Didier Fiúza Faustino: «Como é que fazemos um espaço que nos suga?»
Maria João Teixeira: O design da H BOX remete a algumas referências visuais de universos de ficção científica. Por exemplo, em 2001: Odisseia no Espaço — as linhas da Discovery 1, o design da cápsula POD e até, conceptualmente, a ideia do monólito. Qual é a tua relação com a ficção científica?
Didier Fiúza Faustino: A minha relação com a ficção científica é muito forte. Faz parte das minhas referências, quer em termos de universo e histórias antecipadoras, quer em relação às formas propriamente arquitetónicas. Fui muito inspirado por vários autores, como Philip K. Dick, também por filmes, como, por exemplo, Blade Runner.
MJT: Gostas de Isaac Asimov?
DFF: Sim, Asimov! Dune, mas o livro! E até mesmo séries de ficção científica, como Cosmos: 1999. Cresci com esse fascínio! Sempre com o olhar voltado para o amanhã, e uma visão do presente sobre o que pode vir a ser o futuro. É uma linguagem que me interessa. E depois, as histórias. Recentemente, tenho pensado muito sobre as questões da linguagem. Villeneuve, por exemplo, tem um filme anterior à adaptação de Dune, chamado Arrival.
De certa forma, é uma ficção que se conecta com uma realidade que está a acontecer. Uma antecipação sobre os possíveis. O autor de ficção científica tem essa habilidade tecnológica. Mas, a minha grande referência continua a ser o Philip K. Dick. Ou o J.G. Ballard! Há toda uma série de autores que nos permitem visualizar outras formas. No entanto, isso tudo acabou por se tornar uma espécie de autorreferência.
Não era algo que tivéssemos presente quando eu era muito novo, mas quando surgiu Blade Runner… já não era uma antecipação de novas formas, mas uma reflexão sobre o contrário do que conhecemos. A cidade contemporânea que se transforma, ou que se contamina pouco a pouco. O próprio Dune, como pensado pelo Jodorowsky, também traz essa perspetiva. Para responder à tua pergunta, claro, tenho uma grande relação com a ficção científica!
MJT: Sou muito fã de 2001: Odisseia no Espaço, tanto pelas referências visuais quanto pela questão filosófica que o filme aborda. Para mim, foi inevitável a primeira vez que vi o design da H BOX, embora já tivesse visto os desenhos, foi ao ver a cápsula instalada que a conexão se fez imediatamente.
DFF: Essa é mesmo a palavra: cápsula. A ideia de cápsula, de ex nihilo, um objeto de interior, pensado para ser móvel e integrar coleções, museus, espaços públicos interiores de instituições. Foi pensado como um espaço institucional. A Fundação Hermès queria ter um espaço para exibir filmes e encomendas feitas a jovens autores, videoartistas, e ter um espaço dedicado a isso, mas sem que fosse apenas mais um espaço dentro de outro. Ou seja, criaram um espaço como um objeto.
MJT: O conceito de criar uma obra de arte que encapsula outras obras foi um briefing inicial ou foi algo que se foi estruturando ao longo do processo de traduzir a tua visão artística para algo físico e funcional?
DFF: Sim. Inicialmente, foi um briefing da Fundação Hermès, ou do diretor artístico, Pierre-Alexis Dumas. E esse briefing era pensar em como poderíamos criar um salão, um objeto, um espaço que pudesse ser deslocado para diferentes locais e projetar os filmes. Estava mais pensado como uma cenografia. A partir daí, avançamos para a ideia de um pavilhão, ou seja, uma arquitetura autónoma que se posiciona no lugar. Porque, na verdade, ele não foi feito para estar ao ar livre – porque ia chover lá dentro – mas podia perfeitamente ser. A ideia era que fosse um objeto autónomo, mais do que uma obra de arte. A verdadeira intenção era criar um pavilhão, que pudesse ser montado e desmontado em tempo recorde.
