Call to Action

A Fundação Calouste Gulbenkian é uma instituição perpétua de nacionalidade portuguesa com fins estatuários caritativos, artísticos, educativos e científicos. Comprometida com toda a humanidade, tem na sua missão o apoio ao desenvolvimento sustentável, promovendo ativamente o bem-estar e a qualidade de vida de grupos vulneráveis da população, em equilíbrio com a proteção ambiental e a prosperidade económica.

 

A humanidade enfrenta uma crise climática severa e sem precedentes, com consequências devastadoras nas pessoas, na natureza e na economia.

Os últimos cinco anos foram os mais quentes desde que há registos [1]  e o ano de 2020 poderá vir a ser, senão o mais, pelo menos o segundo mais quente de sempre [2]. O aumento da temperatura global, causado por níveis excessivos de gases de efeito de estufa na atmosfera,  está a provocar graves desequilíbrios no Planeta. A ocorrência de ondas de calor, as secas severas, os incêndios, o degelo dos glaciares, a acidificação do oceano ou a subida do nível das águas, são uma realidade dramática e cada vez mais próxima [3]. Além dos impactes no ambiente, tais como a perda de biodiversidade e o colapso dos ecossistemas naturais, as alterações climáticas afetam componentes essenciais do bem-estar humano e do desenvolvimento socioeconómico – a saúde pública, o acesso a água potável e ar limpo, a segurança na oferta alimentar e o abrigo seguro, entre outros. 

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Em 2019, os fenómenos atmosféricos extremos provocaram, em média, um desastre natural por semana. Em julho de 2020, as inundações na Índia, Nepal e Bangladesh causaram a morte de mais de 300 pessoas e milhões de desalojados. A fome e a escassez alimentar, originadas pela seca extrema, colocaram, em 2019, mais de 45 milhões de pessoas em risco de sobrevivência em 14 países do continente africano. Segundo o Banco Mundial [4], até 2050, cerca de 143 milhões de pessoas da África Subsaariana, América Latina e Sudoeste Asiático, poderão ter de abandonar as suas casas devido ao aumento do nível da água do mar, da escassez de água ou perdas agrícolas. Estima-se ainda que, até 2030, a crise climática poderá colocar mais 100 milhões de pessoas em situação de pobreza extrema, a nível global.[5]

Segundo a Organização Mundial de Saúde, as alterações climáticas poderão causar, entre 2030 e 2050, um acréscimo de 250 mil mortes por ano, devido a má nutrição, malária, diarreia e stress por calor [6]. Os países com fracas infraestruturas de saúde – na sua maioria países em desenvolvimento – serão os menos aptos a responder a estas ameaças.[7] Neste âmbito, a pandemia Covid-19 veio realçar a vasta evidência científica que suporta as ligações inequívocas entre as alterações climáticas e a perda de biodiversidade com sérias ameaças à saúde pública, tais como a propagação de graves doenças infeciosas como o ébola, a gripe das aves, o MERS-CoV ou, a mais recente, Covid-19[8]. Atualmente, mais de 75% das novas doenças infeciosas têm origem na vida selvagem e os cenários das alterações climáticas previstas para a Europa vêm potenciar o risco da reintrodução, ou introdução de várias doenças como a Malária, Dengue, Leishmania, Encefalite Europeia ou Doença de Lyme.

Sem uma mudança drástica, a humanidade continuará a sofrer estas consequências, especialmente aqueles que se encontram em situação de maior vulnerabilidade.

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O ultimato do Relatório Especial do IPCC de 2018 é claro: se não limitarmos o aquecimento global abaixo dos 1.5ºC até ao final do século, comparativamente aos níveis pré-industriais, os impactes nas pessoas e nos ecossistemas naturais multiplicar-se-ão até culminarem num cenário catastrófico [9]. Para evitar esta trajetória, é imprescindível reduzir as emissões de gases de efeito de estufa em 45% até 2030, ou seja, 7,6% por ano entre 2020 e 2030. Contudo, até ao final de 2019, a temperatura média do planeta já tinha aumentado 1,1ºC relativamente aos níveis pré-industriais e, na última década,  as emissões de dióxido de carbono aumentaram 1,5% ao ano.[10]

Os números não mentem e o relógio não para. A resposta à emergência climática passa por uma mudança imediata, estrutural e sistémica em vários aspetos da sociedade, exigindo ação por parte dos governos, das empresas, das organizações não governamentais, das fundações e das pessoas na direção de um modelo de crescimento neutro em carbono.

A pandemia Covid-19 demonstrou a vulnerabilidade do atual modelo de desenvolvimento das sociedades, associado a fortes riscos ambientais, sociais, económicos e tecnológicos. Mostrou ainda a importância da capacidade de adaptação e antecipação na gestão das várias crises, a que estamos ou estaremos sujeitos, nomeadamente a emergência climática, a perda de biodiversidade, a escassez de água potável, a degradação ambiental em geral e o aumento das desigualdades sociais. A resiliência tornou-se um elemento central na construção do futuro da Humanidade.

Importa assim adotar respostas integradas que contribuam para uma transição robusta e inclusiva, que responda aos desafios do século XXI, que defenda os princípios propostos na Agenda 2030 das Nações Unidas, e que privilegie a sustentabilidade do planeta e das sociedades humanas.

A transição para uma sociedade com impacto neutro no clima, para além de uma necessidade urgente, é uma oportunidade única para construirmos um futuro apoiado numa simbiose entre a sociedade e o ambiente, que se baseie num sistema económico sustentável e gerador de prosperidade e bem-estar.

A Fundação Calouste Gulbenkian pretende contribuir para esta transição. Comprometida com toda a humanidade, tem na sua missão o apoio ao desenvolvimento sustentável, promovendo ativamente o bem-estar e a qualidade de vida de grupos vulneráveis da população, em equilíbrio com a proteção ambiental e a prosperidade económica.

O Prémio Gulbenkian para a Humanidade sublinha o compromisso da Fundação com a urgência da ação climática. Pretende-se, com esta iniciativa, mitigar os efeitos negativos das alterações climáticas nas pessoas, no ambiente e na economia e promover uma sociedade mais resiliente e preparada para as alterações globais do futuro, protegendo em especial os mais vulneráveis.

 

[1] eur-lex.europa.eu/legal-content
[2] https://www.carbonbrief.org/state-of-the-climate-2020-set-to-be-first-or-second-warmest-year-on-record
[3] climate.nasa.gov/effects/
[4] openknowledge.worldbank.org
[5] www.undp.org/content/undp/en/home/blog/2018/Climate_Change_and_the_Rise_of_Poverty
[6] www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/climate-change-and-health
[7] www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/climate-change-and-health
[8] eur-lex.europa.eu/resource
[9] www.ipcc.ch/sr15
[10] www.unenvironment.org/resources/emissions-gap-report-2019