H BOX

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A H BOX recebe pela primeira vez um ciclo de filmes da Coleção do CAM de uma grande variedade técnica e temática, selecionado pela curadora do CAM, Leonor Nazaré.

Cada um dos 14 filmes aqui reunidos é relacionável com os núcleos em torno dos quais se estrutura a exposição Xerazade, a Coleção Interminável do CAM, patente na Galeria da Coleção.

Esta seleção de obras da Coleção do CAM propõe uma grande diversidade técnica e temática: o filme de carácter documental, a ficção assumida (em animação ou convencional), o filme restringido a cenografias construídas, o filme de montagem complexa, com sobreposições e colagens de vários tipos de imagem, o registo de uma ação performativa, ou a simples experimentação de efeitos óticos.

Concebida pelo artista e arquiteto franco-português Didier Fiúza Faustino, a H BOX é uma sala de projeção móvel que viaja por museus, bienais e festivais. Chegou ao CAM em 2024, trazendo um novo espaço dedicado à videoarte.

«Jeux…», de Ana Léon

1998
Super 8 transferido para formato digital, cor, som, 5’52"

A partir de meados dos anos de 1990, o trabalho de Ana Léon é realizado sobretudo em desenho e em filme de animação em Super 8, preterindo a anterior pintura e /ou escultura. A ideia de metamorfose e de animação passa a presidir a todos os filmes que realiza a partir daí.

Em Jeux, de 1998, uma ou duas bailarinas sem cabeça fazem gestos diante da barra e de um espelho até colocarem a sua própria cabeça, inicialmente ausente, sobre o pescoço.

Marcados pelo sentido lúdico, muitas vezes irónico e cínico, e por uma ostensiva simplicidade de meios, os filmes valorizam a figuração e a progressiva destruição das figuras, a narrativa e a repetição, o anonimato na elisão do rosto e a estranheza dos movimentos intermitentes e da desarticulação. A iluminação, a coreografia e a dinâmica global adquirem valor cénico importante.

«(un)childhood/(a)infância», de Maria Lusitano

2015-16
Vídeo, HDV, cor, som, 53'05"

Este trabalho adota e mistura as linguagens do cinema experimental e do cinema documental. É o resultado de quatro anos de colaboração artística com crianças e adultos que conversaram sobre memórias de infância, conceitos de parentalidade/paternidade e maternidade, desejos e sonhos. Uma das crianças é o filho da artista, Mateus. 

O filme inclui um antigo arquivo de família de filmes em Super 8 e de fotografias, excertos de filmes de ficção vistos pela artista na sua infância e excertos de um vídeo-arquivo feito em 2011 por Mateus, para o seu canal de música do Youtube.

O filme interpreta e constrói a infância como resultado de diversas vozes incorporadas e como reencenação dos tempos, e convida o espectador a participar nesse processo; sugere que a infância é um processo ativo materializado através dos corpos e do uso da linguagem; e reflete acerca da consciência das relações, da memória e do tempo.

«Ilhas Afortunadas: aforismos sobre a emergência de um mundo aparentemente contínuo», de Susana Gaudêncio

2016
Animação-vídeo, som, 13'58"

Esta animação-vídeo explora a caminhada como método ancestral de viagem que catalisa o conhecimento, a crítica e a criatividade; e ainda o conceito de insularidade enquanto desejo, utopia, autonomia ou refúgio.

Em Ilhas Afortunadas, ouve-se uma narradora em voz off – a da artista, que faz uma caminhada na cidade do Porto. Como um livro de bordo, a animação-vídeo assinala pormenores do que observa, dos locais que visita, bem como inúmeras reflexões sobre as ilhas do Porto (tipologia insalubre de casa urbana), as ilhas na Europa, o mito das ilhas afortunadas e do Quinto Império Português (Fernando Pessoa), as ilhas utópicas, as do turismo e as dos refugiados.

Este vídeo contém cenas que podem não ser adequadas a todos os visitantes.

«Lancelot», de Jan Fabre

2004
Filme 16 mm, transferido para DVD, cor, som 8'16''

Resultado de uma performance filmada de quatro horas, este filme apresenta planos captados através de steadicam e de câmara suspensa num guindaste. Num espaço escuro, uma figura humana (o próprio artista) debate-se numa luta simulada, de armadura e espada. Este confronto de inspiração romanesca tem como protagonista a célebre figura de Lancelot, um dos cavaleiros do Rei Artur.

