Sinfonia n.º 6 de Tchaikovsky

Orquestra Gulbenkian / Andris Poga / Alexandre Kantorow

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Graças à correspondência trocada entre Tchaikovsky e os seus amigos, sabemos que em 1889, um ano após ter terminado a Sinfonia nº. 5, o compositor russo sonhava já com uma nova obra orquestral grandiosa e capaz de se estabelecer como o pináculo criativo da sua carreira. Seguir-se-iam quatro anos de avanços e recuos, hesitações postas de lado durante uma digressão europeia, ao compor mentalmente as notas que, regressado a casa, passaria para o papel numa escrita febril. A gloriosa Sinfonia Patética de Tchaikovsky vibrará sob a mão firme do maestro Andris Poga, para além do Concerto para Piano n.º 2 de Chostakovitch que contará com o rigor e a sensibilidade do solista Alexandre Kantorow.


TRANSMISSAO

 


Programa

Orquestra Gulbenkian
Andris Poga Maestro
Alexandre Kantorow Piano

Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840 – 1893)
Romeu e Julieta: Abertura-Fantasia

Composição: 1869 / 1870 / 1880
Estreia (versão final): Tiflis, 1 de março de 1886
Duração: c. 20 min.

A obra Romeu e Julieta: Abertura-Fantasia foi composta em 1869, quando Piotr Ilitch Tchaikovsky tinha 29 anos e procurava afirmar-se no meio musical russo. A obra surgiu num contexto particular, após sugestão do compositor nacionalista russo Mily Balakirev, elemento distinto e líder do renomado “Grupo dos Cinco”, que incluía os compositores A. Borodin, C. Cui, M. Mussorgsky e N. Rimsky-Korsakov. Tchaikovsky tinha dedicado o poema sinfónico Fatum (1868) a Balakirev, pese embora a atitude crítica e direta deste último. Balakirev sugeriu então a Tchaikovsky que compusesse uma obra orquestral partindo da tragédia Romeu e Julieta, de William Shakespeare, fornecendo para o efeito indicações precisas sobre o rumo a dar à música. Tchaikovsky dedicou-se ao trabalho e seguiu as orientações de Balakirev, embora o resultado não tenha sido totalmente convincente para o líder do “Grupo dos Cinco”, que se pronunciou de forma sincera, de resto em linha com a própria receção do público, que não apreciou especialmente a obra.

A estreia teve lugar em Moscovo, num concerto promovido a 16 de março de 1870 pela Sociedade Musical Imperial Russa, com direção musical de Nikolai Rubinstein. Não querendo desistir da obra, Tchaikovsky aproveitou o verão e reformulou algumas secções, levando-a novamente ao palco em 1872, em São Petersburgo. Faria ainda uma última revisão, em 1880, apresentando a obra em 1886, na forma que é atualmente interpretada, e que foi premiada em 1884 com o prestigiante Prémio Glinka.

A obra, referida como poema sinfónico, inicia-se com uma introdução longa e solene que remete para o sábio e conselheiro Frei Lourenço, uma importante personagem de Romeu e Julieta. Segue-se a apresentação dos dois grupos temáticos principais, o primeiro com bastante tensão, conflito e tempestuosidade, reportando à rivalidade entre a família Capuleto e Montéquio, que ecoa no tratamento orquestral; o segundo tema traduz o universo sentimental de amor entre Romeu e Julieta. Aqui, o compositor escolhe a trompa e a viola para representar Romeu e as flautas que nos remetem para Julieta, numa construção musical que exprime o profundo amor entre ambos. Tchaikovsky consegue, com mestria, explorar a dimensão simbólica de ambos os temas, em particular na segunda vez em que o tema do amor surge e que é suplantado pela força do conflito entre as famílias. De resto, o tema do amor volta a erguer-se, mas num tom mais melancólico que desagua num momento de maior serenidade, antes do final triunfante que funciona como um epílogo de grande efeito sonoro.

Dmitri Chostakovitch (1906 – 1975)
Concerto para Piano e Orquestra n.º 2, op. 102
1. Allegro
2. Andante
3. Allegro

Composição: 1957
Estreia: Moscovo, 10 de maio de 1957
Duração: c. 20 min.

O Concerto para Piano e Orquestra n.º 2, op. 102, constitui uma das obras mais conhecidas de Dmitri Chostakovitch. Com uma sonoridade diferente de outras compostas no mesmo período, o próprio compositor referiria ao colega E. Denisov que não considerava a obra possuidora de grandes méritos artísticos, encarando-a sobretudo como repertório que pudesse ser acessível e apetecível a jovens pianistas. A sua atitude, algo defensiva, poderia ter como propósito antecipar possíveis julgamentos ao seu trabalho, várias vezes criticado e censurado no contexto da União Soviética. Nem por isso, como acontecera noutras obras, deixou o compositor de fazer uso de um certo tom sarcástico e cómico que penetra a sua escrita musical de forma original.

Chostakovich compôs o Concerto n.º 2 em 1957, por ocasião do 19.º aniversário do seu filho Maxim, que a estrearia a 10 de maio, ao piano, no Conservatório de Moscovo, sob direção do maestro Nikolai Anosov, marcando o final dos seus estudos de piano. A referência à juventude parece ter trazido boas memórias a Chostakovitch, que surge nesta obra com uma energia revigorada e consciente de como poderia cativar os jovens com uma linguagem mais vibrante. Encontramos nos três andamentos do concerto elementos distintos que exploram ideias e estados de ânimo diferentes.

