Histórias e segredos de Paula Rego: uma conversa com Nick Willing
Sara de Chiara: A conversa publicada no catálogo que acompanha a exposição entre os três curadores – Adriana Varejão, Helena de Freitas e Victor Gorgulho – inicia-se com algumas reflexões sobre a forma de falar de Paula Rego, descrita como incrível, surpreendente e inesperada. Não percebi bem o que queriam dizer até ver o filme que o Nick realizou, Paula Rego, Histórias & Segredos (2017), que é igualmente surpreendente.
Paula Rego narra as memórias da sua vida extraordinária com grande naturalidade, como se de coisas banais se tratassem. São temas sensíveis para um filho, como a relação conturbada com o marido (o seu pai), o pintor Victor Willing, ou os abortos que sofreu em tenra idade. Como surgiu o documentário? E como é que, aos 80 anos, Paula Rego – que sempre foi uma pessoa reservada – decidiu partilhar estes aspetos mais íntimos da sua vida?
Nick Willing: Nunca saberei ao certo porque é que ela começou a contar-me as histórias da forma como o fez. Há quem defenda que, ao chegar aos 80 anos, as pessoas sentem necessidade de desabafar – torna-se importante que os outros compreendam certos aspetos das suas vidas e, sobretudo, que, de alguma forma, as compensem.
A minha mãe era uma artista que passava os seus dias mais felizes no ateliê; estava sempre lá, e não apenas porque gostava de pintar. Através da pintura, creio que procurava compreender o que se passava dentro de si. A forma de se relacionar com ela era através do trabalho.
SdC: Como se entrelaçam os segredos e as histórias no universo de Paula Rego?
NW: É importante compreender que, ao trabalhar num quadro, a sua principal preocupação ia para além de fazer um bom quadro ou de abordar um tema. A obra podia começar por ser inspirada por uma história, sim – mas, ao pintar e ao contar essa história, outra coisa acontecia. A narrativa transformava-se. Tornava-se, afinal, sobre um segredo seu, algo pessoal e íntimo da sua vida ou memória, talvez uma experiência ainda não completamente digerida.
Ao criar a imagem, ela explorava essa memória ou vivência, acolhia o sentimento, revivia-o e repensava-o. O que resulta é um segredo dentro de uma história que parece óbvia. Há, por um lado, a história retirada do livro, mas aquilo que realmente impulsiona o seu trabalho é a história da sua própria experiência. E é isso que torna a obra autêntica. Os segredos davam às imagens a sua força. Por isso, nunca os revelou a ninguém – acreditava que, se o fizesse, os quadros perderiam o seu poder. Revelar o segredo tornaria a obra demasiado pessoal para o público, que começaria a identificar elementos biográficos, algo que ela não queria. O segredo era o que acendia a magia.
Agora aqui está ela, com 80 anos e doente, mas continuava a ir ao estúdio. Comecei a fazer-lhe perguntas sobre os quadros, e o que ela recorda exatamente são as coisas que lhe ficaram na alma; na sua memória está o segredo embutido em cada quadro. E depois o filho, muito calmamente, muito pacientemente, continua a perguntar vezes sem conta, e ela acaba por se abrir com ele, também porque ele lhe trouxe bolos.
Ela era uma grande contadora de histórias através das suas pinturas – o que é algo diferente, porque se trata de contar com imagens. E teve um filho que se tornou realizador de cinema, que é justamente isso: contar histórias através de imagens.
SdC: Como foi crescer com uma mãe e um pai artistas?
NW: Quando era pequeno, a crescer em Portugal enquanto os meus pais estavam em Londres, sentia muito essa distância. Lembro-me de ter perguntado uma vez ao meu pai «Pai, agora estou na escola e tenho muitos amigos cujos pais são arquitetos ou médicos, e eu percebo qual é o propósito deles. Mas qual é o propósito de ser artista?» E ele respondeu-me, como se estivesse a recitar uma definição tirada de um dicionário: «Um artista é alguém que vai até terras longínquas, onde nunca ninguém esteve antes, e traz de lá uma imagem que nunca se viu, mas que se reconhece instintivamente.» E uau… como eu queria ver essas imagens dessas terras distantes! Mas não me deixavam entrar no estúdio — que não era lugar para crianças.
Fazia algumas perguntas, mas a minha mãe não era muito de falar. Gritava connosco e dizia coisas completamente inesperadas, muitas vezes meio loucas. Estava sempre a surpreender — era verdade, nunca se podia contar com o que vinha a seguir.
Quando me mudei para Londres, fui para um colégio interno inglês – só de rapazes – e sentia-me intimidado pelos outros. Ligava para casa a queixar-me, e a minha mãe respondia: «Desenha-os! Desenha-os e depois faz o que quiseres com eles!» No desenho, encontrava uma forma de libertar o que sentia. Era ali que despejava as emoções.
SdC: A arte aparece aqui quase como uma cura, muito libertadora.
NW: De forma complexa e sofisticada, foi isso que a minha mãe fez muitas vezes com os seus sentimentos. Quando não os compreendia, desenhava-os. Precisava de veículos para os expressar – por isso transformava-se numa mulher-cão, ou evocava o momento em que fez um aborto clandestino, ou procurava aquele sentimento de humilhação, de desafio… essas emoções difíceis, fortemente reprimidas nas mulheres. As mulheres dos anos de 1950, 1960 e 1970 não podiam sentir livremente – tinham de reprimir as suas emoções em favor dos homens, daquilo que os homens esperavam delas. Hoje, é difícil imaginar. Mas tinha a ver, sobretudo, com controlo e dominação.
