Viagem à Rússia

Concertos de Domingo

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Obras como a segunda ópera de Mikhail Glinka, Ruslan e Liudmila (1842), abriram o caminho à construção de um Romantismo musical cosmopolita de raiz russa. Mais tarde, seria nessa tradição que se viria a formar Sergei Prokofiev. Ainda estudante, no Conservatório de São Petersburgo, finalizou e estreou, em 1912, o seu Concerto para Piano n.º 1. Mas Prokofiev viria a revelar-se um aluno rebelde nas suas propostas musicais, constituindo este concerto um desafio aos valores conservadores da instituição. Dois anos mais tarde, escreveria a Sinfonia Clássica, uma reinterpretação moderna do estilo setecentista de Haydn e Mozart.

 

Música e Sustentabilidade: Rosário Palha

Transformar o sistema alimentar

Em parceria com o Programa Desenvolvimento Sustentável da Fundação Calouste Gulbenkian. Em cada Concerto de Domingo, um orador convidado abordará um tema específico, definido no âmbito dos desafios sociais, ambientais e económicos que impactam o planeta à escala global.

A Fundação é um dos parceiros filantrópicos da Food Initiative, uma iniciativa da Fundação Ellen MacArthur que promove a transformação do sistema alimentar num sistema regenerativo, utilizando os princípios da economia circular e envolvendo diversos atores da sua cadeia de valor, particularmente ao nível das cidades. Falaremos sobre os desafios de sustentabilidade do atual sistema alimentar, sobre o porquê da importância das cidades para encontrar soluções, do conceito de economia circular e de como aplicá-lo neste tema.


Programa

Orquestra Gulbenkian
Johannes Klumpp Maestro
Raúl da Costa Piano
Vera Dias Comentadora

Mikhail Glinka (1804 1857)
Abertura da ópera Ruslan e Liudmila
Valsa-Fantasia

Sergei Prokofiev (1891 1953)
Concerto para Piano e Orquestra n.º 1, em Ré bemol maior, op. 10
Allegro brioso –
Andante assai –
Allegro scherzando

Sergei Prokofiev (1891 1953)
Sinfonia n.º 1, em Ré maior, op. 25, “Clássica”
Allegro
Intermezzo: Larghetto
Gavotte: Non troppo allegro
Finale: Molto vivace

Nascido nos primeiros anos do século XIX, Mikhail Glinka (1804-1857) estaria talhado para um papel fundamental na história da música russa. É-lhe atribuído, aliás, o certificado de paternidade da música moderna nacional. Porque, apesar de ser um confesso apaixonado pelas culturas francesa e italiana, Glinka fixou nas suas óperas temáticas profundamente locais, aproximando a majestosidade própria das grandes produções operáticas à vida da população a que se dirigia. Esse interesse terá brotado talvez das frequentes viagens pelas várias regiões da sua terra efetuadas durante o início dos anos 1820, ao mergulhar mais a fundo nas especificidades culturais, mas também nas paisagens do país. Mais tarde, acabaria por renunciar à segurança de uma vida enquanto funcionário do governo russo em São Petersburgo, quando se deixou encantar por um círculo artístico onde privou com sumidades como Lev Tolstoi ou Aleksandr Púchkin.

Terá sido esse o impulso definitivo para abandonar o seu emprego e rumar a Itália, onde esteve durante três anos e travou amizade com dois dos maiores autores de ópera de sempre – Donizetti e Bellini. Foi ainda sob essa forte influência que percebeu que deveria regressar à Rússia e aplicar todos os conhecimentos que tinha adquirido numa música que explorasse uma matriz claramente local, baseando-se tanto no património melódico quanto nas histórias do país. Assim que chegou, Glinka compôs para um libreto que narrava o sacrifício heroico de Ivan Susanin para salvar o czar durante a guerra com a Polónia. Depois de um longo interregno, voltou à ópera com Ruslan e Liudmila (1842), cuja temática exótica, inspirada em Púchkin, e a originalidade da composição (com um travo local, mas permeável a sonoridades árabes e persas) ajudariam a estabelecer a construção de uma identidade da música nacional, afastando-a do padrão ocidental. Para um compositor que afirmava que a música tinha sido criada pelo povo faz sentido que a peça Valsa – Fantasia seja também conhecida por Valsa Pavlovsk, estreada na estação ferroviária Pavlovsk.

Quando Sergei Prokofiev (1891-1953) começou a compor o Concerto para Piano e Orquestra n.º 1, op. 10, em 1911, a sua educação musical fora já profundamente afetada pela revolução identitária operada por Glinka. Foi com esta peça que, aos 22 anos, conquistou o prestigiado Prémio Rubinstein. A ousadia de apresentar uma composição própria, e não uma peça de referência, não impediu o júri de reconhecer o extraordinário talento pianístico de Prokofiev. Elevava-se, desde logo, ao nível dos maiores. E a prova de que sabia colocar-se aos ombros dos gigantes foi a criação da sua Sinfonia n.º 1, op. 25, também conhecida como Sinfonia Clássica quando, ainda estudante em São Petersburgo, respondeu criativamente ao exercício de mergulhar nas obras de Haydn e de Mozart com uma peça sublime. A Sinfonia n.º 1 de Prokofiev funciona, portanto, como uma reaproximação ao cânone ocidental. Através de Glinka e Prokofiev percebemos, assim, como os percursos artísticos se fundam sempre em afastamentos e aproximações a diferentes tradições, alterando a cada passo o rumo que a história tomará em seguida.


A Fundação Calouste Gulbenkian reserva-se o direito de recolher e conservar registos de imagens, sons e voz para a difusão e preservação da memória da sua atividade cultural e artística. Caso pretenda obter algum esclarecimento, poderá contactar-nos através de privac[email protected].


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