O CAM como «Lugar Infinito» de arte, educação e transformação

«Lugar» é uma iniciativa do CAM, que tem vindo a desafiar a convencionalidade de um programa educativo. Andreia Dias, Andreia Coutinho, Mariana Faria e Fidel Évora – os responsáveis pela edição de 2024 – partilharam os valores, metodologias e o legado deixado pela experiência.
15 mai 2025 6 min

Ao longo do ano letivo 2023/24, o artista Fidel Évora, em cocriação com a equipa de mediação e colaboração de professores, professores e estudantes do Agrupamento de Escolas Marquesa de Alorna, em Lisboa, desenvolveu um processo criativo que culminou numa obra coletiva site-specific. Lugar Infinito foi o ponto alto de um percurso que promoveu o pensamento crítico e a criatividade, sob a perspetiva transformadora da educação artística.

Com participantes de 37 nacionalidades distribuídos por seis turmas, este encontro propôs-se a criar um ambiente inclusivo e seguro para a exploração de relações, identidades e experiências. Sendo descrito como um «lugar de pertença», ou «laboratório criativo», o programa recorreu a «metodologias poéticas» para conectar o pensamento artístico a questões de cidadania e desafios sociais.

Atividades do projecto «Lugar Infinito» © Pedro Pina

Com uma abordagem que partiu da expressão individual para a coletiva, Lugar Infinito abriu caminhos para novas formas de participação e transformação social, demonstrando o poder da arte na reinvenção de realidades.

Andreia Dias apresenta o Lugar como um espaço de pertença e criação inclusiva, onde as crianças não só se sentem ouvidas, mas também são desafiadas a refletir criticamente sobre temas como cidadania, direitos humanos e empatia. «Para mim, o Lugar é sempre um laboratório de ensaio, onde se podem explorar metodologias, onde há uma liberdade criativa imensa, onde se trabalha a educação e o fazer artístico e, sobretudo, o pensamento artístico ligado a questões do nosso dia a dia, em resposta à sociedade e à cidadania», explicou, resumindo a essência do projeto.

Conversa e inauguração da instalação «Lugar Infinito» © Pedro Pina

Questionada sobre a escolha temática desta edição, a coordenadora descreve que, embora o projeto mantenha um eixo de construção contínua, «cada Lugar é um lugar individual único no pensamento que vai gerar». A abordagem deste ano, centrada nas identidades biográficas, culturais e sociais, refletiu a influência do trabalho de Fidel Évora e a celebração dos 50 anos do 25 de Abril, conjugando a ideia de memória coletiva com um olhar transformador sobre o futuro. «Como é que do Fidel nos prolongamos para o infinito com estas ideias? Que revoluções nos falta fazer?»

Complementando a ideia de infinitude associada à temática, Fidel Évora destaca o potencial transcendente do projeto, que se estende no tempo e no espaço, através da escuta e da partilha ativa de biografias, partindo da compreensão do «eu» para a relação com o «nós».

Um dos momentos mais marcantes do projeto recorreu a metáforas e práticas performativas para promover ferramentas de diálogo e reflexão, com destaque para um exercício que utilizou bolas de sabão para simbolizar o impacto das palavras positivas e negativas nas relações interpessoais. «Atividades como estas ajudaram os alunos a trabalhar conceitos como empatia e pensamento crítico, ao mesmo tempo em que se aprofundaram em questões relacionadas a micro-agressões e fronteiras simbólicas e sociais», afirma a mediadora Mariana Faria.

Conversa e inauguração da instalação «Lugar Infinito» © Pedro Pina

Reconhecendo a inspiração do trabalho de Fidel Évora, cujo processo «ajudou a costurar as sessões», a mediadora sublinha a ambivalência enriquecedora do projeto, marcado pela «possibilidade de fruir a arte e pela possibilidade de pensar criticamente algumas questões – questões essas que passam pela cidadania, pelos direitos humanos, e também por sonhar mundos». Na visão de Mariana Faria, a transformação proposta pelo projeto reside no «empoderamento real do pensamento, da autoconfiança e da coragem».

Fidel Évora, que trouxe uma abordagem centrada na identidade biográfica e cultural, nas fronteiras, partindo de temas relacionados ao seu próprio processo artístico, desempenhou um papel central na construção da narrativa coletiva. «O Lugar é uma ideia que começa como um casulo e se expande para a sociedade», explica o artista. Através de atividades como a recolha de objetos pessoais, a autorrepresentação e exercícios que exploraram a relação entre identidade e espaço, os alunos participaram ativamente no desenvolvimento e na partilha de ferramentas emocionais transpessoais.

O recurso a outras referências da Coleção do CAM, como as obras de Rui Leitão ou Ana Hatherly, também enriqueceram todo o processo criativo, proporcionando um diálogo entre diferentes expressões artísticas.

Conversa e inauguração da instalação «Lugar Infinito» © Pedro Pina

A instalação final, composta por serigrafias, textos e outros elementos criados pelos alunos, concretizou-se na definição de obra de arte, revelando o poder da colaboração e da criatividade coletiva. Localizada no Jardim Gulbenkian, a obra não apenas emoldurou a reflexão sobre os temas explorados ao longo do projeto, como também proporcionou uma experiência interativa para o público.

Quase no final da entrevista, foi ainda reforçado o papel social do museu, destacando como ele pode atuar na concretização das vivências e na expressão dos pensamentos através da prática artística, proporcionando um ambiente seguro de partilha. A mediadora Andreia Coutinho sublinha a centralidade do conceito de familiaridade na experiência: «Às vezes é um bocadinho aquela coisa de sentirem que há familiaridade – linguística, de origem – de não serem uma ilha sozinha. A experiência da escola é agregadora, mas pode ser isolante para muitas crianças, pensando, por exemplo, nas crianças refugiadas.»

De forma consensual, a equipa acredita que o impacto do projeto irá além do visível. Ao colaborar com um artista, as crianças não só descobriram novas formas de reflexão e expressão, como passaram a imaginar um futuro em que a arte desempenha um papel central. Embora ligado ao ano letivo, o legado do Lugar Infinito transcenderá esse período, permanecendo nas memórias dos participantes. A intenção é que inspire as futuras gerações a tornarem-se líderes comunitários e agentes de transformação.

Lugar Infinito ofereceu novas ferramentas de reflexão através da educação artística, transformando o CAM num ambiente dinâmico e inclusivo, onde temas como relações, empatia, o lugar comum e o pensamento crítico se entrelaçam para inspirar as gerações futuras. A obra final, integrada no jardim, tornou-se o centro de um diálogo contínuo sobre experiências, afetos e infinitos lugares que surgem quando arte, educação e colaboração se encontram.

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