Call to Action

A Fundação Calouste Gulbenkian é uma instituição perpétua de nacionalidade portuguesa com fins estatuários caritativos, artísticos, educativos e científicos. Comprometida com toda a humanidade, tem na sua missão o apoio ao desenvolvimento sustentável, promovendo ativamente o bem-estar e a qualidade de vida de grupos vulneráveis da população, em equilíbrio com a proteção ambiental e a prosperidade económica.

 

A humanidade enfrenta uma crise climática severa e sem precedentes, com consequências devastadoras nas pessoas, na natureza e na economia. Esta foi a frase com que iniciámos o apelo à ação no primeiro ano do Prémio Gulbenkian para a Humanidade, no início de 2020.

Dois anos passaram e tanto os impactos climáticos já ocorridos como as projeções científicas apontam para uma realidade pouco ou nada animadora, mantendo as crises climáticas e a perda de biodiversidade no topo dos desafios desta e das próximas gerações, com graves consequências que ultrapassam o plano ambiental, tais como doenças crónicas e infeciosas, escassez de água e bens alimentares, migrações, destruição de infraestruturas, perda de meios de subsistência ou quebras abruptas em diversas atividades económicas.

Os últimos sete anos foram os mais quentes de sempre[1] e os fenómenos climáticos atingem frequentemente recordes em número e intensidade pelos vários cantos do globo, tais como secas extremas, incêndios, ondas de calor, cheias ou tempestades.

© DR
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Em 2021, a temperatura da água do mar atingiu o valor mais alto de sempre, a subida do nível médio da água do mar também atingiu novos records assim como a concentração de gases com efeito de estufa na atmosfera[2]. Este foi também o ano com o verão mais quente no Hemisfério Norte, com as temperaturas e chegar aos 50ºC no Canadá. Foram registados mais de 50 furacões, ciclones e tempestades extratropicais em todo o mundo, inundações mortais na Nigéria, Gana, Índia, Turquia, Alemanha, Bélgica, Holanda e China, ondas de calor extremas na Sibéria, Paquistão, norte da Índia, partes do Médio Oriente, Norte de África e Europa, e incêndios florestais catastróficos na parte ocidental dos Estados Unidos da América, Mediterrâneo e Israel[3]. Os 10 desastres naturais mais mortíferos de 2021 causaram a morte de mais de 4 mil pessoas em vários regiões do mundo, incluindo na Alemanha, Bélgica, China, EUA, Filipinas, Índia, Indonésia e Nepal.[4]

Também em 2021, o IPCC publicou o seu primeiro contributo para o AR6 (Sixth Assessment Report – The Physical Science Basis[5]) com o alerta mais preocupante de todos os relatórios anteriores, estimando uma probabilidade de 50% de falhar o Acordo de Paris e reiterando que sem reduções drásticas de emissões de gases com efeito de estufa, poderá ocorrer um aumento de temperatura de 2,7ºC relativamente aos níveis pré-industriais até ao final do século, com consequências devastadoras para a Humanidade. Muitas destas mudanças serão irreversíveis durante séculos a milénios, especialmente as alterações em curso no oceano.

Mais recentemente, pudemos ter acesso às ainda mais dramáticas conclusões do relatório do IPCC – Impactos Climáticos, Adaptação e Vulnerabilidade[6] – de 28 de fevereiro de 2022, entre as quais se destacam que os impactos climáticos já são mais generalizados e severos do que o esperado assim como os que irão ocorrer a curto prazo e que os riscos irão escalar com menores aumentos de temperatura, sugerindo que limitar o aumento de temperatura a 1,5 graus poderá não ser suficiente e que acima disso os impactos serão irreversíveis. Prevê-se que entre 3% e 14% das espécies de animais e plantas possam extinguir-se, mesmo limitando a subida da temperatura media global a 1,5ºC. O relatório refere ainda que atualmente existem entre 3,3 e 3,6 mil milhões de pessoas (cerca de 40% da população) a viver em países altamente vulneráveis aos impactos climáticos, com hotspots globais concentrados em Pequenas Estados Insulares em Desenvolvimento, no Ártico, no Sul da Ásia, na América Central e do Sul, e em grande parte da África Subsaariana. Com isto, destaca a importância das medidas de adaptação dirigidas às comunidades mais vulneráveis, reiterando a elevada insuficiência dos fundos para a adaptação climática atualmente disponíveis, assim como a urgência de fazer face a perdas e danos já ocorridos.

Face à incerteza com que podemos caracterizar o futuro da Humanidade, será importante relembrar algumas das previsões para os cenários traçados.