O primeiro andamento, de feição neoclássica, marcado Allegro, inicia-se com o primeiro tema, de caráter alegre, jovial e brincalhão, apresentado pelo fagote e sucessivos instrumentos, ao qual se junta depois o piano, num crescendo para uma quase marcha frenética, que contrasta com um segundo tema mais melódico, terminando o andamento de forma decidida.

O segundo andamento, Andante, conduz-nos por sonoridades pouco exploradas nas suas obras, com um mundo sonoro que revisita, ou tem como referente, alguns dos andamentos lentos dos concertos para piano e orquestra do classicismo e do romantismo, com uma condução melódica lânguida, lírica e doce, e textura quase meditativa da orquestra.

O andamento final, Allegro, apresenta-se como uma dança plena de vivacidade, com um tema com várias repetições motívicas marcadas pela orquestra. O segundo tema é ainda mais movimentado e vivaz, com uma mudança de compasso, parecendo remeter para uma dança frenética, ao qual se segue uma secção com um toque humorístico, inspirada em alguns exercícios mais mecânicos que os pianistas têm de estudar ao longo da sua formação, como Hanon ou Czerny. A obra termina com uma coda virtuosística, permitindo ao jovem pianista demonstrar o seu domínio do instrumento e terminar de forma brilhante e arrebatadora.

Intervalo

Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840 – 1893)
Sinfonia n.º 6, em Si menor, op. 74, Patética
1. Adagio – Allegro non troppo
2. Allegro con grazia
3. Allegro molto vivace
4. Finale: Adagio lamentoso

Composição: 1893
Estreia: São Petersburgo, 28 de outubro de 1893
Duração: c. 45 min.

A Sinfonia n.º 6, em Si menor, op. 74, “Patética”, foi composta entre fevereiro e agosto de 1893, e estreada a 28 de outubro, em São Petersburgo, sob a direção do compositor, poucos dias antes da morte deste, a 6 de novembro daquele ano. A ideia de compor uma nova Sinfonia remontava a 1889, quando Tchaikovsky revelou a Konstantin Romanov a vontade de escrever uma sinfonia dedicada ao Czar, que iniciaria em 1891. Os compassos que produziu não eram, no entanto, do seu agrado, tendo destruído o trabalho, num período em que se encontrava psicológica e emocionalmente instável. Mas a confiança para compor a Sinfonia n.º 6 regressaria em 1893, num ímpeto criativo que deixaria Tchaikovsky agradado com o seu labor e com o resultado. Encontramos esta ideia expressa na correspondência com o seu irmão Anatolii, na qual confessa que considera ser a Sinfonia n.º 6 uma das suas melhores obras.

Nesta fase final, Tchaikovsky convoca à sua linguagem sinfónica recursos estilísticos que encontramos noutras mais tardias, como a Sinfonia n.º 5 (1888) ou a ópera Iolanta (1891), entre outras. Neste período, ouvimos na música do compositor temáticas ligadas à fantasia, mas também a exploração de um universo sonoro mais sombrio, vencido e entregue à inevitabilidade do destino, que de resto ganhara força noutras obras, como a Sinfonia n.º 4. Não longe deste universo, a Sinfonia n.º 6 parece apresentar indícios de uma carta de despedida, de um quase testamento, marcada pelos mundos sonoros emocionais e passionais que invoca. O título terá surgido de uma sugestão de Modest, irmão de Tchaikovsky, ao apelidá-la de “Patética”, embora a palavra original em russo não seja exatamente traduzida desta forma, apontando mais para uma ideia de paixão.

A Sinfonia n.º 6 divide-se em quatro andamentos, ainda que com uma organização interna diferente do habitual, em particular o Finale: Adagio lamentoso, que constituiu o quarto e último andamento.

A obra inicia-se com uma introdução em Adagio que enuncia um tema muito emocional. Segue-se um Allegro non troppo, com um primeiro tema apresentado nas violas e o um segundo tema mais lírico. A secção de desenvolvimento é arrebatadora na pujança instrumental, com os metais e percussão a surgirem de forma abrupta e violenta, com alguma inquietação e tensão nas cordas, encontrado depois tranquilidade na coda final.

No segundo andamento, um Allegro con grazia, encontramos um primeiro tema de considerável elegância melódica, que remete para uma valsa e que contrasta depois com uma secção um pouco mais sombria, mas que regressa a um ambiente mais sereno e leve.

O terceiro andamento, Allegro molto vivace, introduz-nos a um mundo sonoro que oscila entre uma aparente estabilidade inicial, ainda que movimentada, e crescendos orquestrais que criam tensões, mesmo quando ouvimos o segundo tema surgir no clarinete.

O andamento final, Adagio lamentoso, é iniciado com um tema partilhado pelos violinos, de forma quase solene, seguindo-se momentos mais dramático depois da apresentação do segundo tema, com um crescendo orquestral no qual os metais e a percussão têm particular destaque. A obra caminha depois para um final pesado e de lamentação, num tom quase fúnebre, que se dissipa lentamente, como uma despedida.

Notas de Pedro Russo Moreira


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  • Por Sérgio Azevedo

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