Em termos estéticos, ou da forma propriamente dita, e dos materiais, claro que remete para a ficção científica, ou para essa ideia de spaceship, ou do leme. O monólito menos. É mais o leme, o objeto, o satélite. Fiz uma consulta a vários artistas e criadores e, quando expus a minha ideia, referi-me mesmo à ficção científica – digressão, exploração espacial – à ideia de ter um satélite. E depois, a forma estética. Até pelos materiais, que eu acho que são os materiais que mais levam a pensar nisso, e um certo jogo sobre não tocar o chão – touchdown, mas sem ter fundações – e é aí que me remete para algumas imagens icónicas, ou iconográficas, da ficção científica. Mas depois as formas e os materiais têm a ver com questões acústicas. Por isso, a forma, o volume biseauté, também vem daí.
A primeira versão, quando foi desenhada, era mesmo um cubo flutuando sobre uns pés, com uma rampa. Mas depois começamos a trabalhar na forma e na abertura, porque havia duas questões em jogo: fazer um objeto que fosse aberto para o exterior, ou seja, que se pudesse ver a projeção de fora, ou que se percebesse o que é que está a acontecer ali dentro. Não era uma porta que se abria. Temos esta fachada frontal transparente, que dá para ver o que se passa ou perceber que algo está a acontecer lá dentro; e as formas propriamente cortadas, que têm a ver com o estudo acústico, para tentar ter uma maîtrise, conter o som no espaço. Depois, em termos de desenho, o leme, o objeto que pousa num território. Foi aí que surgiu rapidamente a ideia de alguns pormenores, como a forma dos pés, entre outras coisas.
MJT: É percetível que a H BOX é um objeto que tem formas geométricas marcantes e atenção meticulosa aos detalhes técnicos. Houve alguma inspiração em linguagem arquitetónica ou movimento de design específico ao criar a peça?
DFF: Eu diria que o trabalho do Kaplický e do estúdio Future Systems. Fui muito inspirado pelo movimento da arquitetura-máquina, que ainda existe. A Future Systems, essa high-tech dos anos 70/80. Era um movimento muito forte, que misturava tecnologia com arquitetura, e faz parte das minhas referências. De certa forma, também tinha a ver com um dos requisitos do caderno de encargos, que era a desmontabilidade e remontabilidade.
Isto andou muito. Foram quase cinco anos de viagens, portanto a abordagem foi puramente técnica, de leveza, resistência, materiais. Mesmo sendo um material super leve e resistente, há sítios onde tudo o que encaixa são componentes que, supostamente, conseguem aguentar 20, 30, 40 montagens. Ela foi restaurada agora, porque houve um momento na vida dela em que fez o big tour do Japão aos Estados Unidos, passando por outros sítios. O projeto acabou num Centro. Esteve a viver num Centro, o FRAC, um museu francês, e depois foi emprestado, em residência, à escola de cinema do Fresnoy. E quando esses ciclos todos de vida terminaram, veio para Portugal, para o meu estúdio. Teve um ciclo de vida que acabou e agora começou outro com a nova versão do CAM.
MJT: Sabemos que a H BOX utiliza materiais de alta tecnologia, até ligados à engenharia aeroespacial. Como foi o processo de seleção desses materiais e de que forma acreditas que eles contribuem para a experiência imersiva da obra?
DFF: A questão é mais sobre a linguagem que esses materiais trazem. Poderíamos ter feito um templo grego desmontável, mas a preocupação seria encontrar materiais que permitissem essa manipulação. No caso da H BOX, os materiais de alta tecnologia incluem o alumínio, que foi escolhido pela sua densidade e leveza. O material aeronáutico que usamos foi o alumínio alveolar, o mesmo utilizado nas caixas de aviões e nas asas.
MJT: A ideia, então, seria combinar robustez, portabilidade e durabilidade.
DFF: Exato, leveza e segurança. E o que é interessante é que, no momento em que a obra foi concebida, não trabalhámos apenas com os materiais de construção, mas também com os materiais ambientais, ou seja, a qualidade do vídeo, a projeção, o som, tudo foi levado em consideração. Por exemplo, os altifalantes e o sistema de som foram feitos à medida, manualmente. O projetor que utilizámos era de última geração na época, um modelo enorme, porque estamos a falar de há quase 20 anos. Também desenvolvemos altifalantes baseados num modelo monocoidal, que permite que os agudos e os graves saiam do mesmo ponto. Tudo isso fazia sentido no contexto da época.