  • Segundo o Banco Mundial[7], até 2050, cerca de 143 milhões de pessoas da África Subsaariana, América Latina e Sudoeste Asiático, poderão ter de abandonar as suas casas devido ao aumento do nível da água do mar, da escassez de água ou perdas agrícolas. Estima-se ainda que, até 2030, a crise climática poderá colocar mais 100 milhões de pessoas em situação de pobreza extrema, a nível global.[8]
  • Segundo a Organização Mundial de Saúde, as alterações climáticas poderão causar, entre 2030 e 2050, um acréscimo de 250 mil mortes por ano, devido a má nutrição, malária, diarreia e stress por calor.[9] Os países com fracas infraestruturas de saúde – na sua maioria países em desenvolvimento – serão os menos aptos a responder a estas ameaças.[10] Realce-se, neste âmbito que em países altamente vulneráveis, a mortalidade devido a secas, tempestades e inundações em 2010-2020 foi 15 vezes maior do que em países com uma vulnerabilidade muito baixa.
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Os atuais padrões de desenvolvimento insustentáveis aumentam a vulnerabilidade dos ecossistemas e das pessoas aos riscos climáticos. Sem uma mudança drástica, a humanidade ficará sujeita a consequências praticamente inimagináveis, especialmente aqueles que se encontram em situação de maior vulnerabilidade.

A intensidade e a frequência das alterações climáticas e riscos associados irão depender em grande medida das ações de mitigação e adaptação adotadas a curto prazo, assim como as perdas e danos decorrentes dos impactos adversos tenderão a ser agravadas com o aumento da temperatura.[11]

O clima a que estaremos sujeitos no futuro depende das decisões que tomarmos agora. As evidências relacionadas com os impactos observados, os riscos previstos, a evolução da vulnerabilidade, e os limites de adaptação, demonstram que a ação climática a nível mundial em prol de um desenvolvimento resiliente é mais urgente do que anteriormente se antecipava.[12] A resposta à emergência climática passa por uma mudança imediata, estrutural e sistémica em vários aspetos da sociedade, exigindo ação por parte dos governos, investidores e empresas, das organizações não governamentais, das fundações, sociedade civil, instituições de ensino, centros de investigação cientifica, meios de comunicação social e através da criação de parcerias com grupos tradicionalmente marginalizados, comunidades locais e minorias étnicas visando um modelo de crescimento neutro em carbono e que salvaguarde a justiça social.

Importa assim adotar respostas integradas que contribuam para uma transição robusta e inclusiva, que responda aos desafios do século XXI, que defenda os princípios propostos na Agenda 2030 das Nações Unidas, e que privilegie a sustentabilidade do planeta e das sociedades humanas.

À luz dos compromissos anunciados na última Cimeira do Clima (COP26), é agora fundamental não deixar arrefecer o sentido de urgência climática, acelerar a implementação de ações e medidas concretas capazes de contribuir para a redução da emissão de gases com efeito de estufa, aumentar a resiliência e adaptação dos ecossistemas naturais e das pessoas aos impactos do clima, apoiar as comunidades com perdas e danos já ocorridos, assim como proteger e restaurar a biodiversidade e os ecossistemas naturais, incluindo as florestas e o oceano.

A transição para uma sociedade com impacto neutro no clima, para além de uma necessidade urgente, é uma oportunidade única para construirmos um futuro apoiado numa simbiose entre a sociedade e o ambiente, que se baseie num sistema económico sustentável e gerador de prosperidade e bem-estar.

A Fundação Calouste Gulbenkian pretende contribuir para esta transição. Comprometida com toda a humanidade, tem na sua missão o apoio ao desenvolvimento sustentável, promovendo ativamente o bem-estar e a qualidade de vida de grupos vulneráveis da população, em equilíbrio com a proteção ambiental e a prosperidade económica.

O Prémio Gulbenkian para a Humanidade sublinha o compromisso da Fundação com a urgência da ação climática, posicionando-se em 2022 com uma iniciativa-chave na corrida para a COP27 ao reconhecer pessoas ou organizações com contributos e ações de elevado impacto no combate à crise climática, capazes de contribuir para mitigar os efeitos negativos das alterações climáticas nas pessoas, no ambiente e na economia e promover uma sociedade mais resiliente e preparada para as alterações globais do futuro, protegendo em especial os mais vulneráveis.

 

[1] news.un.org/en/story/2021/10/1104472
[2] www.carbonbrief.org/state-of-the-climate-how-the-world-warmed-in-2021
[3] www.carbonbrief.org/state-of-the-climate-how-the-world-warmed-in-2021
[4] www.usnews.com/news/best-countries/slideshows/here-are-10-of-the-deadliest-natural-disasters-in-2021
[5] www.ipcc.ch/report/ar6/wg1/
[6] www.ipcc.ch/report/sixth-assessment-report-working-group-ii/
[7] openknowledge.worldbank.org/bitstream/handle/10986/29461/GroundswellOVpt.pdf?sequence=20&isAllowed=y
[8] www.undp.org/content/undp/en/home/blog/2018/Climate_Change_and_the_Rise_of_Poverty.html
[9] www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/climate-change-and-health
[10] www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/climate-change-and-health
[11] www.ipcc.ch/report/sixth-assessment-report-working-group-ii/
[12] www.ipcc.ch/report/sixth-assessment-report-working-group-ii/

Atualização em 09 março 2022

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