2 Agosto 2019 Museu Calouste Gulbenkian

Convidados de verão. Joalharia Contemporânea em Portugal

Numa curta entrevista, a artista e investigadora Cristina Filipe, curadora desta edição, explica o conceito que esteve na origem do seu projeto.

Aspeto da exposição © Fundação Calouste Gulbenkian

Dezenas de joias produzidas entre 1958 e 2018, muitas delas inéditas, estão em exposição no Museu Calouste Gulbenkian até dia 16 de setembro.

Nesta mostra podem ver-se obras de artistas como Jorge Vieira, José Aurélio, Maria José Oliveira, Vítor Pomar ou Pedro Calapez, todos representados na Coleção Moderna, e também de artistas que marcaram a história da joalharia em Portugal desde a década de 1960, como Kukas, Alberto Gordillo, Tereza Seabra e Alexandra de Serpa Pimentel.

Esta iniciativa estende-se à sala Lalique da Coleção do Fundador, onde os diálogos estabelecidos prometem surpreender os visitantes.

Este é o terceiro momento de Convidados de Verão, uma iniciativa que propõe novas leituras das exposições permanentes do Museu Gulbenkian e que no ano passado teve como curador o cineasta Joaquim Sapinho, que apresentou um percurso na Coleção Moderna com obras e objetos pessoais de Calouste Gulbenkian.

Numa curta entrevista, a artista e investigadora Cristina Filipe, curadora desta edição, explica o conceito que esteve na origem do seu projeto.

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Quais as linhas gerais da sua proposta?

Durante a última década realizei uma investigação sobre a joalharia contemporânea em Portugal (1963- 2004) na Universidade Católica Portuguesa e, há dois anos, entre 98 candidatos de 24 países, foi-me atribuído o Susan Beech Mid-Career Artist Grant, do Art Jewelry Forum (USA), com o projeto para a realização de um livro que refletisse essa investigação.

Partindo desse contexto e no âmbito desta investigação, a Fundação Calouste Gulbenkian convidou-me para fazer a curadoria da 3.ª edição da iniciativa Convidados de Verão, procurando relações entre joias contemporâneas e as obras da Coleção Moderna e de René Lalique.

A proposta traduz o modo como a joalharia contemporânea acompanhou as transformações das artes plásticas, demarcando-se do campo das artes decorativas e aplicadas, no qual esteve integrada ao longo da história da arte.

Os artistas contemporâneos vieram sublinhar o arrojo de Lalique, que foi um dos primeiros artistas a apresentar propostas inovadoras para a joalharia na sua época, ditando novas normas e protocolos não convencionados pela joalharia tradicional.

Que artistas estão representados?

Artistas de quatro gerações, nascidos entre 1925 e 1978, com vários tipos de formação e com obra desenvolvida em múltiplas disciplinas, que fazem joalharia contemporânea e em cuja obra encontrei, sob diversos pontos de vista, uma relação com artistas e obras da Coleção Moderna e com René Lalique.

Que relações encontrou?

Relações cronológicas, simbólicas, formais e conceptuais. Desde o artista escultor, pintor ou outro que também inclui joias na sua obra, alguns de um modo mais intimista, outros de modo mais declarado, como por exemplo Maria José Oliveira (a sua primeira exposição individual intitulava-se Ourivesaria Têxtil), até artistas cuja joalharia nunca foi mostrada, como Jorge Vieira, de quem se expõe a primeira joia, um pendente em ardósia criado na década de 1950.

Foram igualmente estabelecidas relações temáticas e geracionais, como entre Kukas e Escada, que viveram em Paris, nos finais da década de 1950 e início da década de 1960, onde se tornaram grande amigos e, por isso, é explícita a afinidade formal entre algumas das suas obras desse período.

O mesmo acontece com Margarida Schimmelpfennig e Hein Semke, que viviam juntos na década de 1950. Gordillo e Paula Rego, por sua vez, retratam a postura irreverente e política contestatária, tendo a obra de ambos, numa fase inicial, sido rejeitada pelos seus pares.

Também o cravo, pendente de José Aurélio, e a colagem Ruas de Lisboa, de Ana Hatherly, representam a Revolução através de símbolos gráficos.

Há também diálogos do foro afetivo, como entre Mário Freitas Ribeiro, fundador do Bristol Club em Lisboa e mecenas dos modernistas, e a sua filha Alexandra Ribeiro, que fazia joalharia e cujas obras desapareceram após a sua morte, em 2013.

A intervenção estende-se à Sala Lalique da Coleção do Fundador. O que vamos descobrir nessa sala?

Foram escolhidas duas artistas cujos trabalhos evocam a obra de René Lalique: Alexandra de Serpa Pimentel e Catarina Silva.

A primeira estudou joalharia na década de 1970 na Central School of Art and Design em Londres, onde realizou as três peças que se relacionam com a obra de Lalique, não só pela temática como pela forma e a escolha dos materiais. Os colares Cobra e Libélula e a pulseira Cobra, em prata e esmalte, são de um rigor e uma minúcia singulares.

A obra de Catarina Silva aproxima-se da de Lalique pela cor e pela referência à natureza, tanto a nível da botânica, como da zoologia, embora utilize normalmente metais não preciosos e tintas acrílicas em vez de esmaltes. Nos três pendentes em exposição, utiliza prata branqueada, sem brilho, e reflete formalmente, quase como desenhos radiográficos, as obras de Lalique.