A estrutura sonora do filme é um elemento-chave da composição: o som da respiração ofegante do artista e o som de gotas de água sugerem frio, desconforto, cansaço e desespero. A luta contra um opositor imaginário é talvez contra si próprio, segundo o artista.

A alegoria do confronto é representada no limite da sua possibilidade expressiva: com gritos e suor, quedas e recomeços, escuridão e restrição espacial, vontade e perda, forte fisicalidade, mas também intenso movimento interior. O guerreiro combate um inimigo invisível, dentro do seu «Graal», recreado a cinzento-escuro de metal e pedra.

«Golden Dawn», de Salomé Lamas

2011
HD vídeo, 16:9, cor, Dolby 5.1, som, 10’

Tendo o Mar do Norte como pano de fundo e uma das mais duras profissões de que há memória, Golden Dawn é um filme feito num barco de pesca: com imagens da água e das luzes na noite escura, com as cores vivas das vestes de plástico, das redes que são lançadas e recolhidas, das caixas de peixe com gelo, amanhado ou não, das boias que marcam trajetos no mar.

Na ausência total de palavras, neste documento sobre a vida dos pescadores holandeses, são os planos fotográficos que preenchem o espaço de uma vaga tensão performativa e narrativa; a música de Felipe Felizardo e o título do filme (nome dum partido neonazi grego, mas também de uma sociedade secreta dedicada ao hermetismo) acentuam essa tensão para lá daquilo que as imagens fazem prever.

«The Untroubled Mind», de Manon de Boer

2013-16
16 mm transferido para vídeo digital, cor, sem som, 7'39''

Realizado em 2016, este filme é um ensaio sobre o jogo, a experimentação e a criatividade na infância, que mostra construções lúdicas do filho da artista filmadas ao longo de um período de três anos. Foi apresentado na exposição Downtime / Tempo de Respiração (2020), no Espaço Projeto do CAM.

Na prática artística de Manon, a experiência do tempo é profundamente ancorada nas condições da criação, produzindo incessantemente presente e presença e resistindo a uma conceção normativa do tempo regido pelo trabalho. Manon procura dar resposta – ou dar imagem – ao momento em que a criatividade irrompe e se manifesta, num tempo suspenso e liberto, cheio de potencialidades.

O título é dado por um excerto do livro Painting, Writings, Remembrances, de Agnes Martin. Manon convoca adolescentes para um jogo de (des)construção e descoberta interna, propondo exercícios improvisados de movimento, com ligações à dança.

«S/Título», de António Palolo

1972-76
Vídeo, cor, sem som, 4'14''

Como figuras de fractais cristalizados, surgem, neste filme, bolas de sabão acolhidas num espaço redondo e iluminadas em grandes planos do seu fazer e desfazer. Cintilam, escorrem, juntam-se em cachos, em espuma azul que se espalha. Sucedem-se imagens de um braço, de luzes, de tentáculos, da sucção das bolhas por um cano e de diversos planos microscópicos. Seguem-se formações em espinha, plasmas, cintilações…

«Left (L)overs», de Rui Calçada Bastos

2004
Mini-DV, cor, som, 13'

Left (L)overs, de 2004, apresenta, de forma metafórica e coreográfica, uma tentativa de libertação de memórias: uma personagem masculina, de costas voltadas para nós, tira o pó de cima de um casaco que tem vestido, ao bater com alguma violência num e depois no outro ombro, enquanto o gesto é acompanhado por um som semelhante a um disparo.

A negação do autorretrato assim encenada, porque não vemos o rosto e nada sabemos para além da repetição de um gesto e de um título ambíguo que designa em simultâneo o amor e os despojos é, também, a proposta de outra forma de autorrepresentação: um grande plano que retira da escala e da sóbria imponência da figura o sentido trágico e anónimo da sua angústia.

«Uma Lulik (A Casa Sagrada)», de Victor de Sousa

2010
Vídeo, cor, som, 52’

Este filme esteve integrado na exposição de Narelle Jubellin, no CAM em 2012, por iniciativa da artista.

Inicia-se com um ecrã apagado enquanto o narrador fala. Victor Sousa filma todo o processo de construção de uma casa sagrada pela comunidade, na região montanhosa de Venilale, em Timor-Leste. O filme documenta o dia-a-dia dessa construção, desde as refeições destinadas aos que trabalham no meio das montanhas, às cenas em que eles são vistos a cortar ramos de palmeira, a fazer paredes, tetos e olaria.

