Francisco Trêpa: «O resultado é uma exposição em constante metamorfose»
Quando contactei Francisco Trêpa para entrevistá-lo sobre a sua exposição Francisco Trêpa. Baile dos Bugalhos, patente no CAM de 20 de setembro a 20 de janeiro de 2025, sugeri que a conversa não decorresse num espaço neutro, mas sim num lugar em sintonia com o projeto e com as temáticas que o atravessam. Considerando a génese da exposição, o seu objeto e a sua relação intrínseca com o Jardim da Gulbenkian, propus ao Francisco que nos encontrássemos ali. Pedi-lhe, então, que escolhesse um ponto do parque que tivesse uma ligação particular com a exposição para começarmos a conversa. Assim, num dia de agosto, encontrámo-nos diante da entrada do auditório e seguimos diretamente para o local que ele havia escolhido, dando início a um diálogo errante pelo jardim. Tomando como ponto de partida a figura central da sua investigação mais recente – os bugalhos, pequenas esferas que se formam nos carvalhos por um processo singular – abordámos temas como hibridização, parasitismo, empatia biológica, excessos afirmativos, sci-fi barroco, e outros elementos que moldaram o imaginário desta exposição.
Mattia Tosti: Porque escolheste este lugar e qual é a sua relação com a tua exposição Francisco Trêpa. Baile dos Bugalhos?
Francisco Trêpa: Parei junto desta árvore porque é um dos carvalhos do Jardim da Gulbenkian. Se reparares, aquelas pequenas esferas no ramo são os tais bugalhos, cuja história inspirou a exposição. A minha relação com eles surgiu em dois momentos. O primeiro foi há cerca de três anos, durante uma residência nas Caldas da Rainha. Numa caminhada, encontrei-me rodeado de carvalhos e comecei a observá-los. Como em muitas espécies, a sequência natural é primeiro florescer e depois frutificar, geralmente nas extremidades dos ramos. Contudo, notei que, além dos seus frutos (as bolotas) algumas árvores exibiam pequenas esferas em locais inesperados, fora dessa ordem «natural». Peguei numa delas e fiquei intrigado: sabia que não era uma bolota, mas não fazia ideia do que poderia ser. Esse mistério deixou-me fascinado.
MT: De facto, vistas de longe poderiam parecer bolotas.
FT: Sim, mas são coisas completamente distintas. Mas eu só descobri isso mais tarde, durante uma visita ao Jardim do CAM, quando me explicaram que o bugalho não é fruto do carvalho, mas uma reação da árvore à picada das vespas. Elas depositam os ovos e injetam toxinas que alteram o código genético da árvore, fazendo com que esta produza o bugalho, que envolve, alimenta e protege a larva até ao seu desenvolvimento. Ao ouvir essa explicação, percebi imediatamente que a história destas pequenas esferas merecia ser expandida e levada ao palco.
MT: Essa interação entre duas espécies tão diferentes dialoga com os teus interesses e projetos recentes, onde exploras hibridização e simbiose, tanto no plano metafórico quanto político e social. Nos bugalhos – e nesta exposição –, porém, o foco desloca-se para a dimensão parasitária.
FT: Sim, a minha exposição Flor Cadáver, que apresentei na Galeria Foco em 2024, por exemplo, tinha a ver com os processos de polinização – uma relação simbiótica em que flores e polinizadores dependem mutuamente: os polinizadores alimentam-se principalmente de néctar (e por vezes de pólen) e, nesse processo, transferem o pólen entre flores, permitindo a reprodução das plantas. Já na relação entre o carvalho e a vespa a lógica é outra, não há reciprocidade, mas parasitismo. O carvalho não precisa da vespa, mas ela depende dele a tal ponto que evoluiu para se reproduzir unicamente através deste processo. É como se um animal tivesse um filho com uma planta, através de um hack. Esta colisão entre estes dois reinos fascina-me porque, embora parasitária, e até violenta em certos aspetos, revela também uma dimensão de generosidade e de empatia biológica que me interessa explorar.
