David Fray

Pianomania

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Músico de uma enorme riqueza discursiva ao piano, com uma amplitude de paixões capaz de juntar Bach e Boulez num só programa (e que lhe valeu a distinção de “disco do ano”, em 2019, pelo London Times e pelo Le Soir), David Fray debruça-se agora sobre as emblemáticas e monumentais Variações Goldberg. Muitas vezes comparado a Glenn Gould devido à sua mestria na abordagem da obra de Bach, Fray diz que partem de questões semelhantes – como encontrar as cores certas que possam não trair a linguagem e o estilo do compositor alemão – para chegarem a conclusões distintas. No seu caso, é sobretudo a busca pelo lirismo que conduz a demanda a que se propõe.


Programa

David Fray Piano

Johann Sebastian Bach
Variações Goldberg BWV 988

Composição: c. 1740
Duração: c. 70 min.

No curso da história da música europeia, poucas obras terão deixado uma marca tão perene como as célebres Variações Goldberg BWV 988 de Johann Sebastian Bach. Das leituras pioneiras de Wanda Landowska e Gustav Leonhardt ao olhar peculiar de Glenn Gould, passando pelos contributos de toda uma geração interpretativa da qual fizeram parte Peter Serkin, Wilhelm Kempff e Karl Richter, até aos registos mais modernos de Trevor Pinnock, Murray Perahia, Pierre Hantaï e Angela Hewitt, entre muitos outros intérpretes, os ecos das Variações Goldberg  ressoam por entre décadas de abordagens interpretativas, seja no cravo, seja no moderno piano e até noutros instrumentos de tecla, abrindo diferentes caminhos para a fruição de uma obra cuja essência expressiva parece transcender o tempo e a memória para consumar, em paradoxal crisol, a derradeira genialidade criativa e o mais despojado, sincero e fraterno gesto humano.

Curiosamente, a raiz intemporal que hoje reconhecemos nas Variações Goldberg teve a sua génese não na intenção premeditada de fazer música para a posteridade, mas numa prosaica situação do quotidiano que nos foi relatada pelo primeiro biógrafo de J. S. Bach, Johann Forkel (1749-1818). De acordo com este musicógrafo germânico, a obra foi encomendada a Bach pelo Conde von Keyserling, embaixador russo na corte de Dresden, o qual, segundo consta, pretendia ocupar as suas longas noites de insónia com a audição de música original a ser interpretada pelo cravista da corte, Johann Gottlieb Goldberg (um provável discípulo de Bach), numa sala contígua aos seus aposentos. Pelo seu trabalho, Bach terá recebido uma taça dourada com cem Louis-D’or e o Conde von Keyserling ficou tão agradado com o resultado que passou a referir-se à partitura de Bach como “as minhas variações”. A História encarregar-se-ia, porém, de consagrar a composição através do nome do seu primeiro intérprete, Goldberg.

As Variações Goldberg foram publicadas em Nuremberga, no ano de 1741, como parte do Clavierübung (o livro de exercícios para tecla de Bach), inaugurando, desta forma, o legado de grandes ciclos canónicos que o músico compôs durante a fase final da sua vida. Nesta obra destinada ao cravo com dois teclados, J. S. Bach leva ao horizonte mais longínquo a arte da variação, cuja tradição barroca encontra raízes, por exemplo, na obra de um Bernardo Pasquini (1637-1710). Após uma Ária inicial, moldada segundo os preceitos da Sarabanda ao gosto francês, a obra faz suceder um conjunto de trinta variações sobre um baixo de Chaconne, organizadas em grupos de três nos quais a última se estrutura canonicamente. De acordo com uma prática comum no seu tempo, Bach reutilizou uma Sarabanda de sua autoria para moldar o andamento introdutório, peça que já havia sido publicada no segundo volume do Clavierbüchlein (1725). Ainda que originária de Espanha, esta dança de passos foi, a partir do século XVII, adotada em França e é com ênfase no estilo francês (visível, por exemplo, no tipo de ornamentação e nos ritmos ponteados) que a obra de Bach foi pensada.

Rui Cabral Lopes


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