Mirna Bamieh: «Os traços efémeros das receitas, canções, ou o aroma de um limão são o sopro da história, não as suas notas de rodapé.»

Francisca Portugal 30 abr 2025 6 min
Francisca Portugal entrevista a artista Mirna Bamieh a propósito da conversa «Desde o Intestino: Comida, Poder e Lugares de Resistência» e do workshop «Sour Things – The Workshop», que foram apresentados no âmbito da iniciativa «Institution(ing)s».

«Institution(ing)s» resulta de uma colaboração entre a Universidade Católica Portuguesa (UCP), o CAM e outras sete entidades onde se incluem instituições, residências e universidades. Coordenado pela curadora Luísa Santos da UCP, esta é uma plataforma que visa aproximar a academia do contexto artístico, promovendo uma participação mais ativa e direta na programação das entidades que a constituem. «Institution(ing)s» propõe uma reflexão sobre a reestruturação do sistema institucional, defendendo maior acessibilidade e inclusão, bem como um posicionamento mais sustentável a nível social, económico e ambiental a longo prazo.

Foi neste contexto que a artista palestiniana Mirna Bamieh foi convidada a apresentar alguns dos seus últimos projetos numa intervenção a que chamou «Desde o Intestino: Comida, Poder e Lugares de Resistência» e a conduzir o workshop «Sour Things – The Workshop».

«Enquanto artista vejo os projectos participativos e socialmente ativos como fundamentais para o impacto do meu trabalho. Permitem que este tenha uma ressonância mais profunda. O meu objetivo é sempre criar pequenas mudanças, suscitando a reflexão sobre questões negligenciadas ou reenquadrando-as através de uma nova perspetiva.»

A prática de Bamieh centra-se na conceção de modelos de investigação comunitária, explorando as dinâmicas políticas e sociais contemporâneas. O seu trabalho manifesta-se na criação de espaços e performances participativas, nas quais combina várias técnicas multidisciplinares. Atualmente, foca-se sobretudo em instalações que integram componentes de cerâmica, vídeo, som e escultura, criando cenografias que evocam um universo próprio, simulando ambientes domésticos como a mesa de jantar, a cozinha ou a despensa.

Este caráter imersivo desafia o público: para captar a essência dessas narrativas é preciso deslocar-se, descobrir os múltiplos significados dos objetos, das palavras e até dos ingredientes que dispõe nas suas peças. «A forma como as pessoas se movem nas minhas instalações é intencionalmente coreografada», explica a artista. « Estou a tentar comunicar algo específico, mas através de uma linguagem que convida à fuga emocional. Ofereço múltiplos vocabulários (visual, espacial, sensorial) para que cada visitante os possa interpretar através da sua própria experiência. A abundância de elementos é deliberada: cada um deles abre um espaço psicológico diferente dentro da instalação.»

Durante as sessões tive a oportunidade de contactar de perto com o trabalho da artista, pois esta apresentou o seu portefólio, e os seus projetos recentes e experiências em residências. Abordou em detalhe as suas iniciativas de envolvimento comunitário, como as «Potato Talks», que foram encontros em espaços públicos que estimulavam uma conversa à volta de um tema em particular, e os jantares imersivos que organiza através da sua plataforma, a Palestine Hosting Society. O workshop, por sua vez, reuniu cerca de 25 pessoas e tinha por objetivo preparar um condimento de limão fermentado, algo que faz parte de um conjunto de instalações e performances participativas. «Em Sour Things são normalmente os processos e os temas que são amargos. Não são doces. Mas depois, abro esse azedume, procuro nele sabedoria e lições, e partilho-as.»

O grupo reuniu-se na sala do Serviço Educativo do CAM, onde uma longa mesa exibia os ingredientes e utensílios necessários. «Gosto muito desta receita porque ocupa o espaço», afirmou Bamieh, explicando que os aromas e texturas criam um ambiente envolvente. «Temos os cheiros do limão, das especiarias, e enquanto trabalhamos com eles, discutimos questões mais pessoais que são orientadas através de um conjunto de perguntas durante o workshop. É um cenário muito simples, mas baseado no exercício da escuta profunda.» E bastaram poucas etapas – cortar os limões, descascar a curcuma e o alho, picar a malagueta e misturar azeite e especiarias – para que a sala assumisse a atmosfera de uma cozinha familiar e uma informalidade inesperada nesta situação.

Esta dinâmica acabou também por simular o próprio processo de fermentação, uma metáfora para a mudança e a adaptação que a artista vê como uma ferramenta de análise. «Quando trabalho com fermentação, estou interessada na forma como o momento presente está a ser registado. Através da fermentação, tento aceder ao presente para o transformar – para limpar os sentimentos claustrofóbicos que o podem tornar inabitável. A fermentação, com todas as suas bactérias e processos lentos, torna-se uma fonte de esperança. É uma forma de contrariar a sensação sufocante de estar preso num tempo em que parece não haver ar, nem movimento, nem futuro para imaginar». E a artista termina com uma frase poética: «Estamos sempre a fermentar, como pessoas, como culturas. Tudo está em fluxo. Tudo está a mudar, a transformar-se, a evoluir”»

Terminamos a nossa conversa, e reparo que o cuidado de Mirna pelo uso de certas palavras foi tocante. A certo momento pergunto-lhe se considera estas práticas, e o seu interesse por documentos ou testemunhos não oficiais, uma forma de registo da história. A artista corrige-me ao explicar: «Não se trata apenas de registar a história, trata-se de a processar. Os eventos acontecem, mas a forma como os interpretamos, digerimos e recordamos raramente é historicizada. É por isso que acredito que as receitas, as canções e as práticas orais são importantes, pois guardam a memória que as histórias oficiais muitas vezes ignoram. Os traços efémeros das receitas, canções, o aroma de um limão ou os óleos das especiarias aquecidas são o sopro da história, não as suas notas de rodapé. São uma forma de relembrar através das nossas mãos, línguas e lágrimas. Ao levá-los para a frente, não nos limitamos a preservar o passado, fermentamo-lo em algo novo. Cada ato de recordar torna-se um ato de imaginar, uma sucessão silenciosa que recusa a tranquilidade, insistindo que o que foi continua a viver através do que fazemos, partilhamos e transmitimos.»

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