MT: Parece que procuras repensar a noção de parasita, atribuindo-lhe uma conotação mais positiva, não como um ser que apenas extrai recursos do outro, mas como uma força que, ao interferir, ocupar e transformar um sistema, acaba por gerar novas possibilidades.
FT: Exatamente. O carvalho não sofre com este processo e, através do bugalho, fornece à vespa tudo o que ela precisa para completar a metamorfose – do ovo à larva, da larva ao inseto adulto. Quando a vespa termina esse ciclo, escava um canal, abandona este útero vegetal e nunca mais regressa. Até aqui pode parecer que a ação da vespa só a beneficiaa ela própria, mas na verdade o bugalho que ela deixa para trás transforma-se num recurso partilhado, ao ser reaproveitado por outras formas de vida, como térmitas e formigas. Ou seja, de uma relação parasitária, nasce também uma dimensão comunitária.
Interessa-me questionar a forma como certos seres são vilanizados: quem decide o que é uma praga ou um parasita? No fundo, todas as formas de vida procuram o mesmo: sobreviver. É precisamente essa a ideia que António Damásio desenvolve com o conceito de homeostasia – a capacidade de um organismo manter-se vivo e equilibrado mesmo perante mudanças externas, sejam ambientais ou culturais. Cada ser, seja vespa, carvalho, ou ser humano, esforça-se por adaptar-se e persistir. Essa reflexão cruza-se também com a minha vida, com a sensação de estar sempre um pouco à margem da norma.
MT: O teu trabalho não só possui uma identidade visual forte, marcada por personagens que reaparecem e se metamorfoseiam ao longo dos projetos, como também revela uma continuidade narrativa consistente, com vários pontos de contacto entre exposições. Gostaria de saber de que forma a história dos bugalhos se integra nele, assumindo forma escultórica e autonomia própria?
FT: Para criar um universo, mesmo que seja de fantasia, é necessário não só dar-lhe vida, mas também continuidade, retomando a ideia de homeostase que mencionei antes. Neste sentido, muitas obras desta exposição apresentam novas versões de uma personagem que vem de projetos anteriores. Aqui, esta personagem reaparece para ilustrar a história dos bugalhos e as várias ramificações narrativas que criei a partir dela. Por exemplo, a peça No Início, A Ferida mostra uma personagem a picar uma parede, evocando o gesto da vespa, assim como a ideia de que deste ato violento pode surgir algo novo. Já noutra, vemos uma personagem observando um bugalho que guarda nas mãos. Chamei-lhe Autorretrato, pois reconheço-me no gesto dessa figura, que segura esta pequena esfera e vê dentro dela um mundo, acabou por se tornar para mim o ponto de partida – e também de chegada – de toda a exposição.
MT: Podes explicar porque é que, no título da exposição, associas o baile à história dos bugalhos?
FT: Esta associação tem, antes de tudo, um sentido celebratório. Quis comemorar este processo que tanto me fascinou, no qual, como num baile, duas espécies interagem e dão vida a algo novo. Mas eu vejo um baile como algo mais complexo que vai além da dança: é um encontro comunitário marcado por rituais, códigos de linguagem e costumes próprios, que se reinventam e se transformam ao longo do tempo. Neste sentido, procurei traçar um paralelo entre a história dos bugalhos e um baile, já que ambos se desenrolam em etapas de encontro e de afastamento – começam num movimento de comunhão, atravessam diferentes ritmos e fases e culminam num desfecho: o final do baile, a partida da vespa do bugalho. Mas esses encerramentos, longe de ser apenas um fim, abrem espaço para novos começos.
O título remete também para a ideia de sonoridade e musicalidade, que atravessa o meu trabalho: não algo audível ou tangível, mas que se manifesta no ritmo das cores, nas repetições e variações de formas e temáticas que se prolongam de projeto em projeto.
Além disso, como em muitas das minhas peças, há aqui uma dimensão queer. A tradução para inglês, Gall Ball, torna esse aspeto ainda mais evidente. Em inglês, ball designa não apenas um baile ou festa, mas também um tipo particular de evento das comunidades LGBTQ+, sobretudo ligado às culturas drag e queer. Esses balls são espaços performativos de liberdade plena, onde se experimentam identidades, estéticas e expressões que, muitas vezes, não encontram lugar fora desses contextos.
