O Poder e a Glória
Ciclo de cinema / set 2025 – jun 2026
Entre setembro de 2025 e junho de 2026, a Fundação Calouste Gulbenkian apresenta o ciclo de cinema “O Poder e a Glória”, com foco no cinema documental.
Com curadoria de Pedro Mexia, este ciclo dedicado ao cinema documental apresenta 15 filmes organizados em três momentos, cada um centrado na obra de um realizador: Roberto Rossellini / “Figuras”, Éric Rohmer / “Experimental” e Frederick Wiseman / “Instituições”.
O ciclo abre a 14 de setembro, no Grande Auditório, com uma conversa entre o curador e Maria Filomena Molder, seguida do clássico Viagem em Itália (1954), de Roberto Rossellini.
O segundo momento inaugura a 25 de janeiro com um debate entre Pedro Mexia e Joaquim Sapinho sobre o filme A Minha Noite em Casa de Maud (1969). A encerrar o último momento, apresentamos Ex-Libris (2017), de Frederick Wiseman, introduzido por Pedro Mexia e um convidado.
Texto do curador
"O Poder e a Glória" não evoca a conhecida formulação cristã sobre os atributos de Deus, nem o livro homónimo de Graham Greene: é uma pequena mostra da cinematografia de três autores não necessariamente semelhantes, Roberto Rossellini, Éric Rohmer e Frederic Wiseman (o único ainda vivo). Quase todos os filmes que exibiremos são documentários, mas documentários diferentes, como é diferente a centralidade desse género na obra dos três cineastas.
Wiseman notabilizou-se como documentarista, com ficções muito esporádicas, e atingiu o estatuto de um mestre nesse domínio. O seu propósito e estilo são inconfundíveis: dedica-se há décadas a investigações imersivas sobre instituições, no sentido amplo ou estrito (assembleias legislativas ou tribunais, mas também bibliotecas, museus ou "férias na neve"). Wiseman recorre ao método da invisibilidade atenta: acompanha longamente os seus objectos de estudo, até que quase não dêem pela câmara, abdica dos depoimentos e do comentário em off, sem renunciar nunca (na planificação ou na montagem) a um ponto de vista. Mesmo que um documentário não seja "a verdade", Wiseman cultiva uma ética de não-manipulação e não-demagogia que o aproxima do seu compatriota Errol Morris, e o distancia totalmente de um Michael Moore.
Em Rossellini, cujos filmes de ficção "realista" todos os cinéfilos conhecem, os documentários nasceram de uma desistência e de um recomeço. Abandonando o cinema, depois de dissabores críticos e de uma certa descrença quanto ao rumo da sétima das artes, teve a intuição de que podia fazer da televisão um segundo cinema, mais abrangente, em termos de público, desmultiplicando-se em entrevistas, perfis, docudramas e até séries, sempre com uma intenção pedagógica que não negava nem menorizava. Visitando ou revisitando figuras do poder político do seu tempo ou de outros tempos, bem como as glórias intelectuais do Ocidente, este é um documentarismo "impuro", atreito ao mais exigente dos exercícios, a "reconstituição histórica".
Rohmer, por fim, não foi habitualmente documentarista, embora tenha realizado para a televisão programas históricos, didácticos e cinéfilos. Mas em Rohmer o importante é percebermos que os documentários funcionam como bloco-notas ou trabalho de campo (estudando o novo urbanismo, as novas e velhas relações sociais), materiais que depois usava nos filmes de ficção, ao ponto de ir buscar, quase ipsis verbis, ideias e conversas retratadas na não-ficção, seja o debate entre marxistas e cristãos ou os "jogos de sociedade", o seu tema favorito.
Numa época em que cada vez mais se esbatem as fronteiras entre ficção e documentário, "O Poder e a Glória" apresenta a "variedade da experiência documental": quase exclusiva, alternativa ou, digamos, auxiliar. Podemos mesmo concluir que todo o cinema, filmando pessoas e lugares, é um documentário.
— Pedro Mexia, setembro de 2025