O narrador apresenta «Uma Lulik» como o cordão umbilical entre o passado e o presente, a vida quotidiana e a tradição; para os vivos, é um recipiente seguro de memórias e sabedoria do passado, e para os mortos é um lugar intemporal, onde a história é constantemente renovada. O narrador prossegue, explicando que a construção da casa sagrada ocorre normalmente a cada 10 ou 20 anos.

«Khtobtogone», de Sara Sadik

2021
Vídeo HD, cor, som, 16’10’’

Khtobtogone é o retrato íntimo de Zine, um homem de 20 anos em busca de se tornar a melhor versão de si mesmo, antes de pedir a namorada em casamento. Khtobtogone descreve o seu quotidiano, a sua história de amor e as suas amizades, bem como as atribulações emocionais, os tormentos e os demónios interiores que tem de gerir continuamente para recuperar a autoconfiança e a autoestima.

A técnica da animação desta ficção em filme contribui para atribui-lhe a natureza intemporal própria da fantasia ou do sonho.

«Hypnotic Suggestion 505», de Jane & Louise Wilson

1993
Vídeo, cor, som, 18’8’’

Hypnotic Suggestion é também o nome de uma série fotográfica e de uma instalação das artistas, destinada a ser apresentada em conjunto.

No filme, as duas artistas são hipnotizadas em inglês, e de seguida em português, uma língua que nenhuma delas entende, num espaço de palco que evoca o ambiente de um teatro ou de um cinema. O hipnotizador pede-lhes gestos a que elas respondem, de acordo com as instruções. Os movimentos das irmãs gémeas são também praticamente sincronizados.

«Mulheres d'Apolo», de Vasco Araújo

2010
Vídeo, cor, som, 18’ loop

A luxúria das cores e dos tecidos, num local onde impera o kitsch e a convenção (filmado na escola de danças de salão em Lisboa, «Os Alunos de Apolo»,) e apesar do ambiente festivo, serve a função de máscara de todas estas personagens: todas representam papéis sexuais, afetivos e sociais, todas dançam para conhecer alguém, para ser alguém junto de alguém, para participar numa ficção que as faça sonhar.

Os clichés morais e emotivos são ditos por gestos e palavras que um ponto de vista muito focalizado e com preferência pelo pleno aproximado sublinha na sua estereotipia. A mitologia clássica surge em pano de fundo, a dar ainda mais substância encantatória a cada sonho. A espera é a condição mais permanente de cada uma; são sobretudo elas que esperam…

«Two Sculptures Quarreling in a Hotel Room», de Gabriel Abrantes

2020
Vídeo HD, cor, som stereo, 1’00’’

Num quarto modesto de hotel, um «casal» muito peculiar, troca acusações motivadas pelo ciúme. Ela é uma estátua clássica de pedra branca, ele um minúsculo hipopótamo de cerâmica azul, que cabe na palma da sua mão.

Ele terá sido visto a conversar com uma estatueta votiva de arte cicládica, ela a conversar e/ou flirtar com uma representação esculpida do deus Hermes.

A técnica sofisticada de animação que Gabriel Abrantes tem utilizado em filmes mais recentes volta a sublinhar, aqui, a irrisão de sentimentos e emoções mais comuns, o humor com que encena conflitos tão banais quanto universais, a apropriação singular que faz de obras clássicas do mundo mais tradicional da arte e dos museus, a projeção anímica que torna seres inanimados personagens de consciência e linguagem.

Antes de sair do quarto, a personagem feminina pega num livro que pousou na cama. Tudo fica «escrito na pedra», apesar de nada ser realmente importante.

«À espera (versões 2, 3, 4)», de Cristina Mateus

2010
Vídeo, cor, som stereo, 18’02”

A artista espera pela inspiração, que tarda em chegar. No ateliê vazio, entra e sai batendo a porta, compulsivamente, sem que nada aconteça. O despudor com que se refere ao seu próprio vazio interior é também um grito de alerta. A expectativa da criação torna-se o assunto da própria criação, numa espécie de exorcismo das forças de bloqueio. As portas que se abrem e fecham sinalizam uma inquietude interior, uma impossibilidade de fixação, uma procura feita de tentativas e desistências.

Mas o momento do ateliê vazio faz parte da experiência de todos os artistas. Simboliza a possibilidade de tudo, o começo, a criação potencial.


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