MJT: E hoje?
DFF: Vinte anos depois, quando reativámos este novo ciclo, todas essas questões foram revistas, porque a potência, a qualidade visual, a luminosidade do projetor – que era uma caixa de 40 kg – já não fazia sentido. A tecnologia evoluiu tanto, quer no som como na espacialidade do áudio, que tudo foi repensado em colaboração com as equipas do CAM. A forma, digamos, «platónica» da arquitetura da H BOX, o hexágono, ainda faz sentido, porque é funcional e a história por trás dela continua válida, mas os elementos de alta tecnologia – como o som e os visuais – já não são os mesmos. Tudo isso foi readaptado e alterado: agora o projetor é uma caixinha e o espaço que antes era ocupado por uma grande estrutura corresponde a algo muito mais simples.
MJT: De que forma o papel do artista e da obra de arte pode mudar? O que é que a tecnologia pode acrescentar neste momento?
DFF: A tecnologia é, acima de tudo, uma abertura de fronteiras. Sempre foi. De uma forma geral, cada nova ferramenta que surge, cada update, cada nova função disponível, expande as possibilidades do artista ou do criador, permitindo-lhe explorar novos territórios. É como um exoesqueleto – uma força aumentada, uma potência aumentada.
Outro dia refletíamos sobre o impacto da internet quando apareceu – era uma ferramenta completamente nova. É uau! Com novas possibilidades! Hoje fala-se muito da Inteligência Artificial e da questão da autoria, mas, no fundo, é mais uma ferramenta. Acredito que há um deslocamento interessante a acontecer. Se antes a tecnologia estava muito ligada a uma analogia com o corpo, agora está cada vez mais associada a uma ideia de colaboração e amplificação da mente. E isso é, para mim, uma mudança fundamental.
Talvez por isso Philip K. Dick seja tão fascinante. Na sua escrita, há antecipações e hipóteses que nos fazem pensar no real e no subrreal, na forma como a tecnologia pode materializar algo que antes era apenas conceito. Ele antecipa essa fusão entre o físico e o imaterial, o que é fascinante. Claro, como qualquer ferramenta, a tecnologia pode ser mal utilizada, mas não é isso que nos interessa aqui…
E é exatamente aí que quero chegar: à questão do uso consciente da tecnologia, de como se constrói e de como se utiliza sem ir contra. Porque, claro, a arquitetura pode ser um instrumento de poder e dominação. O limite entre estas duas dimensões – de proteção e de amplificação versus dominação e poder.
MJT: Sim, e também pode ser um meio de mediação, algo inteligente e equilibrado.
DFF: Exatamente! Aí é que está o jogo todo. Voilà!
MJT: Quais foram os maiores desafios técnicos ou conceptuais no desenvolvimento da HBOX? Alguma solução inovadora relacionada com arquitetura, materiais ou tecnologia surgiu desses desafios?
DFF: Não diria que houve uma inovação específica nesse sentido. O que foi realmente interessante no projeto foi a colaboração com empresas que, embora não fossem da indústria aeronáutica, trabalhavam para as Forças Armadas, produzindo contentores, máquinas e outros equipamentos. É uma indústria altamente avançada, e o grande desafio foi precisamente esse: conseguir entrar nesse meio, absorver esse conhecimento e aplicá-lo de uma forma completamente nova.
Enquanto artistas ou criadores, utilizamos frequentemente tecnologias que não foram desenvolvidas para a arte, mas que chegam até nós por outros caminhos. No caso da H BOX, colaborámos com empresas que nunca tinham trabalhado neste tipo de projeto nem colocado estas questões, mas que, no fundo, não estavam assim tão longe. Eu sempre tive muito interesse nas cabines de controlo da aviação móvel e em toda essa tecnologia militar e infraestrutural usada em campanhas militares – como se ocupa um território, como se deslocam estruturas, como se transportam materiais. Foi por aí que avançámos. O grande desafio, no fundo, foi convencer essas indústrias a trabalhar para um contexto completamente diferente.