A minha mãe compreendeu isso profundamente – reconheceu-o como a opressão que era. Mas não lutou contra ela da forma como talvez uma mulher moderna o faria. Deixou-se dominar muitas vezes, e foi através da sua obra que mostrou como era essa experiência.
Nos pastéis da série Mulher-cão (1994), ela acede a esse sentimento retratando-se através de Lila [Lila Nunes, assistente e musa da artista]. É aí que o sentimento se revela como uma situação dialética – por isto quero dizer que existem duas emoções contraditórias que são, ambas, verdadeiras: odeio-o / amo-o; desprezo-o / sinto-me atraída por ele; tenho saudades / quero fugir. Estes são apenas os extremos. Entre eles, há um infinito de pequenas nuances – todas enterradas nos tons pastel, nas pregas da saia de Anjo (1998), por exemplo. Perguntei-lhe uma vez o que escondia naquelas dobras, e ela respondeu: «Muitos segredos. Cada dobra do vestido conta um milhão de histórias, um milhão de verdades, um milhão de mentiras.» É curioso como usava a roupa de forma tão poderosa para exprimir o que sentia.
SdC: Em 1954, ela venceu o Prémio de Composição de Verão na Slade School of Fine Art, em Londres, com a sua pintura Under Milk Wood, superando os seus colegas masculinos – um feito que ela recorda como o momento de maior orgulho. Foi também na Slade que conheceu Victor Willing, que, antes de falecer em 1988, lhe deixou uma mensagem de despedida. Paula Rego lê esta mensagem no seu filme, na qual ele é extremamente encorajador: «Sei que vais pintar ainda melhor. Confia em ti mesma e serás a tua melhor amiga. Para além da tristeza, sentirás também alívio — não te sintas culpada por isso.» Falando sobre artistas masculinos e femininos, qual foi a relação deles com essa questão?
NW: Ela teve a sorte de contar com dois homens importantes na sua vida. O pai, que a apoiava incondicionalmente, e o Vic, que nunca foi ciumento, nunca competitivo, e a ajudou a perceber que precisava de contar a sua própria história.
Nas suas pinturas, Paula Rego recolhe estas criaturas que gemem e se torcem, aprisiona-as e coloca-as na parede, para que todos as possamos ver. Isso permite-nos compreender um período da sua obra em que ela doma essas emoções o suficiente para nos permitir senti-las também, num espaço seguro. E podemos confrontar as emoções mais difíceis, desde que tenhamos os olhos abertos. Isso é a arte: uma exploração dos lados mais sombrios da alma humana.
SdC: É preciso ser muito honesto consigo mesmo para alcançar este tipo de catarse…
NW: Sim. Só pode ser uma catarse se conseguirmos sentir o que está dentro de nós, a nossa própria experiência. «Deixa-os inventar a sua própria história, deixa-os olhar para as minhas fotografias e criar as suas próprias narrativas, mesmo que seja o oposto do que estou a dizer, não faz mal», costumava dizer. Mas, no fundo, acabava por ficar zangada!
SdC: A arte como uma ferramenta para nos compreendermos a nós próprios e ao mundo, e para transformar ambos. No filme, Paula Rego afirma: «Quando se faz um quadro, nunca se sabe o que se vai sentir ao terminá-lo. É isso que as imagens fazem: ajudam-nos a perceber o que sentimos em relação a algo. Elas podem, sem dúvida, mudar os nossos sentimentos. Num quadro, é possível também sentir coisas proibidas, e é aí que surgem aspetos que não conseguimos entender na vida real.» A artista transforma-se ao longo do seu processo de criação, e a obra de arte tem o poder de provocar uma transformação no observador.
Acredito que foi isso que aconteceu com Adriana Varejão ao se deparar com as obras de Paula Rego, e que culminou na exposição que podemos visitar hoje no CAM. Como Varejão explica, o título da exposição Entre os vossos dentes «refere-se também ao artista que oferece o seu corpo ao mundo para o transformar.»
Há, de facto, um elemento visceral na prática de ambas, destilado em imagens poderosas. O que acha?
NW: Ambas partilham algo em comum: de certa forma, são ambas Cassandras. Cassandra tentava alertar todos, mas foi silenciada e acabou por ser destruída, simplesmente porque era mulher. Tudo o que ela disse se provou verdadeiro e Troia caiu. O que estas duas «Cassandras», Paula e Adriana, têm em comum é o facto de nos alertarem sobre nós próprios – «tenham cuidado, pensem no que estão a fazer, sintam-no» – as suas obras parecem sussurrar, pois não se limitam a nos transmitir, de forma intelectual, o que é; elas fazem-nos sentir. Elas próprias sentem e transmitem isso – e é isso que vemos.
A minha mãe fez isso utilizando-se de si mesma, o que é algo profundamente feminino, que raramente vemos nos homens. Francis Bacon fez algo semelhante, mas não vejo muitos artistas masculinos a adotar essa abordagem. Uma das grandes contribuições de Paula e Adriana, e de outras mulheres artistas verdadeiramente excecionais, é a visão de algo muitas vezes mais íntimo e, por vezes, mais poderoso. Durante séculos, as suas vozes foram silenciadas. É uma loucura que tenhamos perdido a oportunidade de nos compreendermos a nós próprios devido a este colonialismo da humanidade, esta dominação da mulher. A minha responsabilidade, hoje, é garantir que Paula não seja mal interpretada e que o seu trabalho seja reconhecido como mais relevante do que o de qualquer homem.