com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian desde 2017, sendo hoje apoiado através do Programa Cidadãos Ativos.

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