6 Setembro 2019 Museu Calouste Gulbenkian

As escolhas da curadora: Sarah Affonso e a Arte Popular do Minho

Para a curadora Ana Vasconcelos, estas são as quatro peças que ajudam a entender melhor a exposição dedicada à pintora modernista Sarah Affonso.

Pendente, 2ª metade do século XIX © Palácio Nacional da Ajuda
Pendente, 2ª metade do século XIX © Palácio Nacional da Ajuda

Casamento na Aldeia

Esta é talvez a pintura mais conhecida de Sarah Affonso, emblemática da sua obra do final dos anos 1930.

Em primeiro plano vemos figuras de um casamento, com os noivos e os convidados, entre os quais o menino vestido “àmaruja” e a menina com um vestido de folhos. Este grupo poderia ser inspirado numa ilustração francesa – nele se entrevê a influência de Rousseau.

Além do arco de festa que forma o eixo central, a referência ao Minho acontece no plano intermédio pela representação dos bonecos de cerâmica, que formam uma pequena banda de músicos que marcham, e na parelha de bois (de barro) em frente da casinha branca.

Estes conjuntos sublinham, por um lado, a ocasião festiva e, por outro, o enquadramento rural da cena.

Figurado de Barcelos

O artesanato figurativo de Barcelos (também chamado figurado de Barcelos) saía de mãos anónimas de oleiros que fabricavam louças de barro e transformavam os excedentes em coloridos brinquedos, geralmente com um apito na base, que se vendiam nas feiras.

Antes de serem usados pelo Secretariado da Propaganda Nacional com fins promocionais, já tinham sido representados pelos artistas modernistas Eduardo Viana, Sonia Delaunay e Mário Eloy.

Sarah Affonso estaria consciente desta herança ao incorporar alguns bonecos mais representativos na sua pintura de finais da década de 1930.

Alminhas

Bordado feito a partir do modelo escultórico de umas «Alminhas» setecentistas existentes na rua da pensão onde Sarah Affonso e Almada Negreiros passaram a luade-mel, em Vila Praia de Âncora.

Muitas vezes associados a caixas de esmolas, estes quadrinhos piedosos rogam pela libertação das almas penitentes que são pesadas pelo arcanjo São Miguel.

Sarah era uma exímia bordadora, “bordava como pintava”, sem desenho prévio, e chegou mesmo a expor bordados juntamente com pintura e desenho em várias ocasiões na década de 1920.

Deixou registado que destes bordados de motivos religiosos, que a fascinavam desde criança, passou à fase mais conhecida da sua pintura, realizada entre 1936 e 1939.

Coração de Filigrana

A partir de meados do séc. XIX, o ouro popular português passou a integrar a vida das populações do campo, com especial relevância no Minho. Revestia-se de significado religioso e codificava estatutos sociais e económicos.

Um aspeto curioso deste tipo de ourivesaria traduziu-se no apreço que as elites rurais possuíam na sua utilização esporádica – sobre trajes regionais – em ocasiões festivas.

Sinónimo dessa prática é o coração de fina filigrana, decorado com uma roseta de esmalte e de grandes dimensões, tipologia fundamental da ourivesaria popular, que se crê ter sido usado pela rainha Dona Maria Pia no baile de máscaras do Palácio da Ajuda, em 16 de Fevereiro de 1865, para o qual se teria vestido de varina.

Sarah Affonso e a Arte Popular do Minho

Esta exposição explora a relação entre a obra de Sarah Affonso e a arte popular do Minho. Muitas vezes recordada como a mulher de Almada Negreiros, pretende-se aqui evocar Sarah Affonso como uma artista modernista reconhecida com um percurso próprio, de notável qualidade.

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Atualização em 10 Setembro 2019