Mudar de mundo

Íris Damião mudou de mundo, para mudar o mundo. Depois de ter estudado Biomédica e Física e de ter feito um mestrado em Neurociências, na Fundação Champalimaud, tornou-se mentora do projeto GAP – Gulbenkian Aprendizagens.
Íris Damião © DR
Íris Damião © DR

Íris, de 25 anos, vive no Areeiro, em Lisboa, e vai todas as semanas para a escola EB. 2,3 Soeiro Pereira Gomes, em Vila Franca de Xira, ensinar matemática aos que ficaram para trás na matéria por força da pandemia. A entrevista é feita via Zoom, mas chega para perceber que esta mentora tem uma energia contagiante e que o sorriso lhe é habitual.

Começa por falar das razões que a levaram a interromper o seu exemplar percurso académico e profissional para ajudar os que mais precisam. “O tema da educação sempre me puxou muito pelo seu poder transformador”, explica. “Numa altura em que as crianças estão a passar por dificuldades e ainda são prejudicadas devido ao confinamento, faz-me sentido partilhar um bocadinho daquilo que eu sei”.

A mentora da Teach for Portugal (parceira da Fundação Gulbenkian no projeto GAP – Gulbenkian Aprendizagens) acompanha 55 alunos neste projeto para lhes dar um novo olhar sobre as matérias e a vida. “Numa primeira instância procurei através de jogos e atividades que fazem a ponte entre a matemática e o mundo real, desconstruir a ideia de que a matemática é difícil, chata e inalcançável. Naturalmente, isto permitiu-lhes olhar para a matemática com outros olhos e aos poucos e poucos ir desconstruindo o “eu não consigo” e o “eu não quero”, num “eu consigo”. (…) o ambiente das nossas sessões é muito relaxado, somos todos próximos e as relações entre os membros foi-se construindo. Criámos um espaço onde cada um é diferente sendo todos iguais, onde não tem mal errar e onde todos podemos ajudar-nos uns aos outros.”

 

Um espaço de autonomia

A mentora acredita que foi construindo um lugar onde os alunos se sentem autónomos e capazes. “Temos a nossa sala e cada aluno chega, escolhe o tópico que quer trabalhar, acede aos materiais de estudo sobre esse tópico que existem na sala (maioritariamente fichas, há também um ou outro jogo e computador, porque não há possibilidade de mais) e realiza exercícios. Eles trabalham frequentemente em conjunto, pedindo ajuda ao outro e eu sou apenas mais uma pessoa na sala, a quem eles tiram dúvidas. Aos poucos e poucos vou incitando a que eles procurem as respostas às suas dúvidas também na internet. Deste modo, terminam este projeto com uma maior autonomia de estudo, sabendo estudar melhor e com mais capacidade de aprender em conjunto.”

Na reta final do projeto, Íris fala-nos sobre a sua experiência e a dos seus alunos. “É engraçado, porque todos os dias são uma aprendizagem. Para mim e para os miúdos”. A paixão pelo que faz é óbvia. Trabalha na esperança de mudar, nem que seja “apenas um bocadinho”, o paradigma da diferença entre as crianças privilegiadas e as crianças com menos recursos.

O facto de um mentor ser uma pessoa acessível, com relações de proximidade com os alunos, ajuda-os a chegar mais além do que aquilo que uma sala de aula e a distância para com um professor permitem. Íris acredita que muito começa na cabeça e não na matéria e que, muitas vezes, por nascerem em condições menos favorecidas, os jovens não acreditam nas suas capacidades.

© DR
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Fala especialmente de uma aluna de etnia cigana com quem começou a trabalhar desde o início do projeto. “[Ela] estava muito desmotivada com a escola e tem bastantes desafios na vida. Por exemplo, o facto de não querer casar já. Acabámos por nos conhecer melhor e tenho visto a sua evolução ao longo do tempo. É uma daquelas alunas que tem tido uma evolução marcante. Está muito mais motivada e cada vez gosta mais de ir às sessões para aprender, quando inicialmente nem queria ir. Realmente mudou a sua forma de olhar a vida e vê as coisas de outra maneira. Agora pensa “eu quero estudar, eu quero aprender, eu quero ser melhor, eu quero ser advogada – e isso é possível””.

 

Uma aprendizagem recíproca

Íris acredita que com este projeto pode transmitir os seus conhecimentos e, simultaneamente, aprofundar as suas aprendizagens. “Através do GAP eu consigo conhecer pessoas novas, de diferentes idades, e estar em contacto direto com a educação para perceber se é esta a área que realmente quero”, explica.

“(…) Eu costumo questionar-me sobre as coisas, e queria de facto perceber se a vida académica que estava a seguir era aquilo que me fazia mais sentido ou se gostava de fazer outra coisa. Obviamente que este contacto com a escola me permite explorar um bocadinho isso. Precisamente por ter este gosto pela educação, e por ver a educação com este poder de transformação e mudança. Mesmo se não for o mundo, é importante transformar a vida de algumas crianças.”

Apesar de um enorme apego aos alunos e ao projeto, Íris acha que o seu futuro ainda está em aberto. “Em princípio vou aceitar um convite para fazer investigação numa área diferente, os projetos dos quais me fizeram convite são muito interessantes para mim. Mas através desta experiência também sei que quero continuar a participar neste mundo, de educar e fazer diferente”.

De uma forma ou de outra, Íris é um exemplo a seguir. A sua entrega ao projeto é uma lição de esperança, humildade e partilha. E a prova de que é possível mudar o mundo.