Louco sou eu

A música e a fotografia são faces de um mesmo projeto onde convivem, sem preconceitos, elementos de uma tuna académica e pessoas que procuram novos caminhos para lidar com os seus problemas de saúde mental. “Quando cheguei dessa viagem”, “A incerteza” e “Louco sou eu” estão entre os temas que o coletivo Contratempo escolheu para interpretar nas suas atuações.

O António preferia ser fotografado com o órgão, mas, no estúdio de fotografia da Escola Superior de Media Artes e Design, no Porto, naquele dia só havia guitarras e alguns instrumentos de percussão, como o carrone. “Também pode fingir que está a tocar órgão”, sugere Olívia da Silva, a fotógrafa que está a orientar a sessão.

Durante algumas horas, entre dois dedos de conversa e acordes de guitarra, pelo cenário branco do estúdio vão passando muitas das pessoas que fazem parte do projeto Contratempo, apoiado pelo programa PARTIS – Práticas Artísticas para a Inclusão Social, da Fundação Calouste Gulbenkian.

Cerca de metade dos elementos do grupo vem da Tuna de Tecnologias da Saúde, os outros – como António e Carlos – são utentes da Associação Nova Aurora, dedicada à reabilitação e reintegração psicossocial de pessoas com problemas de saúde mental. Desde 2015 que se juntam para tocar e cantar.

Em público, também: já fizeram várias atuações, até para televisão. As próximas serão a 11 e 12 de abril, na Casa da Música. Mas hoje não estão reunidos para ensaiar. Estão a fazer retratos para uma exposição no Centro Português de Fotografia, que acontecerá entre maio e junho, e que ficará como registo de todo este processo.

A música como estratégia de ‘coping’

“No caso das pessoas com problemas de saúde mental, sabemos que a música ajuda a recuperação, usam-na como estratégia de ‘coping’”, afirma Raquel Simões de Almeida, terapeuta ocupacional na Associação Nova Aurora e coordenadora dos projetos sociais que a Associação desenvolve, referindo-se à forma como cada um lida com as suas dificuldades e desafios. Em contexto de grupo é possível trabalhar a autoestima, a autoimagem, a interação social, a comunicação com o outro.

“Mesmo a adaptação a várias circunstâncias que vão ocorrendo, aos imprevistos. São trabalhadas várias competências.” A terapeuta sublinha ainda o impacto do projeto Contratempo junto das famílias dos utentes, que normalmente vivem com uma sobrecarga muito grande e para quem é especialmente importante ver os seus filhos ou familiares motivados, com um projeto de vida.

A Associação Nova Aurora na Reabilitação e Reintegração Psicossocial (ANARP) foi criada, em 1986, por familiares e amigos de pessoas com doença mental. Atualmente, presta apoio a mais de 40 utentes assente “no pressuposto de que as pessoas com experiência de doença mental grave devem ter acesso a um estilo de vida, com oportunidades, objetivos e aspirações idênticas a qualquer outro cidadão”, lê-se no site da ANARP.

“Através da música conseguimos passar uma mensagem anti estigma”

Contratempo numa atuação improvisada no estúdio de fotografia da Escola Superior de Media Artes e Design, no Porto © Márcia Lessa

“O isolamento é um aspeto muito acentuado nas pessoas com problemas de saúde mental, e em particular nas pessoas com esquizofrenia, que é o caso da maioria dos nossos utentes. Pertencer a um grupo onde não estão apenas pessoas com as mesmas patologias e serem reconhecidos publicamente nas atuações dá-lhes um sentido de utilidade e de confiança”, aponta Raquel. Com este projeto, mostram que estas pessoas não são incapazes nem tão pouco violentas. “Através da música, que chega a qualquer faixa etária e a qualquer contexto, conseguimos passar uma mensagem anti-estigma.”
Em 2016, com o apoio do programa PARTIS da Fundação Calouste Gulbenkian, o projeto ganhou escala. A dinâmica e o trabalho do grupo intensificou-se, sob a orientação de profissionais da música e da fotografia. O financiamento permitiu a aquisição de instrumentos, mas não só.

“Somos uma instituição de reabilitação de saúde mental, não tínhamos instrumentos de música, não é a nossa vocação, portanto começámos por aqui. Mas permitiu-nos também realizar ‘bootcamps’ especializados na área da música para capacitar os nossos utentes. Os jovens da tuna têm experiência musical, mas a maioria dos nossos utentes não tem.”

Tuna não é só boémia

A ideia deste projeto surgiu porque um dos terapeutas da Associação Nova Aurora pertencia, por acaso, à Tuna de Tecnologias da Saúde, onde também estava Luís Ribeiro, licenciado em Neurofisiologia, que também acompanhou o projeto desde o início. Sendo estudante da área de Saúde, o dirigente da tuna académica assegura que a sua perceção sobre as pessoas com doença mental não mudou desde que integra o Contratempo, porque está naturalmente mais sensibilizado para estes problemas. “A minha perceção não mudou, mas fico satisfeito por ver que a perceção de outras pessoas fora do projeto muda, em função de tudo o que tem sido feito”, frisa.

 

Pedro Aires, Luís Rodrigues e Tiago Magalhães © Márcia Lessa

A cantar têm combatido o estigma face à doença mental, mas este projeto também já produziu um “efeito secundário”, que é mudar a perceção social sobre as tunas. “Não são grupos de estudantes exclusivamente boémios, que só querem beber uns copos e tocar umas músicas na rua. Já tínhamos participado noutros projetos sociais, mas não desta dimensão.” Luís confirma que o Contratempo lhes trouxe visibilidade no universo das tunas, mas também no movimento cultural da cidade do Porto.

Os temas que fazem parte do repertório do grupo são todos escolhidos pelos utentes da Nova Aurora. “Fazemos-lhes as vontades, tentamos adaptar os temas, simplificando, para que não sejam muito difíceis de interpretar”, reconhece Luís. ‘Quando cheguei dessa viagem’, ‘A Incerteza’ e ‘Louco Sou Eu’ são alguns dos temas preferidos. Ensaiam muitas, muitas vezes, até acertar o tom. “Nos ensaios não dá para tirar cinco minutinhos de conversa porque querem estar sempre a tocar”, desabafa orgulhosamente. É o retrato de um projeto conseguido.