19 Maio 2020 Notícias Desenvolvimento SustentávelDar a volta

Café Memória fica em casa

Face à atual pandemia e num esforço de adaptação às novas circunstâncias, o Café Memória realizou em abril o seu primeiro encontro virtual

“A primeira sessão do Café Memória fica em casa foi um verdadeiro sucesso”. Quem o afirma é Catarina Alvarez, responsável por este projeto singular que promove encontros informais entre cuidadores e pessoas com problemas de memória e demência, com o apoio de técnicos de saúde, técnicos de serviço social e de voluntários.

 Num país onde se estima existirem cerca de 200.000 pessoas com demência que necessitam de cuidados a tempo inteiro, estes encontros constituem um espaço importante de apoio e partilha de experiências dos vários agentes envolvidos nesta realidade, muitas vezes invisível, mas com enorme impacto na sociedade. Em 2018 e 2019, este projeto tinha já assumido uma outra variante, sob a forma de uma itinerância que levou estes encontros a meia centena de localidades isoladas do país: o Café Memória faz-se à estrada. Agora, na impossibilidade de encontros  presenciais, o projeto adaptou-se a um novo formato: o Café Memória fica em casa.

A primeira sessão virtual teve lugar no passado dia 18 de abril e a expetativa inicial foi largamente ultrapassada, tendo esgotado a capacidade da plataforma utilizada, limitada a uma centena de pessoas. “Quando iniciámos a sessão, foi muito emocionante ver tantas caras conhecidas, participantes habituais das sessões do Café Memória, mas também pessoas que nos visitavam pela primeira vez, assim como vários voluntários e técnicos”. Nem todas as pessoas conseguiram aceder pelo que, garante Catarina, “na próxima sessão será alargado o acesso para que todos os que queiram participar o possam fazer.”

Isabel Sousa, que partilha a liderança do projeto, congratulou-se também com esta adesão, realçando o empenho das 20 equipas Café Memória envolvidas na concretização deste novo formato e o facto de se conseguir traduzir para o digital um pouco do ambiente vivido nas sessões presenciais. Observou ainda que um outro aspeto positivo deste formato é chegar a pessoas que podem não ter condições de frequentar as sessões presenciais por não se encontrarem geograficamente próximas.

Mantendo a estrutura do formato presencial,  esta sessão contou com um orador convidado, Nuno Antunes, psicólogo da Alzheimer Portugal, que apresentou  um conjunto de “Dicas para viver melhor estes tempos em casa”, com recurso a powerpoint. Nuno propôs algumas estratégias para lidar, nesta fase de pandemia, com as pessoas com demência, alertando para a necessidade de lhes explicar, da melhor forma possível, o contexto da situação. Entre outros procedimentos, aconselhou o uso de lembretes e recados e também, por exemplo, de desenhos a ilustrar o modo correto de lavar as mãos. Sublinhou ainda a  importância de conseguir passar a mensagem de que a necessidade de isolamento é imposta por figuras de autoridade e que, ao ficarmos em casa, estamos todos a contribuir para que a situação se resolva mais rapidamente.

Os participantes aproveitaram não só para colocar questões concretas relacionadas com o tema mas também para partilhar dificuldades que estão a vivenciar com os seus familiares provocadas pelas alterações das rotinas que a situação atual de confinamento impõe, tendo sido sugeridas pelo orador convidado, várias estratégias e técnicas de relaxamento para melhorar a forma como os cuidadores lidam com este novo dia-a-dia.

Jorge e Antonieta

Entre os participantes regulares dos Café Memória está o casal Jorge e Antonieta Barreiros, ela, com 77 anos, diagnosticada há sete com Alzheimer e ele, desde então, seu cuidador permanente. Casados há 51 anos, vivem no concelho do Cadaval, numa aldeia na encosta da Serra de Montejunto, desde que Antonieta adoeceu. A falta de apoio é um problema. Os três filhos e os netos vivem em Lisboa, as visitas são poucas e o tão apregoado estatuto do cuidador é algo que, lamenta Jorge, não se traduz, ainda, em medidas eficazes.

Na situação atual em que vivem, o Café Memória é das poucas possibilidades de contacto com o exterior e de Antonieta, de natureza comunicativa, poder interagir com outras pessoas. Jorge afirma que, no dia a dia, a progressiva dificuldade da mulher em reconhecer as pessoas, conduz a um inevitável afastamento social. Ela não se sente bem em falar com as pessoas porque já não sabe quem são e as pessoas sentem que não já há um terreno comum que permita o contacto.

Jorge soube da existência do Café Memória através de um anúncio num jornal. Foi sozinho a uma sessão mas não se sentiu logo tentado a levar a mulher. Um ano depois, com o agravamento do estado de Antonieta, resolveu começar a levá-la às sessões, que se tornaram uma oportunidade para Antonieta retomar o convívio social e para Jorge ouvir conselhos de especialistas sobre temas ligados à doença e sobre a forma de lidar com a situação.

Desde que foi criado, em 2013, o Café Memória tornou-se, de facto, para muitos cuidadores e doentes, o único espaço de sociabilização, já que a tendência para o isolamento é, nestes casos muito acentuada. Atualmente existem 20 grupos que se reúnem em várias cidades do país como Cascais, Oeiras, Sintra, Braga, Viana do Castelo, Esposende, Porto, Viseu, Guimarães, Madeira, Barcelos, Almada, Évora, Barreiro, Sesimbra e Mirandela. Em Lisboa existem quatro unidades do Café Memória.

Com coordenação, no terreno, da Associação Alzheimer Portugal, o Café Memória realiza-se com o apoio da Fundação Gulbenkian, Fundação Montepio, Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa, Sonae Sierra e de cerca de 60 parceiros locais.

Até ao final do mês de agosto foram já agendadas 20 novas sessões do Café Memória fica em casa, que se realizam aos sábados, às 11h.

 

Café Memória – génese do projeto

O conceito do Memory Café nasceu para combater o estigma associado às várias formas de demência e tem uma forte implantação no Reino Unido, bem como em vários países da Europa e do mundo. Em Portugal, a ideia de adaptar o modelo dos Memory Café veio da Sonae Sierra, que a propôs à Associação Alzheimer Portugal. Esta Associação desenvolvia já um projeto vocacionado para as pessoas com demência – o projeto Cuidar Melhor -, financiado e acompanhado pelas Fundações Calouste Gulbenkian e Montepio, com suporte científico do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa. A parceria inicial deste projeto foi alargada e o Café Memória passou integrar o Cuidar Melhor, com uma equipa de coordenadores e técnicos associada. Os campos de ação são complementares: o Café Memória abre portas, acolhe, aconselha, referencia e presta apoio emocional às pessoas com demências e aos cuidadores; já o Cuidar Melhor, capacitado para uma intervenção mais técnica e especializada, presta apoio psicológico, jurídico e tem uma ampla oferta de serviços clínicos. Os primeiros Gabinetes Cuidar Melhor foram criados em Cascais, Oeiras e Sintra, em estreita articulação com as equipas técnicas dos municípios. Mais recentemente abriram mais dois Gabinetes Cuidar Melhor, um em Almada e outro em Peniche.

 

Conheça melhor o projeto Café Memória.


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