Lucas Debargue

Pianomania

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Quando Lucas Debargue se revelou ao mundo em Moscovo em 2015, Olivier Bellamy, no site Huffington Post, não poupou nas palavras: “Não houve qualquer outro pianista estrangeiro a causar tamanha comoção desde a chegada de Glenn Gould em plena Guerra Fria ou desde a vitória de Van Cliburn no Concurso Tchaikovsky.” Antes de atuar com a Orquestra Gulbenkian nos dias 7 e 8 de outubro, Debargue apresenta-se em recital com um programa inteiramente dedicado à música francesa.


Programa

Lucas Debargue* Piano

Gabriel Fauré
Barcarolle n.º 3, em Sol bemol maior, op. 42

Composição: 1885
Duração: c. 7 min.

Na passagem do séc. XIX para o séc. XX, a produção pianística de Gabriel Fauré desenrola-se num período em que se processam mudanças na linguagem musical de forma particularmente rápida. Assim, ao longo de quarenta anos, sensivelmente de 1881 a 1921, a sequência das suas obras para piano exibe uma notória evolução, desde a elegância dos primeiros Noturnos e Barcarolles, até uma expressividade mais introspetiva nas últimas obras. Figura de destaque da música francesa, a par com Claude Debussy, Fauré conseguiu criar uma linguagem eminentemente pessoal, de onde sobressai uma peculiar riqueza de invenção melódica e uma originalidade harmónica que influenciou muitos dos seus contemporâneos.

Fauré compôs a sua primeira Barcarolle (op. 26) em 1880, dando início a um conjunto de treze curtas peças para piano que alternaria com a composição de igual número de Noturnos. Mais animadas, mas menos elaboradas do que os Noturnos, as primeiras Barcarolles de Fauré desenrolam-se em atmosferas serenas, revelando traços graciosos e encantadores e uma grande fluidez instrumental. A Barcarolle n.º 3, op. 42, composta em 1885, foi dedicada a Henriette Roger-Jourdain, mulher de um amigo de Fauré, o pintor Roger-Joseph Jourdain. A peça inicia-se com um a frase simples, mas impetuosa, sobre a qual é elaborada, em seguida, uma textura de trilos que remetem para Chopin. A secção central usa delicados ornamentos em arpejos, movimentos ondulantes e escalas que progridem em direção a um ponto culminante. A terceira secção da peça repõe um ambiente mais pausado, regressando ao espírito inicial e desvanecendo-se na distância.

 

Maurice Ravel
Sonatine
1. Modéré
2. Mouvement de menuet
3. Animé

Composição: 1903-1905
Duração: c. 13 min.

A Sonatine para piano é uma das obras representativas de uma tendência neoclássica em Maurice Ravel. O 1.º andamento foi concebido inicialmente para um concurso promovido por uma publicação periódica, mas seria desclassificado por conter mais compassos do que o permitido. Os andamentos restantes seriam completados apenas dois anos mais tarde e a estreia da obra ocorreria em Lyon, em março de 1906, por Mme. Paule de Lestang, e pouco depois em Paris, por Gabriel Grovlez, tendo rapidamente adquirido grande popularidade. Trata-se de uma peça que se insere ainda no período formativo inicial do compositor, com as suas sonoridades fluidas, brilhantes e coloridas. É uma obra extremamente requintada que constitui uma homenagem à música de finais do século XVIII. O seu título refere-se apenas à sua dimensão modesta, e não a qualquer simplicidade em termos técnicos ou interpretativos.

O 1.º andamento, Modéré, em Fá sustenido menor, é uma forma sonata que abre com um motivo doce e expressivo de 4.ª Perfeita descendente, o qual será objeto de variações e transformações nos andamentos seguintes, assumindo-se como um elemento unificador. Surge um segundo tema igualmente expressivo, agora em torno de Ré Maior / Si menor, e após a excitação alcançada na secção de desenvolvimento, a atmosfera inicial é recuperada. O 2.º andamento, Mouvement de menuet, é uma peça simples, em Ré bemol maior, que evoca o antigo minuete, com o seu caráter elegante e gracioso, mas sem o tradicional trio. As suas inflexões modais recordam o Menuet antique, composto dez anos antes. O motivo de abertura da Sonatine, a 4.ª Perfeita descendente, surge aqui invertido numa 5.ª Perfeita ascendente que marca o tema principal. Por fim, o 3.º andamento, Animé, novamente em Fá sustenido menor, é uma tocata tecnicamente bastante exigente, herdeira das tocatas dos cravistas franceses do século XVIII. O motivo de 4.ª Perfeita ascendente surge recorrentemente sob a forma de um toque de trompas, marcado e incisivo, seguindo-se outro de caráter mais expressivo. A elaboração do material temático segue mais uma vez a estrutura da forma sonata e o andamento conclui com um crescendo brilhante.

