Novas vozes do cinema português em destaque na Gulbenkian
A mostra reúne o trabalho de oito jovens realizadores que participaram durante quatro meses numa residência intensiva no Porto, com acesso a tutores como João Canijo e Marco Martins, e encontros com cineastas de referência internacional. Além de proporcionar um espaço de aprendizagem técnica, o curso foi também uma oportunidade de experimentar, errar, testar linguagens e estabelecer redes de contacto com profissionais do setor.
Para Clara Jost, que vai apresentar a curta Felicidade numa Panela, a experiência ficou marcada sobretudo pela liberdade criativa: “Não era preciso ter já um projeto todo fechado para começar a filmar, e isso foi ótimo – gosto mais de trabalhar assim”. A realizadora foi filmando em diferentes momentos, ao longo de vários meses, e acabou por construir uma curta de teor documental, cruzando o cinema com artes visuais. “Comecei a filmar num apartamento, depois conheci um arqueólogo do Porto que me falou de uns vasos pré-históricos, e muito mais tarde fui a Castelo de Vide. Foi tudo filmado em momentos muito separados, de uma forma bastante intuitiva”.
Esta abordagem contrasta com a de Marta Sousa Ribeiro, que partiu para o projeto The Illusion Of An Everlasting Kiss com uma intenção muito clara: “Era uma ideia muito mecânica, muito prática – filmar a mesma ação a partir de três pontos de vista. Estava bastante definido desde o início, mas mesmo assim foi muito difícil, porque tivemos muito pouco tempo. Filmei no inverno, no Porto, e choveu quase todos os dias. Só tive um dia de sol e foram esses os takes que consegui aproveitar”.
Se para Jost o curso funcionou como um laboratório de descoberta, em que pôde explorar outras facetas do cinema como a fotografia digital, para Sousa Ribeiro foi uma prova de resistência. “Foi uma loucura. Meti-me numa alhada técnica, mas conseguimos concretizar o que parecia impossível. Para mim, foi uma aprendizagem muito grande: há filmes que parecem simples, mas são tecnicamente muito exigentes, e nem tudo pode ser resolvido de forma improvisada no set”.
As duas realizadoras partilham também a importância dos encontros com cineastas de referência nacional internacional. Clara recorda Atom Egoyan como uma inspiração inesperada: “Ele entrou logo na minha lógica de trabalho, porque também faz instalações. Quando lhe falei do meu filme, perguntou: ‘já pensaste em fazer uma instalação?’. Senti que estava mesmo a perceber o que eu queria fazer”. Já Marta destaca as conversas com Céline Sciamma, Lucrécia Martel ou Mariana Gaivão: “Foram encontros curtos, mas marcantes. Para mim foi transformador perceber que essas pessoas podiam olhar para mim como colega e não apenas como estudante”.
O impacto do curso no percurso de ambas vai para além do filme agora exibido. Embora nos dois casos tivessem já ligações familiares com o cinema – Clara é filha da realizadora Teresa Villaverde, e Marta do cineasta José Miguel Ribeiro –, sentiram que a iniciativa foi importante para encontrar o seu próprio caminho dentro do cinema.
A viver entre Tavira e Lisboa, Clara descobriu o gosto pelo ensino e pondera seguir um doutoramento em investigação artística, de forma a garantir mais estabilidade para continuar a fazer cinema ao seu próprio ritmo. Já Marta Sousa Ribeiro sente que ganhou confiança para assumir o cinema como profissão: “Já não estou na bolha de amadora, consigo falar com pessoas da área de outra forma. Foi um impulso para acreditar em mim enquanto profissional”. E acrescenta: “as instituições como a Gulbenkian são um espaço muito importante, porque ajudam os artistas a chegar a lugares a que sozinhos não conseguiriam, por isso estou muito grata”.
Os caminhos distintos das duas realizadoras cruzam-se agora em Lisboa, no Estúdio do CAM, juntamente com outros seis cineastas em ascensão. A mostra de curtas, nos dias 6 e 7 de setembro, em parceria com a Universidade Católica Portuguesa, dá palco a uma nova geração de cineastas portugueses, cuja energia e diversidade de abordagens promete renovar o panorama do cinema nacional.
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