Orquestra Gulbenkian e os seus Solistas

Orquestra Gulbenkian / Martim Sousa Tavares

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Assumindo um “compromisso com a equidade de compositores e repertórios”, Martim Sousa Tavares tem pautado a sua atividade por uma ampla gama de experiências, partindo em busca de públicos para a música clássica fora dos seus palcos habituais ou propondo relações surpreendentes entre compositores. Na sua estreia a dirigir a Orquestra Gulbenkian, o maestro acolhe num mesmo programa a estreia nacional de Rissolty, Rossolty, peça da compositora Ruth Crawford Seeger – exemplar na sua aproximação às raízes da música popular norte-americana – e obras de Mozart, Hummel, Debussy, Sarasate e Popper, numa travessia musical de quase três séculos. O concerto está integrado na programação Lisboa na Rua.


Programa

Orquestra Gulbenkian
Martim Sousa Tavares Maestro
Adrián Martínez Trompete
Levon Mouradian Violoncelo

Wolfgang Amadeus Mozart (1756 1791)
Abertura da ópera Idomeneo, K. 366

Composição: 1780/81
Estreia: Munique, 29 de janeiro de 1781
Duração: c. 5 min.

Nesta edição de Lisboa na Rua, a Orquestra Gulbenkian apresenta um conjunto variado de obras, focando-se nos seus instrumentistas. O concerto é lançado pela abertura da ópera Idomeneo, re di Creta, K. 366, de Wolfgang Amadeus Mozart. Idomeneo marcou o percurso do compositor, cada vez mais afastado das suas tarefas na corte de Salzburgo e próximo do circuito operático europeu. Resultado de uma encomenda para a corte de Munique, a ópera foi estreada no Residenztheater a 29 de janeiro de 1781.

A forte relação entre ação dramática e música, associada às reformas da ópera séria empreendidas na época, encontra-se patente logo na abertura. Figurações características desse género marcam o início de Idomeneo, captando a atenção do ouvinte. A obra encontra-se em forma sonata sem desenvolvimento com um primeiro tema afirmativo e marcado por fanfarras. Os arpejos e escalas em uníssono e o recurso dramático às acentuações encarnam as perspetivas orquestrais do Classicismo, criando tensão e distensão. O segundo tema tem características líricas, incorporando as convenções do estilo galante. Uma orquestração inspirada pela Orquestra da Corte de Mannheim, com a qual Mozart havia contactado recentemente, atravessa toda a abertura. O regresso dos temas, com a solenidade da fanfarra inicial, marca o final de uma peça de intensa carga dramática.

 

Ruth Crawford Seeger (1901 1953)
Rissolty Rossolty*

Composição: 1939
Duração: c. 3 min.

Rissolty Rossolty é uma canção tradicional interpretada na Inglaterra, na Escócia e nos Estados Unidos da América e o seu primeiro registo escrito data de 1888. A obra orquestral resultou de uma encomenda a Ruth Crawford Seeger do coletor e etnomusicólogo Alan Lomax para o programa que este apresentava na CBS American Folk Song and Wellsprings of Music. Nele, fazia-se a divulgação da música folk americana.

Rissolty Rossolty foi escrita em 1939 e é a única obra orquestral completada pela compositora nas décadas de 30 e 40. Ruth Crawford, americana associada às vanguardas da primeira metade do século XX, foi a primeira mulher a receber uma bolsa da Fundação Guggenheim. Viajou pela Europa e, em 1932, casou-se com o compositor e professor Charles Seeger. Com o casamento, Ruth Crawford (agora Seeger) dedicou menos tempo à composição, mas desenvolveu um trabalho fundamental na transcrição de canções tradicionais para a Biblioteca do Congresso. O rigor com que empreendeu essa tarefa foi central para a geração seguinte, responsável pela revivificação do folk americano. Entre esses cantores, destacaram-se Pete e Peggy Seeger, familiares da compositora.

Rissolty Rossolty trabalha a melodia da canção tradicional numa perspetiva modernista. A sobreposição de células e ostinati, bem como a exploração do timbre destacam-se numa peça em que a regularidade rítmica e o diatonismo da canção contrastam com as texturas complexas do final, em que a dissonância ocupa um lugar preponderante. A vivacidade da textura de dança, enfatizada pela repetição, intensifica a carga da canção, conduzindo esta miniatura a um surpreendente final em pianíssimo.

 

Johann Nepomuk Hummel (1778 1837)
Concerto para Trompete e Orquestra, em Mi bemol maior, S. 49
– Allegro con spirito
– Andante
– Rondo: Allegro

Composição: 1803
Estreia: Viena, 1 de janeiro de 1804
Duração: c. 20 min.

O Concerto para Trompete de Johann Nepomuk Hummel faz parte da literatura essencial para o instrumento. A obra foi terminada a 8 de dezembro de 1803 e estreada, provavelmente, a 1 de janeiro do ano seguinte. Hummel foi um menino-prodígio e um virtuoso do pianoforte, instrumento que marcou o Classicismo. Nessa altura, Hummel encontrava-se ao serviço da família Esterházy, a mesma que empregara Joseph Haydn. O concerto foi apresentado por Anton Weidinger, um destacado trompetista. Na altura, o trompete encontrava-se em transformação. Para aumentar as suas possibilidades, vários construtores desenvolveram mecanismos que facilitassem a execução. Weidinger tocava um trompete com chaves, instrumento que veio a cair em desuso com o aparecimento dos pistões.