MT: Agora que falaste dos balls, para além da ideia de liberdade e transformação, há também essa noção de excesso como afirmação – nas roupas, poses e maquiagens – que se torna potência, forma de se destacar e de reclamar espaço. Queria ligar essa ideia de excesso ao termo que usas para definir as tuas peças: sci-fi barroco. Sempre achei esse conceito fascinante, porque reúne dois polos aparentemente opostos – o sci-fi, ligado a uma estética minimalista e a uma projeção para o futuro, e o barroco, marcado por um gosto pelo excesso e associado a um passado distante. Podes falar um pouco mais sobre esse termo?
FT: Todas as minhas personagens têm algo de sci-fi, porque, como vimos, são híbridos, que cruzam espécies e referências. A partir delas, crio narrativas fictícias e especulativas, mas sempre muito próximas da ciência e da vida. Acho que é por aí que o sci-fi se explica no meu trabalho, embora ele não siga a estética típica do género. É aqui que entra o barroco, não só nas formas e detalhes das figuras, mas também pelo uso da cerâmica, uma técnica ancestral.
Outro aspeto das minhas peças que remete para o barroco é a sensualidade, presente na exuberância com que este género trabalha formas, desejo e paixão – algo particularmente visível nos êxtases. Procuro refletir essa mesma sensualidade ao representar plantas que, de certa forma, também recorrem a essas forças para se reproduzir: a flor, por exemplo, existe para atrair; o botão carrega uma qualidade sensual, assim como as cores surgem para esta função.
MT: Acho que esse termo funciona muito bem para o teu trabalho, especialmente se pensarmos que a escultura barroca tem uma dimensão teatral muito forte. Vejo isso nas tuas peças: há sempre movimento, tensões, deslocamentos e interações entre elas.
FT: Este é outro aspeto que aproxima o meu trabalho ao barroco. Por exemplo, para
uma das esculturas que apresentei para o Prémio EDP Novos Artistas 2025 fui buscar inspiração numa escultura barroca bem teatral, O Rapto da Proserpina de Gian Lorenzo Bernini, na qual retrata o momento exato em que Plutão agarra na Prosérpina e ela se transforma em árvore. O que mais me interessava era a composição da escultura, não o mito em si. Encontrei esta referência pensando no sci-fi barroco.
MT: Essa escultura do Bernini, na qual vemos Prosérpina como um híbrido entre árvore e humano e que nos apresenta a natureza como um refúgio frente ao perigo, conecta-se particularmente a ideias que associo ao Baile dos Bugalhos.
Falando agora da exposição, achei interessante como alguns elementos refletem o espírito de colaboração da história que conta – penso na curadoria coletiva de alunos da Universidade Católica e no carácter «aberto», em que vais acrescentando peças e intervenções ao longo do tempo. Podes falar um pouco sobre essa dimensão coletiva e aberta do projeto?
FT: O projeto é colaborativo em vários níveis. Existe uma parceria entre o CAM e a Universidade Católica, em que um grupo de estudantes cuidou da curadoria da exposição, acompanhou o processo, participou na montagem, trouxe ideias para o programa público e até escreveu histórias para cada peça, dando voz às personagens.
Além disso, a exposição inaugura a programação do Institution(ing)s, um projeto europeu que reflete sobre o futuro das instituições. Como as exposições neste espaço têm um carácter mais laboratorial, não faria sentido apresentar algo tradicional e fechado. A minha ideia foi incorporar o conceito de transformação do meu trabalho na própria exposição, criando um espaço onde estarei a trabalhar. Quis mostrar parte desse processo transformador da cerâmica – que muda de forma, cor e consistência, algo que normalmente não é visível ao público.
O resultado é uma exposição em constante metamorfose: algumas peças serão cozidas durante a mostra, outras vidradas, e algumas ainda estarão em processo. O público poderá acompanhar momentos de criação acontecendo dentro da própria exposição, tornando-a dinâmica e viva, assim como o meu trabalho.