MJT: De que forma a criação da H BOX influenciou o teu restante processo criativo? Ou seja, ao nível de arquitetura e design, ficou alguma influência deste para outros projetos?
DFF: A minha questão é sempre esta. O que aconteceu aqui foi o meu fascínio pela tecnologia, ciência e ficção. O grande desafio foi passar de algo que muitas vezes é visto como carton-pâte, do decorum, ou do c’est d’espace, ou ainda da decoração – tudo feito em cartão, bem pintado, à la Star Wars. Mas, na realidade, nas cenas, ainda não temos isso. Vai-se trazendo aos poucos, e é isso que se busca. O desafio era integrar essa compatibilidade entre as duas coisas: a plástica e a existência física.
O que é que isso me trouxe para o meu trabalho? Estamos a falar também de um momento iniciático na minha carreira, especialmente na minha primeira década de trabalho, mas já tinha esse fascínio. Talvez tenha sido essa capacidade de integrar outras tecnologias e saberes nos meus projetos que me fez ser escolhido para este. Não sei se foi a questão estética, mas o conceito do satélite e do objeto, com uma estética algo aérospatial, foi o que seduziu tanta gente-
MJT: Originalmente a peça nasceu em 2007, mas começou em 2005, correto?
DFF: Sim, 2005. Eu digo 20 anos porque a ideia inicial surgiu em 2005. E o projeto foi concluído um ano e meio depois.
MJT: Foi bem rápido! E ela já percorreu alguns continentes durante os últimos anos… E com a abertura do CAM, em setembro de 2024, ela retorna para um novo momento de ativação. Portanto, como é que analisas a exibição e receção da obra por parte do público neste novo contexto, em comparação com momentos anteriores em que foi concebida e exposta como, por exemplo, no Tate London, Centre Pompidou Paris, Art Museum Beijing, MUDAM Luxembourg, Musac León?
DFF: Eu gostei muito foi em Tóquio, em Yokohama, na Trienal de Yokohama, onde estava no terminal dos barcos, que era um sítio incrível!
MJT: E no contexto português, tiveste algum feedback, o que sentiste por parte do público? Ou até como associas este momento simultâneo de retorno da H BOX e do CAM?
DFF: Eu acho que tem que ver um bocadinho com o Benjamin Weil. Ele fez parte do projeto desde o início, ele era o curador, fazia as encomendas dos filmes. Ele participou muito neste processo. Eu acho que tem que ver um bocado com a direção, as opções que foram tomadas pela nova direção do CAM. A receção… Toda a gente me diz que é fantástico! Espetacular! Que é um sucesso porque as pessoas vão lá, não sabem o que é, e eu acho que tem muito que ver com o facto de ser na entrada, e ser uma peça open space, ou free access.
MJT: É bastante único no contexto português.
DFF: De certa forma, acho que isso tem a ver com a evolução do cosmopolitismo em Lisboa. Quando a H BOX foi criada, Lisboa ainda não estava no mapa. Acho que isso tem mais a ver com uma questão geopolítica, onde o centro de gravidade se deslocou. Naquela altura, Lisboa não tinha tantos projetos deste tipo, ao contrário de muitas cidades no exterior.
Isto é um objeto meramente urbano. Vamos falar um bocadinho do que é a H BOX propriamente. A H BOX pouco importa, é um objeto, é uma cabine, é um pavilhão, e é um objeto, é uma proposta para um espaço público, de uma forma aberta. Será que um museu é um espaço público? Sim. É, pelo menos, muitas vezes isso. E, portanto, é um objeto, uma cabine, um pavilhão, um momentum que se instala de forma breve ou um bocadinho mais prolongada num espaço público, e está a ser usado de forma pública, sem controlo, e que traz uma experiência, something else. Essa experiência é o acesso a uma forma de projeção para partilhar, é um espaço aberto, num espaço público, é um cinema portátil, é um ecrã portátil sem controlo à porta. Ou seja, não se paga, é uma forma aberta. Isso tem a ver com a experiência.