 

Gabriel Fauré
Ballade em Fá sustenido maior, op. 19

Composição: 1877-1879
Duração: c. 14 min.

Considerada por Franz Liszt, numa primeira apreciação em privado, como uma peça “muito difícil”, a versão para piano solo da Ballade op. 19 de Fauré seria o ponto de partida para uma versão definitiva para piano e orquestra que o compositor concluiria em 1881. Composta entre 1877 e 1879 e dedicada a Camille Saint-Saëns, a peça para piano solo é dividida em três secções, plenas de charme e fascinação, pontificando uma atmosfera sonora predominantemente melancólica e introvertida. Embora próxima da serena poesia dos Noturnos de Chopin, o discurso musical inclui momentos de contraste e de profunda agitação. A obra começa com um tema etéreo em andante cantabile, a que se segue um crescendo de intensidade e um desanuviamento. Um tema contratante e uma construção rítmico-melódica e harmónica muito elaborada começam então a desenvolver-se, seguindo-se um longo e virtuosístico fluir musical e novas ideias temáticas. No final, uma combinação entre o segundo e o terceiro temas da peça conduz o discurso a um ondulante e delicado epílogo.

 

Maurice Ravel
Gaspard de la nuit
1. Ondine
2. Le Gibet
3. Scarbo

Composição: 1908
Duração: c. 22 min.

Depois de Maurice Ravel ter composto Mirrois (1905), uma das suas obras para piano mais marcadamente impressionistas, três anos se passaram até que escrevesse Gaspar de la nuit, aquela que é considerada como o apogeu da sua arte pianística e uma das grandes partituras para piano do século XX. Povoada por luxuriantes colorações e exotismos, na mais direta ligação à expressão poética, o conjunto de peças que formam o tríptico Gaspar de la nuit foi inspirado na leitura dos pequenos poemas em prosa do escritor romântico Aloysius Bertrand (1807-1841), completados em 1836. O autor dos textos relata uma série de surpreendentes visões e aventuras protagonizadas por um personagem cujo nome significa "Gaspar da noite" (em francês, Gaspard de la nuit).  Ravel, fascinado com a escrita fantasista e misteriosa de Bertrand, decidiu ilustrar musicalmente três poemas – Ondine, Le Gibet e Scarbo –, tarefa que empreendeu entre maio e setembro de 1908. A primeira execução pública teve lugar em Paris, a 9 de janeiro de 1909, na Sala Erard (Société Nationale de Musique) e a publicação verificou-se nesse mesmo ano. Na sua ilustração musical dos textos de Bertrand, que Ravel designou como "poemas para piano", o compositor pretende ilustrar o conteúdo dos poemas, tentando reproduzir fielmente cada texto. O primeiro andamento, Ondine, refere-se a um mitológico espírito feminino das águas (Ondina) que tenta seduzir um jovem e levá-lo para as profundezas de um lago. Le Gibet, em português, "O cadafalso", transmite uma atmosfera densa e desolada. Por fim, Scarbo é o nome de um veloz gnomo que aparece e desaparece na luminosidade sombria de um quarto. Scarbo é uma das peças mais difíceis do repertório pianístico.

 

Gabriel Fauré
Barcarolle n.º 4, em Lá bemol maior, op. 44

Composição: 1886
Duração: c. 4 min.

A Barcarolle n.º 4, op. 44, de Fauré, foi delicada à mulher do compositor Ernest Chausson. Em conjunto com as três peças congéneres que a precederam, pertence a um grupo expressivamente homogéneo e em que as semelhanças com as peças curtas de Chopin são ainda evidentes. Não obstante, a Barcarolle n.º 4 é uma página musical mais concisa e mais espontaneamente inspirada do que as três primeiras, anunciando já uma conceção mais complexa e um maior alcance expressivo, elementos que o compositor viria a desenvolver nas peças que se seguiriam.

Notas de Miguel Martins Ribeiro e Luís M. Santos (Sonatine)

 

Gabriel Fauré
Prelúdio n.º 3 em Sol menor

Stéphane Delplace
Prelúdio em Dó sustenido maior (do livro II, “Préludes et Fugues dans les trent tonalités”)

 

*Por motivos de saúde, Alexandra Dovgan será substituída por Lucas Debargue.

Este concerto será gravado pela RTP em parceria com a EuroArts Music International e transmitido em direto.


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