No Concerto para Trompete, Hummel incorpora elementos virtuosísticos de forma a explorar as capacidades do instrumento e de Weidinger. O Allegro con spirito encontra-se numa forma sonata, em que dois grupos temáticos contrastantes são apresentados, desenvolvidos e reexpostos. A orquestra introduz os materiais do andamento, de uma atmosfera agitada em que pontificam os contrastes dinâmicos, à estilização lúdica da marcha do segundo grupo temático. O solista faz a sua entrada de forma afirmativa, reapresentando os dois temas. No desenvolvimento instável, destaca-se o virtuosismo do trompetista, que orienta o percurso tonal e formal da secção, elaborando e ornamentando células dos temas. Uma reexposição conduzida pelo trompete reforça o caráter marcial do segundo grupo temático e leva o andamento ao fim. O Andante é dominado pela exploração da melodia. O lirismo cantabile atravessa o andamento sobre o acompanhamento regular das cordas. O diminuendo final cria expectativa para o final, um andamento pirotécnico em forma rondó-sonata. O uso do trompete em contextos militares encontra-se, de forma saliente, em episódios que contrastam com passagens leves de caráter lúdico. O brilho do timbre do solista destaca-se no andamento, cuja cinética é apoiada nos jogos de interação entre o solista e a orquestra.

 

Claude Debussy (1862 1918)
Petite Suite
(orquestração de Henri Büsser, 1907)
– En bateau: Andantino
– Cortège: Moderato
– Menuet: Moderato
– Ballet: Allegro giusto

Composição: 1886-89
Duração: c. 14 min.

A Petite Suite é uma obra da juventude de Debussy, para piano a quatro mãos. Escrita entre 1886 e 1889, foi orquestrada em 1907 por Henri Büsser, compositor e maestro que desenvolveu uma parceria criativa com Debussy. A sinuosidade das melodias domina En bateau, cujas ondulações conduzidas pela flauta sobre um ritmo pouco marcado emulam uma viagem de barco. A sobreposição de células, o estatismo e a circularidade são entrecortadas por um breve episódio de caráter dançante. Em Cortège, destaca-te o uso criativo da percussão por Büsser, intensificando o sentido regular do movimento. Os jogos entre naipes enfatizam elementos tímbricos e planos sonoros que se sobrepõem e sucedem. A dança barroca e clássica domina Menuet, preparado por uma introdução curvilínea. A textura leve de dança de corte é pontuada pelas melodias ondulantes da harpa. Uma melodia apresentada por diversos instrumentos enriquece a secção. A suite termina com Ballet, uma miniatura cinética e brincalhona que remete para o universo infantil, com os seus crescendi e diminuendi. O seu caráter hedonista evoca a música vienense para dançar da época.

 

Pablo de Sarasate (1844 1908)
Zigeunerweisen (Árias Ciganas), op. 20
(violoncelo e orquestra)

Composição: 1878
Estreia: Leipzig, 1878
Duração: c. 10 min.

A música dos povos Rom da Hungria alimentou o gosto romântico pelo exotismo. Agrupamentos de músicos nómadas circulavam na Europa Central, criando e transformado repertórios através do virtuosismo. Esses elementos fascinaram Pablo de Sarasate. Grande figura do violino, Sarasate escreveu as Zigeunerweisen (“Árias Ciganas”) em 1878. A obra consiste numa rapsódia de melodias húngaras que incorpora elementos de obras de Franz Liszt e Elemér Szentirmay, misturando-os com elementos associados aos Rom, como a ornamentação e as texturas. Neste concerto ouviremos uma transcrição para violoncelo e orquestra.

Zigeunerweisen começa com a apresentação de um tema enérgico e virtuosístico pela orquestra, seguido pela entrada do solista. O recurso ao modalismo e a exploração do âmbito do instrumento solista destacam-se na secção inicial. Seguidamente, um lamento livre e lírico centra as atenções no solista, que preenche espaços entre a melodia principal, com passagens de grande dificuldade. O melodismo mantém-se na secção seguinte, preparando um final explosivo inspirados nas Csárdás, uma dança viva e rústica em que o solista apresenta as suas capacidades de forma espetacular.

 

David Popper (1843 1913)
Rapsódia Húngara, op. 68
(orquestração de Max Schlegel)

Composição: 1894
Duração: c. 10 min.

David Popper foi um reconhecido violoncelista da Boémia, então parte do Império Austro-Húngaro. A sua carreira dividiu-se entre as digressões como virtuoso, o ensino e as apresentações em Viena enquanto músico de corte. A Rapsódia Húngara, op. 68, foi publicada em 1894, quando Popper era professor na Real Nacional Academia Húngara de Música, em Budapeste. Destinada a violoncelo e piano, a estilização da música dos músicos itinerantes que atuavam nos cafés e restaurantes do Império Austro-Húngaro forma a base da obra. A orquestração de Max Schlegel intensifica os contrastes da peça, que começa de forma lírica com uma melodia lenta e cantável. O arrebatamento romântico e a flexibilidade rítmica sublinham uma passagem que se torna progressivamente mais cinética até atingir uma longa cadência solista que mostra as capacidades do intérprete, conduzindo a uma secção de maior leveza. A rusticidade da dança popular emerge na secção final, uma explosão de destreza e expressividade em torno da melodia principal.

Notas de João Silva

 

*Estreia em Portugal


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