MJT: Democrático também.
DFF: É. Eu estava a falar da questão pública, e penso que tem a ver com a receção de um objeto ou espaço como o que temos aqui, aberto ao uso. Estamos no Jardim, e o que traz esta nova forma arquitetónica? É este entre-lugar… um espaço de proteção aberto à apropriação individual. Que é a questão própria que o espaço público supõe, de uso coletivo e pessoal. Esse equilíbrio é o que acho interessante e está no DNA da H BOX.
Em relação à receção em Lisboa, é semelhante à de outros locais. Quando um espaço público oferece algo para ser apropriado, as pessoas vão logo utilizá-lo, porque é isso que o espaço público faz: convida à experimentação, a viver uma nova experiência ou situação. Como essas cadeiras que estão aqui, espalhadas randomly, o que as pessoas fazem?
MJT: É um convite.
DFF: É um convite! Não está escrito em nenhum lugar, mas elas usam! Elas posicionam-se, sentam-se ao sol, ajustam-se. E a HBOX, da mesma forma, é uma porta aberta. Não é bem um «frame», mas é um portal aberto! Passar por uma porta é atravessar um limite, é o limiar.
MJT: Um portal, quase como uma entrada para outra dimensão.
DFF: É outra dimensão, aí está. E essa falta de controlo é precisamente o que lhe dá força. É um objeto para o espaço público, para ser utilizado e partilhado. E, portanto, nesse ponto de vista, diria que o sucesso do objeto é ser o que é, e que funciona sempre: coloca-se num espaço público e transforma-se num objeto do qual o público se apropria.
MJT: Para finalizar, existe algum tópico que não tenha sido abordado e que gostasses de explorar?
DFF: Talvez o que não mencionei ainda seja a ideia do objeto estar em contacto com o chão de uma forma muito circonscrite, o que transmite a sensação de um objeto em trânsito, que pousa e depois se vai embora.
MJT: O objeto quase levitando.
DFF: E do abrigo, mas um abrigo aberto. Threshold, o limiar, entre um interior e um exterior, um limite virtual, isso é muito importante. A proteção também.
MJT: A imersão também.
DFF: O jogo de imersão. Voilà! E, provavelmente, nesta questão mais global, as referências que eu estava a mencionar primeiro sobre a arquitetura-máquina, que tem a ver com essas questões de articulações, que seria uma arquitetura que não seria estática, mas em movimento, nómada.
Estávamos a falar de quem escreveu o filme Contacto; e sobre um autor que era um autor chinês [Liu Cixin], que tem uma história fantástica sobre as linguagens. E eu acho que aqui havia também algo, uma cabine de imersão, que tem uma linguagem, em termos de design, tão arquetipal que não há identidade. Portanto, vem da tecnologia, é uma estética da tecnologia, ou da ficção científica, de spaceship. Portanto, é uma forma de linguagem, e por isso estava a falar dessa ficção e dos autores: K. Dick e gosto muito de Ballard, que não escreveu formas de ficção científica, mas de uma certa maneira…
MJT: Bem, mas o que é que pode ou não ser científica, não é?
DFF: Sim! Cronenberg, talvez tenha um bocadinho a ver, ou até… havia uma cena gira de um filme do autor de Blue Velvet [Veludo Azul], que faleceu.
MJT: Lynch?
DFF: David Lynch! Há uma sequência que eu acho completamente ficção científica, ou pós-natural, corpo-máquina, ou arquitetura-máquina, mas tem mais a ver com o medo, os initial fears, ou deep fears, e acho que é em Lost Highway [Estrada Perdida]. Há uma cena onde o protagonista entra num corredor, e são aqueles segundos em que se avança e, pouco a pouco, a escuridão vem, como se fosse ser sugado no tempo. Todo o trabalho de desenho foi nessa linha, e um dos motores iniciais era esta ideia: como é que fazemos um espaço que nos suga?